Saiu da China aos dezasseis anos para os Estados Unidos e, actualmente, é um diamente ainda a ser lapidado pelas suas próprias mãos. O novo disco “Love Is in The Shit” é o quarto disco de Otay:Onii e revela um outro lado de uma artista que é muito mais que música. Entrevista.
HellHeaven: Começo por te dar os parabéns por “Love Is In the Shit”. Quais são as expectativas e pensamentos sobre o álbum?
Otay:Onii: Quero encontrar amor e continuar com o meu amor pelo mundo mesmo com todas as barbaridades cometidas, contínuamente, a mim e contra todos os humanos.
HellHeaven: Para aqueles que não te conhecem quem é Otay:Onii e qual o significado do nome, dado que é como que um alter-ego?
Otay:Onii: Este é um nome escolhido por alguns nativos americanos que vivem na reserva de Niagara Falls e que quer dizer “lobo”! Não vejo como um alter-ego, vejo mais como uma bênção de uma alma estranha mas caridosa!
HellHeaven: Aos 16 anos saíste da China e foste para os EUA. O que te fez tomar essa decisão e, sendo tão nova, qual foi a reação da família?
Otay:Onii: Os meus pais nunca estavam em casa, era só trabalho e mais trabalho! Eu queria ver o Mundo. Claro que ao principio não aeeitaram muito bem a ideia mas, com o tempo comprometeram-se a aceitar!
HellHeaven: Aos 16 anos sair de um país como a China e entrar nos EUA deve ter sido um choque. Qual foi a tua primeira impressão quando chegaste?
Otay:Onii: Refrescante! Muito diferente! Algo que posso dizer é que não tinha uma grande influência dos filmes de Hollywood ou programas de televisão enquanto crescia, por isso não me sentia a “viver o sonho tornado realidade”! Tinha apenas os olhos e ouvidos observadores de uma adolescente sobre um sitio tão diferente de casa! Rapidamente percebi que o Inglês que aprendi na escola não era usado aqui, isto porque na China ensinam inglês de Inglaterra e não o dos EUA, por isso tive de me adaptar às escolhas de palavras e palavras assim que cheguei!
HellHeaven: De que forma é que essas mudanças e adaptações moldaram aquilo que és enquanto artista e pessoa?
Otay:Onii: Vivi tempos difíceis nos EUA! Encontrei o racismo nos meus colegas de escola e, nessa altura nem sabia o que isso era! Aprendi da forma mais difícil: rejeições de visto ou rejeições sociais. Era vista como uma “espécie menor” e percebi quem decidia quem decidia quem poderia ter as mesmas oportunidades que os “verdadeiros americanos”. Era a “outra”, a “subhumana” por muito que me custe admitir! Com todas essas experiências aprendia a ser bondossa através da minha música onde posso chorar sem ser acossada, gritar sem ser expulsa, falar sem ser calada. Também aprendia a ser bondosa sem ser uma boa pessoa, porque a hipocrisia precisa de ser mandada abaixo, ainda que muitas vezes vezes tenha feito de forma extrema e desconfortável para mim e para os outros.
HellHeaven: Agora estás em Berlim, que é um “mundo” diferente dos EUA. É fácil para ti adaptares-te a novos países e estilos de vida? O que te levou a sair dos EUA?
Otay:Onii: Não saí dos EUA, apenas vim para Berlim trabalhar e os Estados Unidos são sempre a minha segunda casa! Não sei quanto a outros mas obter o visto é muito mais fácil na Alemanha que nos EUA e consigo trabalhar muito bem com as pessoas daqui porque tenho a sorte de me rodear de um ambiente em que se fale inglês! Saí dos Estados Unidos de coração partido, no entanto reconheço que não é difícil não quebrar. A Humanidade está uma merda em todo o lado, até mesmo na nossa comunidade (musical)! Agora “planto pequenos jardins”, onde tenho amigos com os quais me preocupo, no entanto, não me posso comprometer com nenhuma comunidade, família ou mentalidade de grupo. Tenho que aprecisar as coisas pelos meus olhos e quero amar com a consciência limpa, ainda mais nestes tempos em que vivemos! Isso é algo que vai viver comigo muito tempo, independentemente de para onde vá.
HellHeaven: “Love Is In the Shit” parece ser o teu disco mais pessoal e intimista, no entanto é também o mais dinãmico e experimental. Qual o desafio a que te colocaste e sobre o que é este disco?
Otay:Onii: Com este disco quero fazer melhores actuações ao vivo, talvez por isso as dinâmicas e as experiências tenham entrado “à grande”! Este disco é sobre tentar amar mesmo depois de te mandarem merda para cima!
HellHeaven: Actualmente, e com tudo o que vai acontecendo no Mundo, não é difícil perceber que o amor está na merda. Como olhas para o que se passa no Mundo e de que forma isso afecta o teu trabalho e este disco?
Otay:Onii: O que temos no mundo é que há um cobarde a seguir a outro! Isso está a destruir o Mundo que nos é tão querido, mas este Mundo é nosso e nós não vamos deixar que destruam a única coisa que nos resta: o nosso amor pelo Mundo.
HellHeaven: Não és apenas música e, podemos até dizer que és uma artista. Como te descreves tendo em conta que também estás envolvida noutras artes? Como lidas com a tua criatividade e como decidas onde colocar as tuas ideias?
Otay:Onii: A música é a minha guia e já me salvou ínumeras vezes! Era ela que estava presenta quando não estava mais ninguém e ainda está, mesmo com todos os olhares! É o que vou levar para a minha campa e deixar que o vento a leve! Também é verdade que a minha mente “navega” para tantos lugares com os quais não sou familiar, nem quero dizer como meus, mas a vida é uma jornada e, é preciso admitir desde logo, que podemos ser diferentes mas que, apesar disso, podemos existir no mesmo espaço e tempo, por isso não tenho medo de experimentar fazer coisas. Gosto de colocar os meus pensamentos na minha música, na capa do álbum e no merchandise de forma a garantir que a minha paixão está em todo o lado e que tudo vem de mim! Não quero baboseiras à minha volta e esse é sempre o meu primeiro passo sempre que tenho uma ideia: garantir que as intenções são sinceras e poder ter total responsabilidade no seu caminho!
HellHeaven: Com “Love Is In the Shit” já nas lojas o que podemos esperar de ti no futuro? Existe algo que queiras tentar? Qual o próximo desafio?
Otay:Onii: Estou a chamar todos os meus músicos favoritos para tocare comigo e tentar novas ideias para o concerto que vou dar no Roadburn em 2027!
HellHeaven: Qual a mensagem que deixas para os teus seguidores em Portugal…
Otay:Onii: O céu nunca é o limite! Amem em grande e vivam um pouco, não deixem que as poeriras nocívas que andam no Mundo tapem o vosso coração, alguém vos está a ouvir, mesmo que vocês possam não perceber ou ser testemunhas!