Bruno A., português mas residente na Alemanha, leva mais de uma década a produzir música sob o título Soundscapism Inc. Tendo «A Sea of Floating Mirrors», o mais recente álbum, saído há pouco tempo, a HellHeaven aproveitou para estar à conversa com o artista. Entrevista: João Gama

HellHeaven: Olá, e parabéns pelo novo álbum «A Sea of Floating Mirrors»! Como te sentes em relação a ele? E como está a ser recebido?
Bruno: Olá João e obrigado. Reparei que já é a terceira entrevista que vos dou em contexto SInc. e foi sempre um prazer falar convosco. É bom trocar impressões com pessoas como tu, que acompanharam a minha carreira já desde projetos anteriores. O álbum em si, tem sido geralmente bem recebido! Acho que as pessoas identificam no meu som uma emoção, vocabulário e individualidade muito particulares, pois nunca esteve no meu ADN fazer algo que soasse a outra banda. Nesse sentido, convém ter alguma mente aberta para entrar neste universo sonoro - uma vez lá, pode ser bastante recompensador! Sinto-me orgulhoso. Foram mais de 2 anos focado nestes 10 temas, que se desenvolveram gradualmente a nível de arranjos, linhas vocais e uma miríade de detalhes de produção e composição. Considero-o um trabalho bem produzido, fresco e sincero e que se ouve muito bem. Mais imediato que os anteriores. Essas facetas mais compacta e mais rock constituíram os principais pilares para mim durante a criação do ASOFM. Vários ouvintes comentam que mal acaba, ficam aquele apetite por mais e voltam a repetir…
HellHeaven: Já lá vão dez anos desde que Soundscapism Inc. lançou o auto-intitulado álbum de estreia. Como olhas agora em retrospectiva para esse disco e para o percurso do projecto?
Bruno: Sim, uma eternidade num grão de areia! Esses primeiros lançamentos têm uma magia e atmosfera especiais. São mais ingénuos e mais simples, menos produzidos. Ainda os fazia no meu, com meios limitados e bateria programada (o debut quase não tinha temas com “bateria clássica”). Estão cheios de boas ideias, mas terá faltado realizar algumas delas em pleno, sobretudo nos temas mais cheios e “rock”. Foi por isso que regravei quase por completo a Desolate Angels (um dos temas mais marcantes da minha carreira) e revisitei algumas vezes The Mourning After e Tomorrow 's Yesterdays noutros álbuns. Quando fizer sentido lançar um best of, quererei certamente não apenas remisturar e remasterizar como também regravar diversas secções dos temas mais antigos. Devido à tua questão reouvi o álbum de estreia e é de facto um álbum muito emocional, melancólico e tocante. Bem introspectivo e cinemático. Um bonito começo e definitivamente nada de que me envergonhe!
HellHeaven: Este novo álbum parece ser de certa forma uma curva nesse percurso, no sentido em que é mais directo e pesado, apesar de as atmosferas ainda estarem bem presentes. Qual foi a tua intenção com esta mudança de rumo?
Bruno: Não foi tanto uma opção consciente como o foi uma decorrência do primeiro tema que fiz (Rust and Sawdust), que me mostrou o caminho. Tenho de realçar que quase todos os álbuns - sobretudo os últimos 2 (os primeiros com bateria real) - têm os seus temas e partes mais pesadas. A diferença é que o novo tem mais disso, e tem músicas com estrutura um pouco mais tradicional, carregadas de hooks e harmonias vocais. Aquele fill & riff que iniciam o álbum colocam logo o ouvinte em sentido, mas mesmo esse tema (Venomous Hand of a Nightmare) é super-atmosférico e serpenteia por diversas partes mais soft ou ambientais. Acho que não há nenhuma faixa “só” pesada; as texturas atmosféricas terão sempre um papel fundamental neste projeto. Dito isto, All the Rage, Come Hell and Highwater ou Rust and Sawdust têm certamente mais peso que a maioria dos temas da discografia de SInc.

HellHeaven: De certo modo, «A Sea of Floating Mirrors» faz-me lembrar os tempos de Vertigo Steps. Esta semelhança foi algo que querias intencionalmente, ou simplesmente transparece por acidente?
Bruno: Tenho ouvido esse comentário com alguma frequência. Não foi de todo intencional, aliás, não noto muito as semelhanças, para ser sincero! Honestamente, o Bruno A. de VS não teria a experiência, ferramentas e andamento para criar um álbum destes. Porém, tento entender essa opinião, no sentido em que este é o álbum mais “heavy rock” de SInc. e sendo que as minhas melodias (apesar da sua evolução natural) acabam por estar refletidas em tudo o que faço - como uma marca d’água. E como este álbum é um pouco menos atmosférico e mais song-based, acabo por perceber a associação. Sendo honesto, sempre achei que quem compreendia realmente VS, não deixaria de apreciar SInc., mesmo nos primeiros tempos, onde a sonoridade era mais post-rock, ambiental e eletrónica. Apesar de os convidados ou certas opções sonoras se alterarem, a raiz está lá. Mesmo recuando aos tempos arcaicos de Arcane Wisdom, existe uma matriz comum, ainda que essa expressão fosse necessariamente mais caótica e menos maturada, também produto de outras influências.
HellHeaven: Outra coisa que não se pode deixar de notar é a última faixa do disco - a mais longa, mais rica e emocional. Qual é a história desta música? E qual foi a inspiração por trás dela?
Bruno: Essa destaca-se efetivamente - e não apenas pelo tamanho, título ou por fechar o álbum. Gosto do desafio de ter um tema maior, mais ambicioso, para explorar ideias de forma mais elaborada. Há mais espaço para contar uma estória, com o seu arco narrativo e twists habituais. Aquela primeira metade foi-se formando - muito épica, intensa, orelhuda - e quando apareceu a paragem, em stacattos e orquestrações diversas, foi tornando-se claro que teria de prolongar e desenvolver esse caminho. Costumo ser contido e poupado com os solos, mas aqui fez todo o sentido. Tinha de solar livremente naquela secção e o que lá ficou não anda longe dum primeiro take… tem toda uma emoção que jamais conseguiria recriar artificialmente. E há que respeitar o instinto no processo de criação, a inspiração e a espontaneidade. Até o Manuel acrescentou algumas vocalizações brilhantes. Posso confidenciar que um amigo próximo - e dos maiores fãs de VS e SInc. que conheço - não conseguiu conter a emoção quando lhe mostrei o tema, o que me confirmou estar a fazer algo “certo”.
HellHeaven: Conseguirias eleger uma música de Soundscapism Inc. (nova ou antiga) como a tua favorita?
Bruno: Boa e árdua questão! (risos) Teria de ouvir toda a discografia, coisa que há muito não faço. Escolher um único tema seria impossível. Assim de cabeça, poderia nomear-te alguns: Desolate Angels, Tell Me A Story, Neon Smile, Thunderstorms of My Youth, The Mourning After III, Bone Without a Dog, Kopfkino, Tomorrow's Yesterdays, Planetary Dirt, por aí fora… Quanto ao novo álbum, ainda é muito recente e por isso quase impossível escolher.

HellHeaven: Não sei se imaginas um dia voltar a ter os Vertigo Steps no activo, mas considerarias ter o Niko Mankinen a colaborar em alguma música de Soundscapism Inc.?
Bruno: VS é passado e não faz sentido regressar. Aprecio que ainda existam tantos fãs, mas foi pena não ter sentido mais isso durante os anos no ativo! Quanto ao Niko, já ponderei nisso a certo ponto, mas nunca avancei com a ideia. Imagina o que diriam então sobre este álbum lembrar VS! Curiosamente, encontrámo-nos aqui em Berlim no fim de 2024 e parecia “ontem”, foi um choque que já tivessem passado 11(!) anos após a última vez (Helsínquia, 2013). Ainda somos amigos com uma ligação especial, desde aqueles tempos meio selvagens onde nos conhecemos em Braga para gravar o 1o de VS com o Daniel (Cardoso), que na altura lá vivia!
HellHeaven: Neste novo álbum, como já vem a ser costume, tiveste também algumas colaborações - algumas já históricas (Manuel Costa), outras mais recentes (Marius Friedenberg, Filipe “Xinês” Caeiro). Queres contar como se estabeleceram e o quanto afectaram o resultado final?
Bruno: Sim, o Manuel já é residente. Somos amigos de férias da adolescência, nascidos no mesmo ano, ambos alfacinhas e residentes em Berlim. Havendo um segundo membro, seria ele. Por questões de disponibilidade, esteve menos presente em comparação com os últimos álbuns. Mas as suas linhas de baixo smooth estão todas lá! Foi a primeira vez em que o convenci a gravar backing vocals, fora a exceção do Desolate Angels (2023).
O Xinês, é outra estória curiosa. Comecei a ouvir falar dele na Moita durante as gravações do 2°e 3° de VS. Tinha juntado-se a Switchtense (a banda dos técnicos do estúdio Pardal e Hugo), e era um puto que estava “a partir tudo”. Estivémos perto de colaborar, por alturas do último álbum de SInc. Mas desta vez fez todo o sentido e acho que se nota. Foi um belo desafio misturar as baterias que gravou; fiéis às minhas programações mas com o groove, técnica, ghost notes e fills únicos dele. É um talento indiscutível e traz bastante dinâmica ao som.
O Marius apareceu há tempos através de uma fã germânica de VS, que nos pôs em contato. Tivémos algumas ocasiões no meu estúdio a beber umas cervejas e ouvir som e mais tarde, quando procurava vocalista, fez sentido experimentar o seu sangue novo e ideias abertas. Apesar da diferença geracional, temos muitas bandas em comum. E ele também alinha naquela parte mais retorcida, teatral e dissonante, a que acho sempre alguma piada. O tema onde participa é um dos temas mais marcantes do álbum e também o último que compus.
HellHeaven: Como também já vem a ser costume quem produziu a arte do álbum foi o João Filipe. O que nos podes contar acerca do sucesso desta colaboração, e sobre a capa do disco em si?
Bruno: Ora o João (@João Filipe T) já colabora comigo há muitos anos e em diversos projetos, além de ser um amigo próximo de longa data, fazendo todo o sentido continuar a contar com o talento dele. Acho que a capa está muito bem conseguida e destaca-se na estante quando posta ao lado de outras. Pretendia algo clean e marcante, um pouco como contraste à sonoridade mais pesada. E a capa é uma interpretação interessante - mas sempre subtil e não-literal - do título e conceitos gerais da obra. Sempre dei muita atenção quer a títulos e letras, quer ao aspecto gráfico dos meus lançamentos. E o João tem esse dom e visão. Será excelente poder ver a capa (e aquela expressão incrível no olhar da figura, quase flutuante e perdido no horizonte) em vinil, com o tamanho que merece.

HellHeaven: E quanto ao futuro, quais serão os próximos desafios do projecto?
Bruno: Tenho de pensar em formas de promoção e também a nível de vídeo. Entretanto renovei o meu setup no estúdio para obter ainda mais possibilidades sonoras e já comecei aos poucos a experimentar ideias novas… O desafio é sempre ir fazendo música melhor e mais memorável, jamais estagnar ou acomodar. Como artista, considero muito importante manter a relevância e nunca entrar em piloto automático ou fazer por fazer. Quando já não há nada de novo a dizer, o melhor é aceitar e parar.
HellHeaven: Obrigado pela disponibilidade. Em relação a entrevistas, a que pergunta gostarias de responder mas nunca te foi feita (e qual a resposta)?
Bruno: Aprecio sempre questões com sumo ou fora-do-caixote, por exemplo relativamente às viagens de longa distância que faço - e de que forma me influenciam. Ou também que livros e filmes/documentários tenho visto. Mas as vossas estão ótimas também, incluindo esta!
HellHeaven: Por fim, que mensagem deixas aos teus fãs/nossos leitores?
Bruno: Gostaria sobretudo que ouvissem o álbum e o mostrassem a quem possa apreciar. E, se gostarem, não deixem de adquirir no Bandcamp ou encomendar as edições físicas (a mim e/ou à editora). Porque as despesas de fazer um álbum são mais que muitas e todo o apoio conta. Até mesmo comentários e feedback são sempre importantes, sobretudo para um projeto a solo sem atuações ao vivo. Mais uma vez obrigado a ti e ao Nuno pelo interesse e apoio e até muito breve!
Em seguimento à conversa com Bruno A., fomos à procura do significado dos temas de «A Sea of Floating Mirrors». Aqui ficam as dussertações em Discurso Direto.

"Venomous Hand of a Nightmare" - Abertura forte e melódica, envolvente desde o início, misturada com secções mais suaves e toques eletrónicos. O riff principal é bastante contundente no seu poder e raiva melódica, quase melodioso. Adoro todas as harmonias melancólicas da guitarra. Também a ponte é profunda, tal como o encerramento espacial e emocional conduzido pelo piano. O Manuel Costa adicionou backing vocals, além do já saboroso trabalho de baixo. As letras são simples e evocativas, sobre um certo tipo de pesadelo.
"All The Rage" - Outro banger de rock. Uma das primeiras a ser escrita e uma das mais directas e pesadas de toda a discografia de SInc. Muitos riffs e toques eletrónicos, quase industrial por vezes, mas ainda assim mantendo o ambiente e o estado sonhador. Tem muitas surpresas e secções diferentes o tempo todo, sendo um tema cativante.
"Glimpse of the Infinite" - A faixa acústica do álbum e também uma das mais especiais - nostálgica e grandiosa, intimista e comovente, sem deixar ninguém indiferente. Focada principalmente na guitarra acústica-elétrica e piano, acrescentando percussão, bateria e camadas e solos de guitarra eléctrica. Bateria e baixo impecáveis. Os compassos “estranhos” da primeira parte revelam-se organicamente e acentuam alguma da inquietação do texto. As letras são altamente melancólicas e melancólicas e adaptadas de um texto original mais longo, de 6 estrofes.
"Lightbringers & Rainmakers" - O single óbvio, sendo instantaneamente memorável, e para cantar. Esta é uma faixa comemorativa com refrão e versos contagiantes, fluindo para uma secção final comovente. Liricamente, apresenta um tema recorrente meu (também presente em “Come Hell and Highwater”) sobre dançar e regozijar-se enquanto o mundo à nossa volta se afunda; as alegrias (irónicas) do apocalipse. Alguns ouvintes notaram que os faz lembrar os Vertigo Steps.
"Exploding in Slow-Mo" - Esta é uma faixa muito sincera. Veio de uma sequência de acordes que desenvolvi e depois, com o Manuel (baixista) em estúdio, acabámos por tocar um pouco e as partes seguintes apareceram organicamente, sem problemas. Depois adicionei as vozes em apenas alguns takes, tudo fluiu naturalmente e aparecem como mais um instrumento no ecrã. Em termos de letra, pode ser uma canção de amor para alguém ou para alguma coisa; se eu fosse alguém para escrever sobre isso.
"Rust and Sawdust" - Onde tudo começou. O primeiro material que escrevi para o álbum já tem cerca de 2 anos. Sugeriu logo uma direção mais rock, quando comecei a usar aquelas guitarras massivas. Uma odisseia distópica a 5/4, com um grande refrão épico. Liricamente inspirado por um livro que volta sempre para me assombrar; novamente, originalmente escrevi um texto muito mais longo e depois tive de o adaptar. É um monstro cool, sombrio e sinuoso, com algumas surpresas pelo caminho, uma faixa pesada e com uma tendência mais progressiva.
"Come Hell and Highwater" - Esta faixa de destaque tem uma curiosidade interessante: foi a última a ser escrita, depois de já ter decidido focar-me apenas nas 9 músicas. Simplesmente apareceu quando regressei de férias e apresentou-se tão cativante que TINHA que entrar. Refrão muito épico, groovy AF, ganchos por todo o lado e a ponte surpreendente, tudo a fluir sem esforço. Tem um toque moderno, talvez até influenciado pelo prog/djent. Adoro toda a eletrónica e arranjos que se tornaram parte integrante da música. E a bateria do Xinês é absolutamente arrasadora. Marius Friedeberg, o cantor convidado, é um jovem e talentoso músico alemão. A letra revela novamente um pouco do meu fascínio por um apocalipse iminente, vendo o atual estado de tristeza do planeta alimentado por energia negativa.
"Steamcity" - Uma faixa eletrónica “trip-hop-y”, sendo provavelmente a mais ligada ao som anterior da banda. Criei o “riff” principal há alguns anos, usando um pedal de guitarra incomum, que voltava para me assombrar - sabia que eventualmente tinha de o desenvolver. A faixa cresceu a um nível épico, muito cool, sensual e atmosférico. A secção da ponte toma um rumo inesperado e sinistro, traindo as minhas conhecidas tendências cinematográficas. Acrescentei voz sintetizada, que me deixou muito feliz. É uma faixa muito pessoal e especial: intimista mas grandiosa, ambiente mas dinâmica e arranjada ricamente.
"Star-Crossed Lovers" - Música sonhadora, muito atmosférica e comovente. Alguns vocais experimentais (múltiplas harmonias e efeitos de sintetizador vocal). Começa com a marca distintiva de SInc. com motivos limpos de guitarra e vocais quase “fofos”, antes da secção final explodir com enorme intensidade, impacto e melodia. Desfruta da bateria dinâmica e fills maciços na segunda metade, refletindo a emoção em exibição. Recordo um comentário curioso de alguém próximo: já no fim quando “refrão” começa “quase parece um musical”. Sincera e arranjada cuidadosamente, tem um toque romântico algo inesperado na abordagem lírica.
"Lipstick Smiles On Death Masks" - A mais longa e fecha o álbum, sendo uma espécie de magnum opus do disco. É uma montanha-russa emocional, cheia de reviravoltas. Estou muito orgulhoso dela. Novamente o Manuel contribuiu com backing vocals. O resultado é Infeccioso, progressivo e emocional.