“A Pathway to the Moon» é o mais recente álbum de Unreqvited, e um provável concorrente a disco do ano. Para saber mais sobre este trabalho, a HellHeaven este à conversa com o mentor do projecto 鬼 (“fantasma”, “demónio”; nome real: William Melsness). Entrevista: João Gama

HellHeaven: Olá, e parabéns pelo novo álbum «A Pathway to the Moon». Como tem sido acolhido o novo álbum?
鬼: Obrigado! O feedback tem sido muito positivo até agora, o que é sempre um alívio depois de investir tanto tempo e energia num álbum. É óptimo ver a conexão dos ouvintes ao disco, apesar do som ser drasticamente diferente do material anterior. Cada álbum é um pouco arriscado criativamente, por isso é sempre gratificante quando as pessoas apreciam a direção que tomei.
HellHeaven: De facto, houve uma grande evolução no som dos Unreqvited, principalmente se compararmos o primeiro álbum «Disquiet» e o mais recente. Uma diferença fundamental é o enriquecimento de partes líricas, e talvez mais suaves, em «A Pathway to the Moon». Como vês essa progressão? Qual era a intenção com este álbum? E dirias que no futuro a atmosfera do Unreqvited irá nessa direção mais suave?
鬼: Cada disco que lanço pode, por vezes, parecer um afastamento do material anterior ou, pelo menos, uma mudança significativa de direção. «A Pathway to the Moon» revela, certamente, a mudança mais drástica. O novo processo de tornar o projecto numa banda ao vivo foi um factor importante na decisão de trazer partes vocais mais líricas, mas também me vi a gravitar para paisagens sonoras mais vocais nos últimos anos. Acredito que esta será, sem dúvida, a direção do projecto num futuro próximo.
HellHeaven: Ao contrário do som, em termos de imagem, no entanto, «Disquiet» é o disco mais próximo de «A Pathway to the Moon». Enquanto todos os outros álbuns portam artes muito coloridas, estes dois são feitos de tons de cinzento. Contudo, ainda assim apresentam um contraste: o novo e mais suave é mais rico em preto, enquanto o mais pesado e antigo é muito mais brilhante. O que podes dizer sobre estas escolhas e os seus contrastes?
鬼: É uma observação interessante! Acho que ambos os álbuns partilham uma certa crueza, mas expressam-na de formas muito diferentes. «Disquiet» é um disco emocionalmente muito catártico. Penso sempre no som como uma espécie de desespero brilhante e abrasador, enquanto «A Pathway to the Moon» é mais introspectivo, como flutuar no vazio. Os tons mais escuros na nova arte refletem a vastidão do espaço, o desconhecido e uma sensação de deriva para algo distante e inalcançável.

HellHeaven: «A Pathway to the Moon» é provavelmente o álbum que preferes neste momento. Mas imagina que encontras alguém alheio a Unreqvited. Que álbum (ou até música) recomendarias como ponto de partida?
鬼: Penso que as duas opções seriam começar por «A Pathway to the Moon» e voltar atrás, ou começar pelo primeiro «Disquiet» e seguir em frente. Penso que experimentar o meu catálogo cronologicamente mostra o progresso que fiz como artista, mas começar com o novo álbum dará aos novos ouvintes uma melhor ideia do que está para vir no futuro se quiserem continuar a acompanhar o projecto. Para uma única música, “Void Essence/Frozen Tears” é um óptimo ponto de partida que inclui elementos novos e antigos.
HellHeaven: Está a tornar-se cada vez mais difícil classificar os géneros de metal, especialmente para bandas que cruzam fronteiras estilísticas. Unreqvited parece estar nesta área fundindo post-black metal e shoegaze. Tomando outras bandas como referência, vêm à memória Alcest e Deafheaven (talvez até MaybeSheWill). Concordas com estes comentários? E como vês a ideia de categorizar os estilos?
鬼: Sim, acho que estas comparações fazem sentido. Alcest e Deafheaven foram influências importantes, especialmente nas fases iniciais de Unreqvited. É interessante mencionares Maybeshewill, sempre me senti atraído pela música cinematográfica e post-rock, por isso consigo ver essa ligação. Foram uma grande influência no álbum “Mosaic I: L'amour et l'ardeur”. Quanto à categorização, penso que os géneros podem ser úteis como guia geral, mas tento não me limitar muito. Prefiro deixar a música falar por si do que me preocupar em encaixar numa editora específica.
HellHeaven: Como faixa bónus, incluiste uma versão de “Cornfield Chase” de Hans Zimmer no novo álbum. Nesse sentido, quais são as tuas fontes de inspiração não-metal (ou até não-musicais)?
鬼: As bandas sonoras de filmes foram uma grande inspiração para mim — compositores como Hans Zimmer, Howard Shore e Joe Hisaishi, definitivamente moldaram a forma como abordo a atmosfera na minha música. Gosto de criar música que evoque imagens e imaginação, quase como uma banda sonora de um filme que não existe. Fora da música, encontro muita inspiração na natureza, na literatura e nas artes visuais. Tudo pode ser uma fonte de criatividade para mim desde que evoque uma forte resposta emocional.
HellHeaven: O teu som produz uma sensação mista, uma dualidade de suavidade e dureza, ou desolação versus esperança. De certa forma, lembrando Olafur Arnalds nesse sentido. Para qual destes estados de espírito te inclina mais? Ou dirias que preferes permanecer nesse limbo a meio do caminho?
鬼: Acho que existo naturalmente nesse limbo. O contraste entre a beleza e a tristeza é algo que considero muito atraente, e gosto de explorar os dois extremos do espectro. Algumas músicas apoiam-se mais numa emoção do que noutra, mas, no final de contas, acho que a dualidade é o que define o som de Unreqvited.
HellHeaven: Tiveste Benjamin V. Cooligan e Jamie Turton como convidados em «Pathway to the Moon». Quais foram os seus contributos e papéis em todo o processo?
鬼: O Benjamin é o meu guitarrista ao vivo e um produtor extremamente habilidoso. Fez uma mistura de «A Pathway to the Moon» e também fez um solo de guitarra em “The Antimatter”. Jamie contribuiu com algumas adições orquestrais impressionantes em algumas músicas que realmente ajudaram a dar-lhes vida. Geralmente não colaboro muito nos meus álbuns, mas as suas contribuições elevaram o álbum a pontos a que não acredito que atingiria sozinho.

HellHeaven: Falavas de transformar esse projeto (mais pessoal) numa banda. Como estás a montar uma formação e quem vais levar ao vivo?
鬼: A minha programação ao vivo é composta principalmente por amigos de longa data, desde que seja algo que todos queiramos fazer. Acho que não conseguiria lidar com a estrada se não fosse com os amigos mais próximos.
HellHeaven: E há alguns planos para tocar na Europa?
鬼: Não tenho planos de momento, mas espero realmente poder ir o mais breve possível.
HellHeaven: Conheces a cena metal portuguesa? E estaria disposto a tocar cá? Se sim, vês possibilidades de o fazeres?
鬼: Estou bastante disposto e ansioso por tocar em qualquer lugar! Não sei se estou muito familiarizado com a vossa cena metal, mas tenho visto os Gaerea a fazerem sucesso ultimamente e são fantásticos. Penso que há certamente a possibilidade de tocar aí em breve, mas não há planos neste momento.
HellHeaven: Por fim, que mensagem deixas aos teus fãs/nossos leitores em Portugal?
鬼: Muito obrigado por apoiarem o que faço, significa realmente muito para mim. Nem fazem ideia. Saber que pessoas de diferentes partes do mundo se conectam com aquilo que crio ainda me surpreende hoje. Espero actuar em Portugal muito em breve.