Os UFH, lendas do rock nacional, embarcaram recentemente numa nova digressão como um novo álbum entre mãos. Este foi o ponto de partida para uma conversa com António Manuel Ribeiro (voz, guitarra) que se estendeu ao actual panorama musical. Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Olá, e obrigado pela disponibilidade. A banda já conta com uma longa carreira (46 anos). Já lá vai muito tempo desde o impacto dos “Cavalos de Corrida”. Como recordas esses tempos idos?
António Manuel Ribeiro: Nós lançámos em 79 um primeiro disco (o EP, «Jorge Morreu», que tinha 3 canções) numa pequena editora de Lisboa - a Metro-Som. E no ano seguinte fomos para a Valentim de Carvalho gravar o single, o que significa que eles nem sequer estavam a pensar que poderia ser um sucesso, visto ser um single e não um álbum. E de repente nós passamos directamente do 8 aos 800 (não aos 80!). Com os “Cavalos de Corrida” descobrimos uma vida que nenhum de nós conhecia - a vida do sucesso: os concertos, a televisão, as entrevistas… o mundo estava a abrir-se para nós.
Foi o primeiro disco de prata do rock português (em single), e claro ficámos maravilhados, mas também com a responsabilidade de termos de fazer alguma coisa a seguir, com a editora a dizer-nos para gravar um álbum. E agora olho para trás e vejo que este sucesso de vendas levou as editoras a acreditar nos miúdos - nesta época aparecemos nós, o Rui Veloso, os Táxi… Mas antes disso, precisavas de ter estatuto para gravar um disco.
E de repente a indústria também se revolucionou, porque nós estávamos a gerar uma indústria. Os estúdios foram sendo revolucionados, passaram a haver secções de produção e de promoção de discos, as capas passaram a ter fotografias de fotógrafos novos (focados no nosso tipo de música), e quando ias para a televisão já usavas ganga em vez de fatinho e gravata. Tudo mudou.
HellHeaven: E agora em 2025, sentes (tal como o resto dos UHF, ou o Rui Veloso que mencionavas) uma responsabilididade enquanto embaixadores do rock nacional?
António Manuel Ribeiro: Não penso em nada nisso. Sou muito low-profile, e recuso mesmo muitos dos convites que recebo. E não é por desinteresse, é para não fazer sala em eventos mediáticos. Prefiro aceitar convites para ir a uma biblioteca numa terrinha do interior para discutir algo interessante (como livros, poesia, atualidade política…).

HellHeaven: E aí está um novo disco «O Lugar do Rock». E qual é o lugar do rock em 2025? Não só UHF, mas rock em geral em 2025…, porque na actualidade não existe tanto uma imprensa musical, e todos acabam por ouvir rock, mas nem tantos realmente seguem o rock.
António Manuel Ribeiro: Existe agora um movimento de recuperação do rock. É quase como patada, digamos assim, de um novo punk, uma necessidade crua de fazer música e dizer coisas que não sejam “plastificadas”. Há quem tenha boa voz e faz uma música que põe no youtube e fica feliz, mas que depois prossegue para outra carreira. E há todos estes programas de televisão que descobrem “talentos” mas depois muito poucos conseguem singrar. São estrelas que nascem e morrem sem ter tido quase tempo de vida. E isso está a condicionar a música portuguesa.
E sim, concordo que faz falta essa imprensa musical para divulgar aquilo que foi e é o rock actual. Por exemplo, antes sequer de nós começarmos, havia alguns jornais de música e algumas revistas semanais também. E por exemplo, mais tarde, o Blitz jornal em cada diário tinha, pelo menos, duas páginas dedicadas à música e cultura. Agora nada disso. É muito mais importante hoje, para esses meios, divulgar quem anda a trair quem, do que propriamente divulgar uma nova canção ou novo disco. Mas por outro lado, há as redes sociais que nos permitem contornar alguns desses bloqueios e facilitar a divulgação. É um sinal dos tempos…
HellHeaven: O facto de os UHF estarem há tanto tempo na indústria, acaba por, nos novos tempos, facilitar as coisas devido à vossa experiência do antigamente e de todos os desafios que tiveram? Ou acaba por ser difícil por serem uma banda antiga na atualidade?
António Manuel Ribeiro: Eu não faço essa gestão, ocupo-me com o lado da produção e da edição. Mas há pessoal dos UHF que está atento à divulgação que tem que ser feita. O que nos interessa é manter o foco naquilo que fazemos: a música. O que sai do mundo da música, já é a nossa vida privada, e portanto é privada.
HellHeaven: Falando dos novos tempos, o novo disco, «O Lugar do Rock», vai ser lançado em formato físico. Será vinil e cd?
António Manuel Ribeiro: Sim, ambos, mas também digital. Na verdade, este disco não estava nos projetos deste ano. Nós estávamos a trabalhar num outro. Mas às tantas disse à malta e decidimos ir gravar um disco como se fazia antigamente. Os artistas lá fora, no grande mundo, anglo-americano, gravavam discos para ir fazer digressões. E é que estamos a fazer.
A partir do final dos anos 80, o compact disc entrou em força, e na altura tinha 74 minutos para preencher. E toda a gente da América a Portugal começou a fazer discos inteiros que se tornaram muito longos. Tão longos que chegavas à 14ª canção e já nem te lembravas da 3ª. O próprio George Martin, produtor dos Beatles (entre outras coisas), falou sobre isso, dizendo que já não se escreviam discos geniais por se estar a incluir tanto material.
Portanto agora planeamos um disco que tivesse capacidade de entrar no lado A e no lado B de um LP com altíssima qualidade, e depois passámos essas canções para o CD também, em vez de o fazer ao contrário. Até porque já tentámos fazer o oposto com outro disco, e estamos a cronometrar segundos e a tentar cortar uma coisinha aqui e outra ali. E não gostámos, estávamos a descaracterizar o disco.

HellHeaven: E pode ser comprado tanto no vosso concerto, tal como na vossa página, correcto?
António Manuel Ribeiro: Sim. É uma experiência que estamos a fazer. Porque a principal cadeia de vendas discografia é a FNAC. É a cadeia principal, mas as lojas são quase todas no litoral. Mas nós tocamos além do litoral. Então e essas pessoas não têm direito a ter discos? Têm de encomendar, pagar portes de correio, etc. E portanto nós temos uma loja virtual a partir da qual vendemos para todo o mundo. Nós temos que criar soluções perante este mundo, que não se fecha, mas digamos que corta aquilo que não é tão interessante.
HellHeaven: Neste disco vocês revisitaram um bocadinho do vosso passado, não é? Como é que foi aqui olhar para esse passado, criar estes novos temas?
António Manuel Ribeiro: Fala muito de nós. Fala muito do princípio disto tudo. A minha primeira guitarra, fi-la eu, nunca tivemos a vida facilitada. Portanto, é muito esta questão de querer os pés assentes no chão e saber onde está o que é importante. A vaidade é uma gordura que não faz muita falta!
HellHeaven: E agora, vocês estão em digressão. Como é que está a correr?
António Manuel Ribeiro: Temos dado concertos muito bonitos, mesmo. Até propus a quem gere as nossas redes sociais que gostava de escrever um texto a falar de cada um deles. No outro dia, no Carregado do Sal, fui convidado para um debate com duas artistas emergentes (pintura e música). E depois houve ali uma pausa de uma hora em que os UHF tiveram um concerto no auditório, no mesmo espaço. O auditório começou sentado e acabou de pé! Levantaram-se porque sentiram a emoção. Tivemos também um concerto no Seixal, por exemplo. Neste caso, um concerto pro bono a favor da Associação Nacional de Pais e Amigos Rett, para uma doença rara que resulta em insuficiências físicas em jovens. Estava esgotado, aliás transbordado. Já não havia cadeiras e as pessoas ficaram em pé. Foi muito emocionante!
Para nós um espetáculo não é apenas estar ali a tocar. É preciso comunicar com as pessoas no intervalo das canções. Nós temos que falar sobre o que está à nossa volta. Temos de humanizar a situação. No fim do espetáculo, depois de duas horas (ou mais), nós vamos para uma sessão de autógrafos. Estamos cansados e às vezes custa, mas vamos. Ficamos ali a tirar selfies e a falar com as pessoas. Só pode funcionar assim. Porque isto é o lado humano da música.

HellHeaven: Nesse sentido, sendo a música uma experiência. Como vês a situação actual de se ir para um palco com faixas pré-gravadas?
António Manuel Ribeiro: Naturalmente, tentamos ao máximo evitar fazer playback na televisão, mas às vezes não há condições. Por toda uma série de questões técnicas. Mas se tivermos de fazer playback, nesse caso estarei a cantar na mesma, porque de outra maneira o sincronismo da voz com os lábios não funciona. E ao vivo, um concerto não tem de ser perfeito. As coisas acontecem. Haverá um de nós que dará uma nota ao lado, e estão lá os outros para tapar o erro. Somos apenas humanos e temos que assumir essas falhas. Esta é a minha opinião, falha-se e depois segue-se em frente.
HellHeaven: Havendo agora novo disco e digressão, quantos mais anos de carreira vês pela frente para os UHF?
António Manuel Ribeiro: Não tenho uma bola de cristal para te responder! Não sei. Até valer a pena. Tem de valer a pena, porque isto é para nós, e sobretudo, pelo público. Nós escrevemos canções que se tornaram importantes porque o público assim o quis. Por outro lado, se nós quiséssemos fazer apenas os que fãs querem, só tocávamos sucessos. Mas vamos metendo assim outras coisinhas aqui e ali. Porque de outra maneira não haveria seriedade artística. Nós temos que desafiar as coisas. E portanto, vamos incluindo coisas novas também. Até temos canções que, inclusive, foram rodadas ao vivo antes de serem gravadas em estúdio, para podermos sentir o reflexo que as pessoas teriam às músicas. Portanto, isto é um mundo de descobertas. Quando deixar de o ser, esta descoberta para mim acabou.