ETERNITY - "O Mundo está a dar passos largos para um futuro totalitário" (Entrevista)

Mundicide” é o regresso dos Eternity aos discos e é um dos discos de destaque em 2023.

A HellHeaven esteve à conversa com Evighet, a mente de toda esta (agora) banda. Entrevista: Nuno C. Lopes. Review: João Gama

 

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HellHeaven: Começo por dar os parabéns pelo excelente disco que é «Mundicide», que é o vosso terceiro álbum. Que feedback tens recebido e qual a tua opinião sobre o resultado final?

Evighet: Muito obrigado! Finalmente este disco está cá fora e a resposta tem sido, na verdade, melhor do que nós antecipámos! (risos) Na nossa cabeça pensámos que íamos chatear algumas pessoas com a capa e com o uso de cores fortes, também o facto de incluirmos um tema como o «Gunmetal Sky» que é muito diferente do que tínhamos feito no padrão monocromático e muito escuro «To Became the Great Beast». Ainda que algumas pessoas tenham odiado a capa, a maioria do feedback que temos recebido tem sido muito positivo, felizmente parece que muitos dos que nos ouvem perceberam e abraçaram o que tentámos fazer com este álbum. Na minha opinião este álbum está fantástico, quer em termos visuais como em som, estou muito satisfeito e aquele edição em vinil foi o topo do bolo, encaixa muito bem e foi uma boa surpresa que a Soulseller nos fez!

 

HellHeaven: Muitas bandas dizem que o terceiro álbum é o mais difícil. Concordas com isso? Sentiram alguma espécie de responsabilidade ao fazer o «Mundicide»?

Evighet: Este é o nosso álbum do «covid», por isso as gravações foram muito difíceis. Tínhamos limitações sobre quantos de nós poderiam estar no estúdio ao mesmo tempo e muita espera entre as gravações devido aos confinamentos e toda essa merda! Foi complicado e houve alturas em que pensámos que não ia existir álbum! No entanto, o conteúdo do álbum: os temas, os conceitos, a capa e por aí fora, surgiram de forma natural, quase como se este álbum tivesse uma certa dinâmica ou uma vontade própria que exigiu algum esforço, mas essa parte foi fácil! Ainda com todas as dificuldades nunca senti necessidade de levar as coisas em determinada determinada direção que não queria. Como disse antes tínhamos a noção que íamos “pisar alguns calos” mas isso foi discutido pela banda e, ainda que com algum cepticismo pelo meio, em particular com o uso do planeta, depois de verem minha visão concretizada acabaram por perceber a visão e aceitar. Também questiono as minhas opções e, obviamente, que este álbum é muito diferente do anterior e sabia que estava a correr alguns riscos, também sei que um artista precisa de audiência e que o conteúdo artístico pode não valer de muito se não tíveres uma boa capa. Mas, estou muito satisfeto de como tudo ficou no final e considero ser um disco de Eternity.

 

HellHeaven: O «Mundicide» começou por ser um EP mas a pandemia veio alterar o plano. Esta foi uma alteração necessária para criarem em LP calmamente em vez de estar a lançar um EP em tempos catastróficos?

Evighet: O covid foi uma grande merda que se abateu sobre todo o Mundo mas para nós acabou por surgir num mau momento. As coisas estavam anadar bem e a banda estava a receber muita atenção devido ao «To Became the Great Beast», estávamos na estrada e a receber feedback muito positivo! E depois rebentou tudo nas nossas mãos e o Covid rebentou e parou tudo! A ideia de lançar o EP era de fazer algo para manter o momento e também porque já tínhamos material de excelência e, ainda temos por isso um EP ou um mini-álbum continuam a ser opções no futuro! Achei esta ideia muito boa porque me ia permitir correr alguns riscos e sair do registo ao qual as pessoas estão habituadas. Íamos começar a trabalhar neste projecto mas depois percebemos que os gorvernos iam continuar com as restrições mais algum tempo, por isso percebemos que lançar, o que fosse teria de ficar para depois e decidimos fazer um álbum! Sentimos que tínhamos todo o tempo do Mundo para deixar um álbum crescer de forma orgânica e foi assim que nasceu o «Mundicide»!

 

HellHeaven: Sem compararmos o «To Became the Great Beast» com o «Mundicide», a primeira grande diferença será a «luz» e o facto de este último ser mais térreo enquanto que o anterior era mais individualista e obscuro, concordas?

Evighet: Acho que existe alguma verdade nisso, ainda que não considere o «Mundicide» um disco light, até porque a maioria do álbum é sobre Satanás e guerra, a pestilência e sobre o fim do Mundo, o que convenhamos não é material alegre, mas percebo o que queres dizer! (risos) O «To Became...» era um disco mais pessoal, introvertido e vazio, e este é o oposto e é um álbum virado para o Mundo, algo que fica bem visível na capa. O «Mundicide» é a antítese do anterior e, ainda que não fosse minha intenção, percebei o que estava a fazer e abracei o álbum. Existe uma mensagem em tudo o que faço com esta banda e já o tinha mostrado na nossa primeira demo e há uma espécie de espelho em tudo isso. Fazer isto à escala de dois álbuns é uma ideia muito forte e bastante apelativa para mim, ainda que seja um caminho arriscado. Claro que há outras coisas, como o factop deste álbum ter sido feito por uma banda, ao contrário do que tinha acontecido com o disco anterior e, claro, o estado do Mundo quando foi feito. Sentia-me tão infeliz com tudo o que se passou nos últimos 3 anos que tinha de colocar esse sentimento no álbum, são essas coisas que se refletem e contribuem para que algo passo de interno para externo, ou de singular para plural.

 

HellHeaven: Parece-me óbvio que a pandemia e tudo o que isso trouxe à Humanidade acabou por alterar o conceito do álbum mas, o quanto foi afectado?

Evighet: O Mundo está a dar passos largos para um futuro totalitário e isso teve um impacto profundo no que se ouve em «Mundicide». Não só o Covid mas também a chegada da guerra à Europa, sem esquecer a deriva glacial que nos levará a uma nova guerra mundial e ao risco eminente de uma ameaça nuclear que acabará por destruir tudo. Este estado de «crise constante» que é o novo normal desde 2020 é preocupante e deixa-me preocupado com o futuro. Os confinamentos climáticos será o próximo passo se deixarmos, existem forças no Mundo que que nos querem deixar nus de todas as liberdades e de uma prosperidade relativa. São esses sentimentos que falo no álbum e que se transformaram na identidade do «Mundicide». Quanto às letras são um reflexo do tempo em que foram escritas e que, sem o Covid e todas estas merdas, seriam diferentes, de certeza!

 

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HellHeaven: Ou seja, este álbum é uma espécie de Manifesto. Será correto dizer que estamos a dar passos para o que será o fim das sociedades e o nosso falhanço enquanto sociedade? Como é que conseguiremos reverter tudo isso?

Evighet: Estamos a viver tempos interessantes e perigosos! Os desastres ambientais que estamos a assistir depois de anos de avareza e exploração são uma coisa, mas há também o factp de estarmos à deriva a caminho de uma 3ª Guerra Mundial e que leva a toda esta mudança demográfica que não é boa, de todo! Destas três ameças a única que nos é permitida falar é a das alterações climáticas, as outras duas são meros anátemas e serás cancelado e marginalizado se levantares muitas questões mas, repara, mesmo a proteção ambiental e a restauração do ambiente também é algo que eles não querem falar, tudo gira em torno de carbono ou nitrogénio e nós, as pessoas, temos de desistir de viajar ou ter carros, ou ter animais de estimação ou, sequer comer carne enquanto que quem manda não abdica de nada e continuam a ganhar dinheiro e a acenar com a guerra e a destruir o planeta para benefício próprio. Só há uma forma de parar isto e, mesmo sendo simples não é fácil: temos de nos erguer perante o opressor e pedir um melhor futuro para todos. Se não conseguirmos fazer isso estamos, certamente, condenados!

 

HellHeaven: Há uns anos decidiste ir viver para as montanhas, que mudanças sentiste em ti e com,o é que, viver isolado, te permitiu ver o que se passava no Mundo?

Evighet: Îsso já foi há algum tempo e isso permite-me ter a oportunidade de olhar para o passado com um copo de vinho, mas foi um período muito interessante! Deixar Oslo para trás e deixar de me preocupar com os assuntos, primeiro a observar de longe e depois a deixar d eme preocupar de todo, foi muito interessante! Até mesmo as mudanças que iam ocorrendo no Mundo eram vistas à distância e eram amaciadas pela neve e pelas montanhas que me rodeavam! Esses foram os aspectos essenciais que me fizeram mudar, encontrar a paz e estar focado no meu Mundo e encontrar o que era importante para mim em vez de me estar, constantemente, a preocupar e a responder à impulsividade que vem de fora para dentro! Claro que as coisas ficaram piores e estdos pelos Smartphones, iPads e toda a nova tecnologia! Felizmente a minha família tem uma cabana na floresta ou só há energia solareao há redeEstar desconectado pode ser uma benção! (risos)

 

HellHeaven: Regressando ao «Mundicidae», falavas à poucode que este disco foi criado por uma banda e não apenas por uma pessoa. Como é que foi trabalhar desta forma?

Evighet: Foi algo muito positivo! Acho que ter toda a banda a moldar os temas foi muito positivo! No álbum anterior fiz algumas demos que já estavam muito próximas do que tinha em mente para o resultado final. Só tive de enviar e depois tentar recriar em estúdio com os restantes membros! O «Mundicide» foi diferente, continuei a fazer demos e a enviar para a malta mas, desta vez íamos todos trabalhar em conjunto, riff por riff, alterar tudo oq ue merecia alterar e melhorar o que havia a melhorar. Toda a gente contribuiu para o álbum e por isso ele parece mesmo ter sido feito por uma banda, é um disco mais vibrante, vivo e, de certa forma, grandioso!

 

HellHeaven: Ainda que os teus temas sejam sobre guerra e sobre o caos, será que pensas mesmo desta forma e qual a mensagem de «Mundicide»?

Evighet: Sempre acreditei no projecto humano e que a Terra cresceu assim por um motivo! E que somos parte de uma jornada que será a soma de todas as experiências universais, de uma importância divina. Estes últimos anos abalaram a minha fé na Humanidade, mas acredito que ainda há esperança para nós. Infelizmente os nossos governantes foram bem sucedidos na formação massiva e na lavagem às pessoas, e há pessoas que estão prontas a abdicar das suas liberdades e a deixarem-se levar para a guerra e escravatura e a levantar qualquer bandeira que seja da moda, apoiando enquanto são manipuladas e levadas para a sua destruição. Gostava que as pessoas acordassem e que questionassem o que sabem e questionar tudo! O «Mundicide» está munido de uma mensagem muito directa na capa: estamos em guerra uns contra os outros e estamos a destruir a nossa casa e devemos pensar em tudo! Temos que pensar se a guerra, a morte e o clima são, de facto, coisas boas para nós e para o planeta! Em tudo o que crio há uma luz no escuro e uma esperança mesmo no Inferno. Num plano esotérico a capa é um símbolo de poder e uma energia que nos dá pistas sobre uma força que pode ser usada para combater os opressores e o planeta! Esta capa pode ser vista de duas formas: um símbolo de auto-destruição mas, também de esperança. Apesar de toda a falta de esperança devido à situação actual existe aquela luz verde ancestral, a Vontade da Terra a chamar-nos para si, a exigir que lutemos e que nos rebelemos pela nossa liberdade e pera nos libertarmos desta tirania.

 

HellHeaven: Agora que são uma verdadeira banda estão a pensar em ir para a estrada? Quais os planos sobre isso?

Evighet: Sim, já estamos a tocar ao vivo e queremos agarrar todas as oportunidades que conseguirmos. Para já vamos tocar no Midgardsblot Festival e estamos a preparar algumas coisa para o Outono, nomeadamente algumas datas aqui na Noruega mas, também, uma pequena digressão. Vamos ver o que acontece mas vamos tentar sair da Noruega e tocar pela Europa!

 

HellHeaven: Qual a mensagem que deixas para Portugal…

Evighet: Nas palavras do grande Fernando Pessoa acerca do, ainda maior, D. Afonso Henriques: “Pai, foste cavaleiro. Hoje a vigília é nossa. Dá-nos o exemplo inteiro e a tua inteira força!”. É a nossa vez agora, o nosso turno e os tempos atribulados estão a chegar, estejam preparados! Acordem, resistam rebelem-se!

 

 

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ETERNITY (NOR)

«Mundicide» (Review: João Gama)

Soulseller Records

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Diz-se que ao terceiro álbum se cimenta misticamente a identidade de uma banda. Para os noruegueses Eternity esse terceiro disco é “Mundicide”. Este é um trabalho forjado nas chamas do TRVE black metal norueguês do passado e serve como um grito angustiado, reagindo à loucura do mundo moderno. O estilo claramente advém dos anos 90, mas a sua produção é contudo bem mais polida. É da reminescência que se faz este disco, e a roda não se reiventa. A maioria das faixas ronda entre três a seis minutos, mas a última aventura-se a uns 10 minutos de duração – faltando-lhe algo para conseguir entreter por tanto tempo. Em conclusão este é um disco que se escuta sem surpresas, mas dificilmente se tornará memorável.

 

 

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