(Entrevista) YEAR OF THE GOAT - "“...um álbum que marca a desigualdade e a opressão impostas às mulheres … não é algo implausível”

Os mestre suecos do rock oculto, Year of the Goat acabam de lançar "Trivia Goddess". Este é um disco que aborda a era da caça às bruxas, e a história das mulheres face às religiões abraâmicas. A HellHeaven esteve à conversa com Jonas Waldhuber Mattsson (guitarra) e Mikael ”Pope” Popovic (voz, guitarra acústica e teclados), para falar deste álbum que saiu no passado dia 12. Entrevista: João Gama

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HellHeaven: Olá, e parabéns pelo vosso novo álbum, "Trivia Goddess". Como se sentem em relação a ele? Já há reacções ?
Jonas: Olá! Muito obrigado! Estamos muito felizes com ele. Trabalhámos nele tanto tempo que se tornou uma parte importante das nossas vidas e é ótimo finalmente partilhá-lo com o público. O feedback tem sido muito positivo até ao momento.
Pope: Obrigado! Devo acrescentar que fomos eleitos o álbum do mês pela revista alemã Rock Hard. Estou incrivelmente feliz e orgulhoso disso. Espero que isso leve mais pessoas a dar uma oportunidade à nossa música e que também a apreciem.

HellHeaven: Tematicamente, este álbum aborda a era da caça às bruxas, prestando homenagem às almas perdidas durante esse período. Numa escala mais ampla, usam o tema para dar voz aos oprimidos (especialmente com um toque feminista)?
Pope: Eu próprio sou membro, mas não porta-voz, do Templo Satânico. Os seus sete princípios ressoam bem com a minha visão sobre a igualdade de direitos para todos, independentemente de quem sejam ou quais sejam as suas convicções. Fazer um álbum que marca a desigualdade e a opressão impostas às mulheres ao longo da história da humanidade e nos dias de hoje não é algo implausível para mim, nem para nós. É um grito de guerra contra os sistemas religiosos patriarcais.

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HellHeaven: Quando se aborda o tema da caça às bruxas, é mais comum falar-se da Europa Central, ou de Salem nas Américas. Mas além de vós, já outros o têm abordado (por exemplo o último álbum dos Insomnium). Fica assim a curiosidade sobre quão impactante foi este período na Escandinávia?
Pope: Houve um período curto mas intenso no século XVI, chamado "O Grande Ruído" ou "Det stora oväsendet" em sueco. Dois rapazes desencadearam uma espécie de efeito dominó histérico com pessoas a apontar bruxas, numa área relativamente pequena, e pouco povoada, da Suécia num período relativamente curto. Ao longo de um período de oito anos, 280 pessoas foram mortas e o governo e a igreja tentaram impedir isso, se não me engano. Os dois rapazes foram encontrados mortos na floresta, talvez por vingança ou para prevenir a continuação dos eventos. Na altura, o impacto foi explícito para as pessoas mortas ou que corriam o risco de serem acusadas por capricho. Implicitamente, acho que ainda vemos este tipo de comportamento quando as pessoas dizem "woke isto" e "woke aquilo" ou dizem que tudo é "culpa daqueles malditos liberais" ou "malditos esquerdistas" ou, do outro lado do espectro, vemos isso na cultura do cancelamento e numa espécie de governo da multidão. Penso que fará parte da condição humana simplificar a realidade quando não se é suficientemente inteligente para extrair a verdade de todos os cantos e recantos.

HellHeaven: Voltando ao disco, «Trivia Goddess» é lançado seis anos depois de «Novis Orbis Terrarum Ordinis». Dado o sucesso do álbum anterior, que nível de pressão sentiram agora?
Jonas: Não tivemos muita pressão em relação ao álbum. Começámos a trabalhar em algumas músicas antes da pandemia. Uma delas (Witch of the Woods) até guardamos para depois. Gravámos para "N.O.T.O.", mas simplesmente não me pareceu apropriada na altura. Por outro lado, estávamos mais pressionados com a criação da banda sonora da sequela do filme Heavy Trip. Deram-nos bastante tempo no início, mas demorou algum tempo até conseguirmos perceber bem o que a equipa do filme procurava. Tivemos alguma liberdade, e assim que recebemos algum feedback, tornou-se mais fácil. É a mesma coisa quando fazemos música dentro da banda; só que um pouco mais difícil por termos de comunicar com pessoas que não são músicos e não conseguem expressar exatamente o que procuram. Mas no fim ficou óptimo!
Pope: Foi uma grande experiência de aprendizagem para nós trabalhar na banda sonora de Heavier Trip. Penso que melhorámos as nossas capacidades de composição e gravação no processo.

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HellHeaven: E, pelo outro lado, o que acham que os fãs esperam? Corresponderá às expectativas ou é mais provável que os fãs se surpreendam?
Jonas: Penso que a maioria dos nossos ouvintes reconhecerá o som como Year of the Goat, e sentir-se-ão em casa. Mas há algumas diferenças. Tivemos uma pessoa completamente nova por trás da mistura, e acho que essa é a principal diferença. Alguns amigos e técnicos de estúdio disseram que este é o nosso melhor lançamento até agora. Não fazemos ideia, mas talvez tenhamos trabalhado um pouco mais nas músicas desta vez. É a primeira gravação com o David atrás de uma das guitarras e acho que ele trouxe algo dos anos 80 que não tínhamos antes.

HellHeaven: Parece-me que este álbum, embora ainda baseado no rock dos anos 70, é mais melódico/épico e tem uma produção mais limpa/moderna. Concordam?
Jonas: Sim, acho que é o envolvimento do Tom Dalgety na mistura. Tínhamos um tipo diferente a misturar no início, mas, tal como o Peter Criss, simplesmente não conseguimos encontrar o som que queríamos. Não encontramos a frequência certa para comunicar. Experimentámos três ou quatro músicas, mas no final deu muito trabalho tentar que o som de base fosse do nosso agrado. Por isso, decidimos experimentar algo completamente diferente. Não sabíamos bem para onde recorrer, por isso vasculhei o cérebro em busca de um álbum recente que soasse realmente bem e lembrei-me que me tinham recomendado o último álbum dos The Cult. Escrevemos ao Tom e perguntámos-lhe se estaria interessado. Nem imaginávamos que teria tempo, mas felizmente teve. Ele compreendeu-nos imediatamente e falou em termos que nós entendíamos. Podia ser um som de bateria que ele comparava a um álbum de que gostávamos, ou um som de guitarra de um determinado amplificador. Ele fez um teste de mistura de "Alucarda" e ficamos imediatamente convencidos. Ele trouxe muito mais ao som do que poderíamos imaginar. Detalhes que talvez se ouçam na vigésima audição do álbum. E nós adoramos coisas deste género.

HellHeaven: Parece haver uma nova onda deste rock ocultista dos anos 70 a emergir, especialmente com bandas como os Ghost a tornarem-se grandes nomes. Como interpretam este renascimento? O público está aborrecido com coisas modernas (super produzidas)? Ou simplesmente anseia por estilos mais ousados ​​ou esotéricos/psicadélicos do passado?
Jonas: Acho que já existe há algum tempo. Pelo menos se pensarmos em The Devil's Blood, Graveyard, Lucifer e, como referiste, Ghost. Tendo os últimos feito muito sucesso. Acho que tudo acontece por ciclos. A música dos anos 70 já existe há algum tempo e consigo ouvir influências dos anos 80 em algumas das bandas mais recentes. Só espero que algo de novo saia disto. Seria um bocado chato ficarmos presos a esta roda dos anos 60, 70, 80 e 90. Porém, o retorno do vinil é agradável. Penso que isso se deve ao facto de a música nas plataformas digitais não significar nada. Quando era criança e recebia um álbum ficava a olhar para ele durante horas, lendo todas as letras e listas de agradecimentos. O mesmo acontece com o aluguer de um filme. Eu via o filme duas vezes antes de ter de o devolver. Agora que está tudo disponível, perde um pouco o significado.

HellHeaven: Lançaram dois singles até ao momento, "Alucarda" e "The Power Of Eve". Por que razão escolheram estes avanços para promoção do álbum? Planeiam lançar mais?
Jonas: "Alucarda" foi uma das primeiras músicas que gravámos nas nossas demos.
Acho que assumiu logo o papel de primeiro single. Há algo que te toca diretamente. Talvez sejam as melodias harmónicas, talvez o refrão. Não sabemos. Simplesmente pareceu certo.
"Power of Eve" também me pareceu uma daquelas músicas fáceis de ouvir com um gancho/melodia forte. Até fizemos uma edição de rádio, mas a editora optou por não a lançar como single digital, ficou apenas para o vídeo. Há ainda um terceiro single (faixa-título) que sairá antes do álbum.
Pope: Quanto à escolha de promover o álbum antecipadamente com singles, é mais uma decisão da editora, mas não nos importamos. É uma forma de tentar ser notado na avalanche de conteúdos mediáticos que está a ser disseminada atualmente.

HellHeaven: Imagino que estejam a planear fazer-se à estrada. É esse o caso? Se sim, há alguma hipótese de te encontrar em Portugal?
Jonas: Vamos para a estrada em Outubro/Novembro e esperamos poder ir a Portugal desta vez. Toquei lá em 2008 e lembro-me que foi muito fixe, por isso devíamos ir. Chateiem os vossos promotores para nos receberem.
Pope: Sim, queremos muito ir, mas infelizmente não depende de nós. O importante é convidarem-nos, como se fossemos vampiros do filme sueco "Let the right one in". Por isso, como disse o Jonas, avisem os vossos promotores de festivais e discotecas que nos querem lá.

HellHeaven: Obrigado pela disponibilidade. Por fim, que mensagem deixam aos vossos fãs/nossos leitores em Portugal?
Jonas: Muito obrigado pela entrevista. Esperamos poder visitar o vosso belo país em breve e dar alguns concertos por aí. Obrigado pelo apoio, significa realmente muito para nós. Stay heavy!

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E o que tem a banda a dizer sobre cada tema de "Trivia Goddess"? Pois bem, foi o que fizemos em Discurso Direto com Pope, um dos vocalistas dos suecos. 

The Power of Eve: No Jardim do Éden, Eva deu-nos o conhecimento do bem e do mal. Ela confiou na serpente, a única na história que realmente dizia a verdade. Ela é um símbolo da opressão religiosa das mulheres, mas desafiou Deus e é agora um símbolo do empoderamento feminino.

Trivia Goddess: Uma viagem em busca da proteção de Hécate.

Kiss of a Serpent: Um sonho de vingança. Não muito longe de onde vivo, a vinte minutos de carro, existe um local onde, segundo a lenda, uma mulher morta por bruxaria sussurrou algo ao padre pouco antes de ser morta. A sua dedicação em encontrar e executar "bruxas" fortaleceu-se depois disso. Gostamos de pensar que ela lhe disse que estaria sempre com ele, debaixo da sua pele, renascida em Satanás.

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Mèt Agwé: Somos levados da agência funerária para o local do enterro na margem do rio. O pó de zombie haitiano deixou-nos com a aparência de mortos. A reanimação acontece quando somos enterrados numa cova rasa e começa a luta pela liberdade.

The Queen of Zemargad: Lilith é por vezes chamada a primeira "esposa de Adão". Foi criada igual e não se submeteu a Adão. É um símbolo da libertação feminina... e uma súcubo demoníaca, se acreditarmos em homens religiosos.

Alucarda: Os horrores da orientação papal em matéria de saúde mental.

King of Damnation: Líderes de seitas religiosas e vigaristas a levar as pessoas à ruína.

Crescent Moon: Um anseio de mudança.

Witch of the Woods: O desejo de que uma bruxa dura venha matar os opressores.

 

 

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