(Entrevista) VISCERAL - "não conto histórias, simplesmente exploro conceitos, de forma abstracta"

“Eyes Teeth and Bone” é o segundo disco para os algarvios Visceral e, tal como no antecessor, a banda traz consigo uma dose extra de violência. A HellHeaven esteve à conversa com o mento da banda Bruno Correia. Entrevista: João Gama

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HellHeaven: Olá, e parabéns pelo segundo álbum “Eyes, Teeth and Bones” que saiu no início do mês! Como está a ser recebido?
Bruno Correia: Obrigado! Para já as reacções estão a ser boas, temos tido algumas boas reviews, e as coisas vão acontecendo a seu tempo.

HellHeaven: A última vez que falámos, Visceral era um projecto a solo. Contudo, tornou-se um trio neste álbum (e até já no single de 2023 "The Breath that Kindled Fire"). Nesse sentido, quem são actualmente os Visceral, e como foram integrados os novos membros?
Bruno Correia: Quando o primeiro álbum foi escrito e gravado, Visceral era suposto ser apenas um projecto de estúdio. Entretanto, após o álbum sair, comecei a pensar em tocar as músicas ao vivo, e encontrei músicos que permitissem avançar nesse sentido. Seria natural que nas gravações que viessem depois, os músicos que iriam participar seriam aqueles que estão comigo a ensaiar, e Visceral passou de um projecto com músicos de sessão para uma banda. Quem fez as primeiras actuações comigo, foram o Mauro Santos e o Rúben, que entretanto devido a condicionantes da sua vida pessoal e à actividade de Apocalypse Conspiracy, já não está connosco. Entretanto entrou o Zé Marques para a segunda guitarra e voz, e mantém-nos como trio, sendo que para actuações ao vivo, poderá haver a possibilidade de ter um músico de sessão ou fazermos com backing track de baixo.

HellHeaven: Qual foi a motivação para esta direcção? Apenas uma questão práctica para facilitar a apresentação ao vivo, ou houve aqui algo mais?
Bruno Correia: Ambas as coisas, e também, naturalmente, aquele ambiente de banda e não de projecto, em que  tocamos juntos e criamos a nossa química. Seria até injusto, tendo estes músicos a capacidade de tocar o material a um nível exímio, depois ir convidar músicos de sessão para gravar novos trabalhos.

HellHeaven: Em termos de processo criativo continuas a ser tu controlar as rédeas do projecto, ou com esta transição existe mais espaço de criatividade e negociação enquanto banda?
Bruno Correia: Sim, a maioria do material é escrito por mim, mas como em qualquer banda em que estive envolvido, rejeito o papel de ditador, e da mesma forma que no primeiro álbum com o Menthor, o Alex e o Guilherme, que tiveram a liberdade criativa de dar o seu input e até fazer certas coisas de forma diferente à que eu tinha primeiro idealizado, com os músicos que estão agora comigo, passa-se a mesma coisa, e todos discutimos as partes e peço sempre o input deles, se fariam diferente ou se querem experimentar outra coisa. O envolvimento de todos e a pertença são benéficos ao produto final e até à identidade da banda.

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HellHeaven: Tal como no disco anterior, houve espaço para convidados em “Eyes, Teeth and Bones”: a vocalista Célia Ramos no single “Loathe”. O que nos podes contar sobre esta colaboração?
Bruno Correia: A participação da Célia foi um pouco por acaso. A parte em que ela entra no tema “Loathe”, foi a dada altura de um tema de um outro projecto meu, e como tenho um estúdio de gravação, e a Célia veio cá gravar umas coisas dela, entretanto mostrei-lhe o que estava a fazer no momento, e ela disse que tinha uma ideia que ficaria bem naquela parte. Em 5 minutos gravou a participação vocal que veio a ficar na “Loathe”, e que se calhar até ficou bem melhor tendo sido da forma que foi, do que se entretanto estivéssemos a fazê-la de raiz e de propósito.

HellHeaven: O disco anterior “The Tree of Venomous Fruit” não era necessariamente um disco conceptual, porém tinha uma espécie de linha condutora, relacionado com o "fruto envenenado". Sendo a quinta música do novo álbum intitulada "Of Breadth and Poison", dirias que há aqui uma conexão entre os dois discos?
Bruno Correia: Há sempre, e como sempre fiz na minha criação lírica, não conto histórias, simplesmente exploro conceitos, de forma abstracta, com um ambiente obscuro e o mais tenebroso possível. É claro que aqui e ali, passam pensamentos mais concretos, como as dicotomias da árvore do fruto envenenado, que ainda tem outro oposto, sendo que “venom” é diferente de “poison”, ou seja, implica ser inserido e não comido ou bebido, o que ainda abre mais espaço à imaginação para perceber que tipo de frutos seriam aqueles daquela árvore, o bem e o mal, a noite e o dia. No novo álbum, penso que tentei ser um pouco menos hermético, mais bruto e extremos a acompanhar a crueza da primeira metade do disco, muito rápida e quase sem respirar.

HellHeaven: O som de Visceral é descrito como Death Metal/Grindcore. Parece-me pessoalmente que enquanto o primeiro álbum se aproximava mais do lado grindcore, “Eyes, Teeth and Bones” vira-se mais para o death metal, sendo mais técnico mas sem perder a sua força ou agressão. Concordarias com esta interpretação? Como interpretas a evolução da sonoridade e distiguirias os discos?
Bruno Correia: Engraçado que algumas das reviews que tenho lido, procuram colar-nos ao Grindcore, e até acabo por perceber, porque em poucas audições a rapidez da bateria fica um pouco na ideia, mas eu acho que é mais Death Metal que o primeiro, e até aqui e ali tem umas pitadas mais Black Metal. Acho mesmo até que é um disco muito mais melódico, embora tenha também espaço para alguma dissonância. E quem ouvir com mais atenção, percebe o contrapeso das partes pesadas de Doom que contrastam com os blast beats e gravity blasts. Como da linha conceptual e lírica, aqui entram os campos opostos, rapidez/lentidão, harmonia/dissonância.

HellHeaven: Por último, em relação a entrevistas, há alguma questão a que gostasses de responder mas que nunca te foi feita? Se sim, qual (e qual a resposta)? Gostarias de deixar uma mensagem para os fãs/leitores?
Bruno Correia: Não especialmente, é claro, que tal como nas reviews, é extremamente satisfatório para mim quando transparece que quem faz as perguntas se deu realmente ao trabalho de perceber a nossa música, e as perguntas são interessantes e dão espaço a que as respostas também sejam interessantes. Em breve estaremos a tocar por aí, apareçam, oiçam a nossa música, e se gostarem procurem adquirir o nosso material.


 

 

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