(Entrevista) SO DEAD - "A música deixou de ser o ponto central e passou a ser uma coisa periférica a outras coisas"

“A Wet Dream and a Pistol” é o mais recente disco dos hiperactivos So Dead! Em pouco mais de 2 anos a banda apresenta já uma discografia de respeito e isso, só por si, foi motivo de conversa com o baterista e vocalista Samuel Nejati que nos revelou os segredos para toda a criatividade, mas não só. Entrevista: Nuno C. Lopes

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HellHeaven: Começo por agradecer o vosso tempo e aproveito para vos dar os parabéns por “A Wet Dream and a Pistol”. Como se sentem em relação ao resultado final e como está a ser a receção ao álbum?
Samuel Nejati: Obrigado pelo interesse! Acho que de um modo geral estamos contentes, principalmente com a evolução do nosso som. Em termos de gravação e todo o resto uma pessoa nunca está satisfeita para ser honesto. Era um conjunto de músicas que já se estava a formar desde o lançamento do álbum anterior e precisavam de sair também. Em termos de receção ainda não temos bem noção, os singles foram muito bem recebidos, principalmente a Push. No que toca à receção do disco na sua integra, ainda não sabemos. Há tanto ruído e tanta maquinaria de marketing e algoritmos enviesados que é difícil haver uma expansão orgânica hoje em dia.

HellHeaven: Num curto espaço de tempo a banda lançou o EP e dois discos, tudo num espaço de 2 anos. Como é que conseguem esta produtividade e onde está o segredo para a criatividade?
Samuel Nejati: É assim que funcionam as nossas cabeças, o nosso estilo de composição é muito orgânico e há sempre ideias a fluir. Os lançamentos acabam por ser uma consequência do nosso gosto por tocar, não tocamos com lançamentos em mente. Acabamos por chegar sempre a um ponto onde temos vários temas que reflectem os tempos que estamos a passar nesse mesmo momento e culmina num disco. Segredo para criatividade não há, isto não é um trabalho nem somos obrigados a lançar nada felizmente, vamos fazendo. Mas uma das coisas que notei, e que fazemos de forma natural, é estar envolvido no submundo das artes, ir a concertos, falar com malta criativa, isso acaba por inspirar e por ser uma força motriz sem dúvida. 

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HellHeaven: Comparando o “A Wet Dream and a Pistol” com os registos anteriores, além da natural evolução há, também, um aumento da agressividade, principalmente em termos líricos. Concordam com esta análise?
Samuel Nejati: A nível lírico sim mas não é nada mais do que uma representação dos tempos em que vivemos, há muita revolta e tristeza, o que nos leva a escrever de forma mais direta e crua. Este projeto sempre foi uma forma de expressão do que pensamos politicamente também, e isso nota-se mais neste disco. 

HellHeaven: Em alguns momentos este disco é provocatório, incendiário e feito de protesto. É fácil por estes dias ter estes sentimentos? O que vos guiou nestes temas?
Samuel Nejati: É fácil claro, quem não os sente não está vivo. Foram muitos fenómenos que influenciaram isto: o presidente laranja, o Luigi, a extrema direita, a esquerda em implosão, Palestina, Ucrânia, Irão, e tantos países Africanos que caem no esquecimento.
Para não falar que estamos a assistir a um Genocídio em 4K por parte de um grupo de pessoas supremacistas. Portugal é idem aspas, influencia-nos diretamente e vivemos no dia a dia. Já sabemos que isto é para os ricos que podem tudo e para os estrangeiros que trazem dinheiro. Habitação, salários decentes, condições de trabalho… isso ninguém quer saber. O Português está condenado a ser explorado e rebaixado e a agradecer aos seus mestres o resto da vida.

HellHeaven: Há, igualmente, no “A Wet Dream and a Pistol” uma certa urgência mas que, na verdade tem a mira apontada para todos mas sim para cada um de nós. Tentaram, de certa forma individualizar o que todos deveriam pensar e refletir em conjunto?
Samuel Nejati: Não existe esse objetivo, de orientar as pessoas a pensar isto ou aquilo. O que há é uma expressão do que pensamos e sentimos e as pessoas podem fazer com isso o que quiserem. Quem quer pensar pensa, quem não quiser pensar não pensa que há muita gente pronta para pensar por eles. E urgência há sempre, vamos todos morrer, o amanhã não existe.

HellHeaven: Isso na realidade leva-nos à velha máxima de que a canção é uma arma. Contudo, nem tudo está bem no que à música diz respeito. Como olham para o panorama actual da música, não só em Portugal (que é um nicho), mas a nível global? Pode ser apontado o dedo também aos músicos ou o ouvinte acaba por ter, ainda mais, responsabilidade?
Samuel Nejati: Em Portugal há muita banda incrível, tanto novas como mais velhas, o problema é o que já toda a gente sabe: dinheiro e onde fica concentrado esse mesmo sujeito. Cultura em geral em Portugal não é uma prioridade porque as pessoas precisam é de pagar a renda e comer. O panorama mais lato da música tornou-se num complexo industrial. São festivais onde se pagam 200 euros por bilhetes, concertos a 80 euros. A música deixou de ser o ponto central e passou a ser uma coisa periférica a outras coisas. Nos festivais o mais central são as fotos no instagram estilo influencer com uma coroa de flores. As músicas que mais passam na rádio foram feitas para consumo, é o fast food da música. Não é por acaso que as bandas morreram e que quem faz música são um conjunto de pessoas que trabalham numa linha de montagem. Por outro lado, houve um revivalismo (como tudo acaba por ser cíclico) das bandas através de projetos como Idles ou Fontaines DC, esperamos que seja um bom sinal.

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HellHeaven: O que podemos esperar dos So Dead no futuro? Vão continuar com este ritmo de lançamentos? Que planos existem para irem para a estrada?
Samuel Nejati: Isso agora é uma grande incógnita, vamos lançar um split com os nossos camaradas The Twist Connection daqui a uns tempos e depois logo se vê. A nível de concertos, andamos mais selectivos e temos algumas datas interessantes. A maior parte ainda não foi anunciada. Gostaríamos muito de fazer uma tour internacional e já nos foi proposto, estamos a trabalhar nos detalhes para eventualmente poder anunciar.

HellHeaven: Qual a palavra que deixam para os vossos fans e para os nossos leitores?
Samuel Nejati: Ouçam música, não só a nossa, mas ouçam música. Apareçam nos concertos em geral também, falem com pessoal, juntem-se ao movimento underground de quem não papa a propaganda diária.

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