Os The Cost, banda do fenómeno El Estepario Siberiano, irão estrear-se ao vivo no palco do Comendatio Music Fest. A HellHeaven esteve à conversa com Chris Atwell (baixo) e Peter Connolly (guitarrista e voz), discutindo a essência da banda, a actualidade da indústria e as expectativas em relação ao festival. Entrevista: João Gama

HellHeaven: Olá, comecemos então por apresentar os The Cost: quem são, como se formaram, e o que está por detrás do nome da banda?
Chris Attwell: Olá! Eu sou o Chris Attwell e toco baixo. Na guitarra e na voz, temos o Peter Connolly, que é da Irlanda, mas na verdade é meio espanhol. E temos aquele que dispensa apresentações: o El Estepario Siberiano, na bateria. Conhecemo-nos em Valência, onde estamos atualmente localizados, num estúdio chamado NovoEstudios que é propriedade do quarto membro da banda: o Facundo Novo. Ele é o responsável pela produção musical, está fortemente envolvido na composição e no som ao vivo, e é parcialmente responsável pela formação da banda.
O Peter e eu temos outro projeto que já está em andamento há algum tempo em Espanha, e costumávamos gravar muito no NovoEstudios. Havia momentos em que estávamos a gravar e ouvíamos uma bateria incrível e por acaso, era o El Estepario que estava a tocar mesmo por baixo da sala (e claro, ele também conseguia ouvir o que nós fazíamos). Sabíamos quem ele era e queríamos tocar com ele, e na verdade o sentimento era mútuo. E ele abordou-nos. “Sabem, pessoal, adoro o que estão a fazer. Adoro o elemento progressivo, principalmente. Bora colocar mais distorção nas guitarras e dar-lhe um toque de jazz.” E foi assim que iniciámos o projeto.
Quanto ao nome, foi ideia do Chris Senior. Estávamos já há algum tempo a discutir nomes para encontrar algo de que gostassemos mas também que nos representasse. E claro, todos os nomes bons já estavam escolhidos! Já tínhamos pessoal a enviar-nos ideias, e o meu pai enviou-nos finalmente o nome “The Cost”, e estamos-lhe muito gratos. Sentimos que realmente representa as nossas histórias, a nossa visão para este projeto e o seu nascimento: milhares de horas de ensaio, horas passadas na estrada, em aeroportos, e tempo que não é compensado. E o resto é história.
HellHeaven: Com os singles, os ouvintes já foram tendo uma ideia do vosso som, mas, como descreveriam vós mesmos o estilo dos The Cost? E quem vos inspira?
Chris Attwell: Na verdade “estilos” diria que seria mais apropriado, porque há muitas influências diferentes. Porque todos somos influenciados por pessoas e coisas diferentes. Somos músicos diferentes e todos temos muita experiência em diferentes estilos musicais. Isto é a beleza de um projeto como este e a beleza de trabalhar como músico. Estive exposto a muitos estilos, mas, diria que, para mim, isto foi voltar às minhas raízes, em grande parte, porque cresci desde os 12 anos, a gostar de muito nu metal: bandas como Limp Bizkit, Rage Against The Machine, System Of A Down. Parece que a era do nu metal está a regressar. Mas não posso deixar de mencionar o impacto dos Nirvana, dos Queens Of The Stone Age, e claro dos Metallica. Lançámos o álbum «Doppler Affection» em Março, e acho que se notam todas essas influências. Acaba por ter um sabor a anos 2000. Mas também há alguns elementos progressivos. Somos fãs dos Tool e dos Perfect Circle. Há bandas modernas que me inspiram pessoalmente, como os Sleep Token. É incrível ver a direção do metal e do prog hoje em dia. Em jeito de conclusão, simplesmente fazemos o que amamos. Queremos tocar, música que nos entusiasma. Combinamos e filtramos as influências de nós os quatro e é interessante ver o que criamos. Estamos muito entusiasmados com o que está para vir.
HellHeaven: Apesar de serem uma banda recente, já conseguiram colaborar com Serj Tankian na música “Her Eyes” para angariar fundos para a Save The Children. O que mais nos podes contar acerca disto?
Chris Attwell: Essa colaboração, para todos nós, foi nada menos que um sonho tornado realidade. Sei que o Jorge [Garrido] (El Estepario Siberiano) e o Serj já se seguiam há algum tempo, e tínhamos essa música que na altura estava praticamente pronta. Acho que estávamos a gravar um refrão na altura, e o Jorge teve a ideia brilhante de uma colaboração e disse “Quem é o maior tipo que poderíamos ter aqui?”. E entrou em contacto com o Serj, que para nossa surpresa, foi super rápido a responder. Penso que em menos 24 horas, o Serj não só respondeu que gostou, como gravou e enviou todas as partes de volta. Em apenas um dia, conseguimos colocar o Serj na nossa faixa! Depois o Peter gravou as vozes em torno do refrão e do pré-refrão do Serj, porque eram secções novas, e terminámos a música. É inacreditável ter alguém daquela dimensão no nosso disco, além do facto de ele gostar mesmo da música.
Diria que o ponto de viragem, a razão pela qual ele realmente quis fazer isto, foi porque queríamos apoiar crianças que foram afetadas e ainda são afetadas em países devastados pela guerra. Obviamente, há muita coisa a acontecer neste momento, e queríamos mostrar o nosso apoio e o do Serj. Ele é um grande defensor do apoio às pessoas afetadas pela guerra. Ele fez isto sem cobrar um tostão, apenas por amor à música e pelo apoio aos necessitados. Não criámos um GoFundMe, mas sim uma espécie de campanha de donativos no YouTube para salvar as crianças, e todo o dinheiro foi para a instituição de solidariedade. Estamos extremamente gratos pelo apoio destas pessoas generosas que apoiaram a causa e ao Serj por colaborar connosco.
HellHeaven: A vossa promoção tem sido feita muito através do canal de YouTube do El Estepario Siberiano. Qual é a vossa opinião sobre a actual autopromoção online? Têm (ou planeiam ter) um contrato com uma editora para obter mais apoio?
Chris Attwell: O canal é enorme e, não há muitos que não o conheçam! O Jorge construiu este império e é incrível a quantidade de seguidores que tem. Tivemos o privilégio de poder lançar a nossa música na plataforma dele e chegar a esse público. O Jorge descreve a coisa muito bem: “a moeda hoje em dia na indústria é ter atenção das pessoas”, e nós acedemos a isso facilmente usando a sua plataforma. Diria que ter tão vasto acesso é muito raro na indústria. O primeiro single “Not For Me” alcançou mais de um milhão de visualizações no YouTube no dia 1 e quase de imediato teve cobertura mundial nas rádios e redes sociais. Foram milhões de streams! Claro que a qualidade interessa, nem tudo o que aparece online é bom, mas ter acesso a um vasto público ajudou.
O problema da indústria actual é essencialmente que se tiveres um público consegues com que qualquer coisa funcione. Costumo comparar isso a Hollywood e à Netflix. Vês filmes e séries que já estão disponíveis à tua frente. Mas há muitos filmes que as pessoas nunca verão, e não é porque não sejam suficientemente bons. O mesmo acontece com a música. Escrevem-se músicas incríveis que nunca são ouvidas porque não chegam ao público. Demoram-se anos a construir uma base de fãs sólida ou grande o suficiente para poderes fazer uma digressão. Mas é muito importante saber usar as ferramentas disponíveis e manter uma atitude positiva. Plataformas como o Spotify não favorecem os artistas, mas a verdade é que também nunca foi tão fácil criar uma audiência a partir de casa. Somos auto-geridos e auto-produzidos, o que antes seria impensável.
Agora temos um agente de reservas e começámos a trabalhar com um empresário. Não estamos realmente a pensar numa editora de momento, mas talvez mudemos de plano no futuro. Estamos numa posição única para ter controlo criativo sobre o que estamos a fazer e ser donos de tudo o que fazemos. E isso simplesmente não é comum na indústria musical hoje em dia. Por isso, sim, planeamos continuar como estamos e chegar o mais longe que pudermos com o apoio e a ajuda do público. Veremos o que o futuro nos reserva.

HellHeaven: E falando do El Estepario Siberiano, como avaliam o seu impacto na banda? Certamente que aumenta a visibilidade, mas acham que há o risco de ofuscar os The Cost como apenas “a banda do El Estepario Siberiano”?
Peter Connolly: Em primeiro lugar, gostaria de dizer que, ao final de contas, a banda é dele. Foi ideia dele, visão dele, e ele abordou-nos para criarmos este projeto em conjunto. Portanto, é definitivamente seguro dizer que é óptimo ter o nome dele a influenciar o curso do projecto. Isto, contudo, não diminui a importância do material que criamos. Compusemos um álbum completo, o nosso primeiro álbum juntos, e vamos compor muitos outros álbuns, o que nos deixa muito entusiasmados. Por isso, acho que o impacto que o nome dele tem na banda é algo muito positivo para nós. Tudo o que possa ajudar na visibilidade do nosso projeto será ótimo. E nada melhor do que isto, é algo absolutamente brilhante!
HellHeaven: Em breve, irão tocar no Comendatio Music Fest. Quais são as vossas expectativas para o festival?
Peter Connolly: Penso que a primeira coisa que nos vem à cabeça, a avaliar pelas edições anteriores do festival e também pelos artistas que vão estar presentes este ano, é que haverá música incrível por todo o lado, música completamente deslumbrante. Parece-nos que o público é mesmo apaixonado por música e vai dar tudo, assim como a equipa técnica. Tenho a certeza de que vai ser uma experiência incrível. Esperamos também, sem dúvida, ver belas paisagens por Tomar. Por isso, estamos muito ansiosos.
HellHeaven: E para depois, quais são os vossos planos mais imediatos?
Peter Connolly: Os nossos planos imediatos após o Comendatio Music Festival são voltar diretamente para o estúdio e continuar a trabalhar em material novo para o nosso próximo álbum. Paralelamente a isto, vamos ensaiar bastante para os próximos concertos.

HellHeaven: Por fim, que mensagem deixam aos vossos fãs/nossos leitores em Portugal?
Peter Connolly: “Portugal, como estão?!” [em português]. Mal podemos esperar para vos ver no Comendatio Music Fest, no dia 21 de junho. Tragam tudo, porque vamos fazer o primeiro concerto ao vivo dos The Cost e vocês serão a nossa primeira audiência! Por isso estamos ansiosos por vos ver lá! “Obrigado!” [em português].