Foi no final de Janeiro que saiu “Blood & Honey”, o segundo álbum dos nacionais Summer of Hate (S º H) que se concentra em dicotomias e dilui os sentidos. A HellHeaven esteve à conversa com João Martins (guitarra, teclas) para saber mais acerca da, ainda recente, banda e desta obra com potencial a disco do ano. Entrevista: João Gama

HellHeaven: Olá, e parabéns pelo novo disco «Blood and Honey»! Como se sentem em relação a ele? E como está a ser recebido?
João Martins: Demasiado bem, até me está a dar ansiedade. Por favor digam mal do disco. Quer fãs, quer a crítica (nacional e internacional). Não quero que pareça que estou a gabar-me, mas tem sido tão bom que me agravou as insónias. Para mim o mais importante é que seja especial para as pessoas e que seja algo que carreguem no coração, que lhes traga algum conforto ou que simplesmente tenha impacto na vida delas. Se a nossa música fizer isso, posso morrer descansado.
HellHeaven: Para quem não vos conhece ainda, quem são os Summer of Hate?
João Martins: Os S º H são um sexteto espinhense de psychgaze que pretende destilar traumas do passado e espalhar o marxismo gótico através de música bonita que também é psicadélica e barulhenta.
HellHeaven: «Blood and Honey» é já o vosso segundo disco. Como sentem que evoluíram desde 2022 com o disco de estreia «Love is Dead! Long Live Love!»?
João Martins: Apesar de o primeiro disco ter sido bem aceite, e de os ossos dos temas serem óptimos, estávamos muito verdes e inseguros no acto da gravação. Isso impediu-me de encarar o processo com a cabeça clara e não tivemos tempo para experimentar e polir certas coisas. Foi o primeiro disco que gravei em estúdio e não me senti preparado. Agora é o local onde me sinto mais confortável e todo o processo de gravação deste foi super tranquilo, fluído, positivo e extremamente organizado. Sinto que evoluímos todos como músicos e profissionais nos dois anos em que tocamos o disco anterior ao vivo e com outros projectos que fomos fazendo em paralelo.

HellHeaven: O vosso som é feito, em certa medida, de contrastes, havendo espaço para muita coisa diferente, desde o shoegaze ao pop, ou do psicadélico ao folk. Como criam estas músicas e quão difícil é misturar todos estes ingredientes para resultar em algo apelativo?
João Martins: Não é difícil quando o conceito da banda está pensado há anos, com as referências definidas. A nossa estética passa pelo ‘hippie’ e ‘gótico’. Notava dois tipos de banda quando assistia à cena underground nacional: as que “tinham um som fixe, mas não tinham temas” e as que “tinham temas, mas som sem estética”. O objectivo era arrebentar a escala nas duas coisas.
1º passo: estudo! Absorver o máximo de referências dentro da linha estética da banda. No meu caso é rock psicadélico dos anos 60, baroque pop, folk de todo o lado, post-punk dos anos 80, música clássica, britpop, post-rock, krautrock e tudo o que estiver em todos os cartazes do Amplifest - de preferência música com mais de 25-30 anos. É preciso saber o que se gosta e, mais importante, o que não se gosta, pois saber onde não ir ajuda, muitas vezes, a saber onde ir.
2º passo: Garantir que a essência da música (timbre, melodia e modulações) me faz sentir algo e que seja abrasiva para conjugar com as substâncias que o pessoal consome nos concertos. Às vezes a música psicadélica é demasiado meditativa e pouco emotiva, ou demasiado abstracta e pouco bombástica. Ou então o shoegaze é demasiado melancólico e adolescente, em vez de experimental. Tentamos esculpir a música para ser equilibrada em todas as frentes. Não me esforço para tentar agradar a toda a gente, mas acreditamos que a nossa música consegue dialogar perfeitamente com o cidadão comum através de melodias irresistíveis.
HellHeaven: E como se processa tudo isto? Quem são os principais compositores na banda?
João Martins: As jams começam comigo, quer sozinho com uma drum machine, quer em banda, a criar uma música mais crua e instrumental. Depois pegamos nos “motifs” que mais nos tocam, a Laura faz a letra e arranjos vocais e, transforma-se os devaneios psicadélicos numa canção. Na formação anterior o processo passava pelos outros que acrescentavam o seu arranjo ou mudanças na estrutura. Agora, o principal núcleo criativo são 2-3 pessoas, que falam com o produtor para não “empatar o samba”. No futuro talvez expanda à medida que vamos tocando juntos.
HellHeaven: Há algo na vossa abordagem musical (especialmente a parte folk) que me recorda os Blasted Mechanism. Gostava que me falasses mais das vossas referências.
João Martins: As minhas maiores referências para este projecto são a obra integral de Brian Jonestown Massacre, Dead Skeletons, Spiritualized, Slowdive, My Bloody Valentine e Telescopes. Os BJM obrigaram-me a acompanhar o processo criativo de uma pessoa também obcecada com os anos 60, mas com uma abordagem completamente pós-moderna e experimental. Foi um gajo que durante décadas experimentou com o próprio som para voltar ao início, enriquecendo o som de origem com tudo o que aprendeu. Os Dead Skeletons criaram provavelmente uma das mais importantes e subvalorizadas obras de música psicadélica com “Dead Magick” (2011) em que juntaram uma estética folk e tribal ao post-punk e ao shoegaze de uma forma completamente fresca e disruptiva que ainda nenhuma banda conseguiu recriar. É um álbum muito importante para mim, e sem ele os S º H não existiriam - somos uma versão mais limpinha e bombástica deles, como uma versão Muse deles. Aliás, se gostam de Blasted Mechanism, aconselho vivamente ouvirem o “Dead Magick” dos Dead Skeletons! São os primos góticos dos Blasted. Da parte médio-oriental sou mais influenciado por música sufi, tanto pelo conceito dessa vertente do islão como pela música de Bachir Attar. Neste disco também quisemos adicionar peso do stoner e doom, especialmente nas frequências mais graves. Acho que só em algumas experiências mais recentes dos Telescopes é que ouvi guitarras tão graves e pesadas a serem usadas num contexto shoegaze. Penso que estes extremos da música psicadélica podem coexistir e servir o mesmo propósito.
HellHeaven: O título do disco tinha como objectivo contrastar o sangue e o mel, para aludir a esses contrastes? Ou havia aqui uma outra intenção?
João Martins: É apenas um conceito bastante óbvio que criámos para poder forçar a expansão sonora da banda. Inicialmente até eram dois EPs diferentes, mas no fundo, não há uma separação entre os dois. Não soa a bandas diferentes: são as mesmas técnicas, afinações, timbres, uma temática única. Isto prova que uma banda de shoegaze não é apenas uma fotografia analógica da adolescência, mas sim uma evolução lógica do rock psicadélico dos anos 60. Prova também que desejar um “banho de sangue”, nos tempos que correm, não é uma falha moral, mas uma resposta óbvia e sã do cidadão comum à perversidade do sistema capitalista. Para mim não há resistência sem violência e encaro o lado “Blood” como um uso do sangue para incitar à revolução anticapitalista. Não gosto muito de letras políticas demasiado directas. O que tento fazer (julgo que seja esse o papel do músico) é que o instrumental em si incite as emoções, como uma poção mágica, e que as letras, nas condições certas, funcionem como um “mantra” que reprograma a mente - pode acontecer ou não. Acho que as grandes obras realmente subversivas já foram feitas; o sistema é que não mudou porque não é feito para mudar e, se calhar, todos estes movimentos artísticos na Europa e América do Norte, apenas serviram para apaziguar as pessoas, em vez de as levar à revolta. Achar que a crítica social na música, por si só, consegue mudar o mundo é um ataque à realidade.

HellHeaven: Tiveram na verdade dois engenheiros de som a cargo da produção do disco: Thomas Attar no lado Blood e Rafael Silva no lado Honey. Podem revelar mais sobre esta colaboração e como afectou a dualidade de «Blood and Honey»?
João Martins: Tivemos experiências muito semelhantes com ambos: trabalho, risota, bons takes iniciais, devaneios, epifanias e gosto pelo que se fazia. O Thomas é especialista em música global, especificamente médio-oriental (dabke, rock da anatólia, sufi, etc). O objectivo era criar um som novo, espécie de “Sonic Youth médio-oriental”, por isso demos-lhe mais controlo criativo para aprender com o mestre e evitar entrar em estereótipos e desrespeitar a música dessas culturas. Ele tem uma forma de compor mais “horizontal”, mais mudanças na estrutura, variedade entre blocos e atenção ao detalhe. Com o Rafa, como os temas já eram mais simples por si, foi mais uma questão de ele nos deixar meter o máximo de camadas possíveis em cada tema e depois esculpir a partir daí, obrigando-nos a fazer decisões. Pelo que foi um processo mais “vertical”, ou seja, temas com menos blocos mas mais carregados a nível de texturas. Outra coisa engraçada: gravamos os temas ‘mais globais’ longe de casa (Lisboa), mas os temas no estilo que nos é mais familiar ficaram aqui num estúdio junto ao CCStop (Porto). Acho que é uma metaforazinha adequada.
HellHeaven: Foram lançando vários singles antes de o álbum sair. Podem-nos contar mais acerca dos temas que escolheram para single de avanço, e o porquê das suas escolhas?
João Martins: Queríamos que o primeiro single fosse um autêntico pontapé na cara para quem já conhecia a banda. Quem ouve a “Não Sei” no nosso canal do Youtube e depois, de repente, ouve a ‘El Saif’ deve ficar bastante confuso, mas foi exactamente esse o objectivo. Queríamos mesmo passar da música de câmara que é a “Não Sei” para uma discoteca turca e fazer o statement de “voltamos em força”. Depois, voltamos outra vez a confundir com o tema “Além” que é praticamente uma sequela para “Não Sei” numa de apaziguar espíritos e dizer aos fãs do som anterior da banda “não vos esquecemos”. E, por fim, “Blood and Honey” para explicar um pouco à malta o porquê daqueles dois e o que irão poder ouvir no disco duplo. O último single é o que abre o álbum e serve como uma espécie de introdução para ambas as sonoridades do LP, fazendo uma espécie de blend entre as duas.
HellHeaven: Em “Além” há um sentimento muito português. O que podes acrescentar dele?
João Martins: Consta que o shoegaze é algo bastante sentimental e nós somos um povo bastante sentimental também. Já agora, o fado também tem origem árabe (berbere), portanto tudo acaba por estar um pouco ligado. Até a palavra “Além” começa por “Al” e se tirarmos o acento fica “Alem”, quase passando despercebida (por não portugueses) entre “Ashura” e “Mayura”.
HellHeaven: E no futuro, podem-se esperar mais temas em língua lusa?
João Martins: Tento incentivar a Laura a escrever em português, pois acho importante que as pessoas de cá tenham uma relação directa com a música e porque acho igualmente importante actualizarmos o léxico da música popular portuguesa e mostrar que fazer letras em inglês é apenas uma opção estética e não um compromisso que se tem de fazer para se ter sucesso. Os Molchat Doma mostraram que as pessoas do mundo estão muito mais receptivas a ouvir línguas que não compreendem do que aquilo que se pensava. Também devíamos combater um pouco este colonialismo cultural vindo dos EUA e Inglaterra. Apesar de parte das nossas referências vir da cultura anglo-saxónica, a música em si é sempre algo universal. De futuro queremos muito mais letras em português, mas isso dependerá do que a Laura sentir.
HellHeaven: E agora que o álbum já saiu, quais são os vossos planos?
João Martins: Tocar em todo o lado: Norte a Sul, Este a Oeste. Falta-nos passar por uma série de festivais chave cá em Portugal. Gostaria imenso de tocar nuns quantos anfiteatros. Adorava tocar na China. Sou super fã do governo chinês. Na Islândia era lindo. Marrocos também. Aliás, queremos ver como é que as pessoas reagiriam à “Ashura”, sendo a mais influenciada por música sufi. Por muito competentes que nos tenhamos tornado em estúdio, ao vivo é onde os temas vivem. Encaro a música como algo religioso e cada concerto é um ritual, uma cerimónia. Soa sempre diferente ao vivo e ainda bem. Desta vez temos malhas que vão fazer as pessoas mexer. Temos de aproveitar a vida e não podemos estar sempre a ouvir música triste em casa, como Rapunzeis.
Convidámos o João Martins para nos falar sobre o disco "Blood and Honey". Aqui ficam os temas em Discurso Direto.

Blood and Honey - A introdução do disco que faz foreshadowing para o que vem a seguir, cruzando o ocidente e o oriente. Um crescendo meditativo que podia muito bem ser um riff bluesy de Black Rebel Motorcycle Club, como também algo de Bombino, com uma bateria circular em constante expansão. A canção explode num refrão que poderia muito bem ser dos primeiros três discos de Radiohead e que entra em psicose numa espécie de anti-solo xamânico e o tema que acaba com o refrão. É a malha mais “rock n’roll” que temos, mas que desconstrói o blues tornando-o em algo mais etéreo.
El Saif feat Thomas Attar - Um membro da formação anterior ouviu o riff principal num filme de Bollywood cujo nome não me recordo. Queria experimentar um ritmo disco com as guitarras de SºH em afinação de cítara há já muito tempo. O tema tornou-se numa espécie de ‘Brianstorm’ (Arctic Monkeys) com guitarras noise rock com um edge meio sludge, com dois solos estapafúrdios do Thomas Attar (produtor do ‘Blood’) que adicionam power, insanidade e êxtase. O refrão é uma melodia latina (daí o ‘El’ em ‘El Saif’ e não ‘Al’) cheia de dramatismo, algo pouco habitual dentro do género. Os temas acabam por ser sempre uma espécie de colagem de vários elementos que criam um ‘Frankenstein’ coeso.
Ashura - A ideia inicial do tema tem 8 anos, mas a composição da versão final foi feita em conjunto, especialmente a ‘outro’. É uma peça que mistura a afinação ostrich com a afinação de cítara, num riff simples e bastante tradicional, sendo uma base simples mas que nos permitiu explorar texturas à Sonic Youth em que as guitarras desempenharam a mesma função que as flautas de Rhaita enquanto objecto sonoro. Geralmente estas flautas em conjunto fazem uma espécie de drone que soa a um zumbido febril, como se uma colmeia de abelhas atacasse um elefante. Florimos o drone com uma linha de baixo saltitante, overdubs estratégicos e ritmos de marcha circulares. O mantra do verso “the day of the blood / the way of the blood / let it flood” é um apelo ao derramamento de sangue no dia de ‘Ashura’, visto por muçulmanos xiitas como um dia de combate à opressão em que fazem procissões onde se autoflagelam e sangram pela rua abaixo. Esta celebração do derramamento de sangue enquanto combate é algo que já queria fazer há muito tempo.
Mayura - Provavelmente a peça mais complexa, experimental e mais trabalhada do disco. Exploramos a escala frígia numa espécie de ‘quiet’ / ‘loud’ à Pixies. As demos e a versão final não têm absolutamente nada a ver. Foi literalmente reconstruída em estúdio e em devaneio total assim que a Laura começou a fazer arranjos vocais. É a primeira malha de S º H com mudança de tempo. Penso que foi a canção mais S º H de todas, e não posso referir outras bandas. Não consigo descrevê-la a não ser como um ‘épico’ de post-punk com influência de shoegaze, psicadélica e guitarras à Place To Bury Strangers embebidas em algum stoner e psicadelismo etéreo. Termina com a ‘outro’ em versão acapella, aclarando o ar para a mudança de disco.
Alem - A ‘Alem’ foi uma tentativa quase irónica de criar um êxito de verão à anos 90 em português. Tem influências de britpop, shoegaze, jangle pop e entre outros ‘one hit wonders’ de há 35 anos atrás. Achamos que é o elo que faltava à música nacional e decidimos explorar essa ideia. O lado ‘Honey’ está assumidamente colado às nossas referências através da pastiche. Somos nós a brincar com sons que nos são familiares e a prestar tributo às pessoas que nos ensinaram. A ‘Alem’ apesar de não ser uma “colagem” directa de outras canções, é mais uma ‘vibe’ que quisemos visitar através de arquétipos musicais daquela altura. Vocês vão reconhecê-los - a batida de acid house, os ritmos de guitarra jangly solarengos e os refrões explosivos. Só não houve backing vocals de “tu-tu-tu-ru-tu” porque não me deixaram.
Joy - Apesar de ser claramente um tributo a Joy Division, a primeira melodia que se ouve no baixo é um tributo à ‘Sight of You’ dos Pale Saints. Não foi um roubo acidental, fiz mesmo questão de pedir ao Fábio para a encaixar. O ritmo ‘motorik’ arranca e aí entra a melodia da ‘Disorder’ num contexto krautrock. As guitarras vão crescendo e florindo a canção até ao primeiro refrão explosivo sem vocais. Um milagre a nível de composição graças aos arranjos vocais da Laura que transformaram uma canção banal e bastante ‘by the book’ numa das melhores malhas da banda. Sinto que a canção tem um espírito muito parecido a My Chemical Romance, especialmente da maneira como acaba. Torna-se bastante operática e dramática para um tema de shoegaze.
The Gospel (According to Summer of Hate) - Existem várias canções na história da música com o nome ‘The Gospel (According to X ou Y)’ mas esta é uma referência directa a Brian Jonestown Massacre, que têm um tema chamado ‘The Godspell (According to A.A. Newcombe)’ que, apesar de não referenciar directamente esse tema, faz referência ao som da banda de forma quase literal. Quis mesmo fazer uma malha de BJM e chamar a esse tema de ‘gospel’ pois essa banda é a ‘Palavra do Senhor’ para nós. É também uma espécie de despedida a esse som, pois partiremos para outras andanças após termos aprendido o que havia a aprender com eles. É a ‘outro’ do disco que o encerra em grande. Começa com um crescendo à Galaxie 500 com uma batida pulsante à Velvet Underground, quase como uma malha de post-rock dos anos 60 com arranjos à Spiritualized. A secção seguinte é outro arranque para outro crescendo. Três acordes apenas servem de raiz e tronco para uma árvore de sinfonias e micro-sinfonias dentro de sinfonias, que vão aparecendo e ficam até ao fim, com um solo psicossexual explosivo propositadamente colado a algo de Anton Newcombe na ‘Anemone’ com um final à ‘Champagne Supernova’ dos Oasis. O plano era que acabasse em ‘fade out’ mas eu arrependi-me e disse ‘deixa andar, quero que o pessoal ouça o shitshow todo’ e penso que fiz a opção certa. O tema acaba repentinamente e com os drones que estiveram lá aquele tempo todo mas em que ninguém reparou. Queria que o ouvinte ficasse mesmo ‘wow, isto teve aqui o tempo todo. Vou ouvir outra vez’.