E se, de repente, uma banda de homenagem a Lucio Fulci fosse tão (ou mais) infame que o realizador italiano? Pois bem, isso é o que está a acontecer com os Fulci, eles que são a nova coqueluche do Death Metal e que tem vindo a cimentar a sua posição no underground! O novo álbum, “Duck Face Killings” é mais um exemplo disso mesmo e agarra naque que é, porventura, o filme mais violento do realizador italiano. Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Começo por vos saudar pelo mais recente “Duck Face Killings”! Qual o pensamento agora que o álbum está pronto e nas lojas?
Fiore: Este álbum é o nosso regresso ao Death Metal clássico de meados dos anos 90 e consegues encontrar influências de álbuns como “The Bleeding” (Cannibal Corpse), “For Victory” (Bolt Thrower), “Dark is the Season” (Benedictions) ou “Symbolic” (Death), entre outros! Escolhemos este filme para o conceito do disco na figura de um serial killer, introduzindo aspetos em que nunca entrámos antes, como o sadismo, a perversão, a violência e a degradação social. Ao mesmo tempo colaborámos com o realizador e ator Domenico Montixi para a criação de um trailer para o lançamento do álbum e levar os Fulci para o cinema, como já aconteceu antes no Mexican Cinema em Milão, nessa altura em que entrámos numa pequeno filme chamado “Tropical Sun”, dirigido pelos Ritual Video e que foi seguido de um concerto. Isto são coisas que nunca esperámos fazer no inicio da nossa “carreira”, mas temos outros projetos guardados no caixão! (risos)
HellHeaven: A banda está agora na segunda década de carreira e atingiu um estatuto de culto no underground e, ao mesmo tempo, uma carreira sólida. Como olhas para o percurso da banda?
Fiore: Estás certo! O projeto nasceu há mais de uma década! O imaginário “Fulciano” é, por si só, um culto autêntico! Ganhámos algum estatuto, especialmente no pós-Covid, onde espalhámos o “vírus” pelo globo: Europa, EUA, África do Sul… e tocámos com bandas como Carcass, Asphyx, I’m Morbid, Suffocation, Immolation, entre outros! O sucesso da banda vai muito além das nossas expetativas e estamos absolutamente satisfeitos!
HellHeaven: Com isso dito, todos esses fatores criam algum tipo de responsabilidade e de que forma lidam com o sucesso?
Fiore: Como te disse nenhum de nós alguma vez imaginou isto, por isso não sentimos qualquer tipo de pressão, nem que seja pelo simples facto de que fazemos o que gostamos: tocar fuckin’Death Metal! (risos)

HellHeaven: A vossa música é altamente influenciada pelo Lucio Fulci e o “Duck Face…” é baseado naquele que, provavelmente, é o seu filme mais infame. Qual a história do filme e de que forma está ligado ao disco?
Fiore: Acho que o “The New York Ripper” é o filme mais sádico e violento feito até aquela data, e talvez de sempre (risos)! Através da música, do grafismo e das cores o álbum conta o enredo do filme que se passa nas ruas de Nova Iorque onde os crimes violentos contra as mulheres são levados a cabo por um assassino em série que é apenas reconhecido pela sua voz idêntica ao Pato Donald. Os detalhes que fazem deste filme sádico e perverso são as cenas de sadomasoquismo, cortar a órbita ocular com uma lâmina em vez da garrafa partida que está na “rata” e que estão presentes nas letras das canções. Cada tema conta uma sequência específica do filme. O artwork e as cores, especialmente roxos e vermelhos, dão a ideia de uma cidade insegura, engolida pelos vicíos abusivos da noite. Os convidados no álbum ajudam a enriquecer e consolidar o conceito do álbum com faixas como “A Blade in the night”, muito softporn anos 70, e “Il Miele del Diavolo”, com muita melancolia e um saxofone muito emocional.
HellHeaven: Será, então, justo dizer que este álbum oferece uma banda sonora alternativa para o filme?
Fiore: Como referi cada tema conta uma sequência específica do filme, por isso talvez possamos considerar como uma versão alternativa e Death Metal da banda sonora. A ordem dos temas não dá descanso ao ouvinte e os ritmos são apertados, e os riffs são lâminas afiadas! A tensão é contínua mesmo nas partes melódicas! A única exceção é a “Human Scalp Collection”, que conta a história de outro serial killer, Frank Zito in Maniac, um filme dirigido por William Lustig e que conta com a participação do Wood, dos Skinless! Não podíamos deixar de homenagear este grande filme!
HellHeaven: A música consegue ser tão gráfica como os filmes de Filci, onde é que a vossa mente necessita de estar para criar este imaginário gore e sangrento que colocam na música?
Fiore: Temos de ser violados pelos pesadelos do realizador! Por norma vemos o mesmo filme vezes sem conta para ir ao detalhe e à mensagem propriamente dita com o objetivo de transpor estas visões extremas para música, depois as letras são escritas como se fossem visões homicidas de uma pessoa doente que sofreu um trauma!

HellHeaven: Recentemente lançaram também uma banda sonora para um jogo vídeo. Como é que isso aconteceu e qual a influência dos videojogos tem em vocês? São jogadores? Será esta uma experiência a repetir no futuro?
Fiore: Não somos gamers! Quando a oportunidade surgiu pensámos que seria algo fixe, tal como os Bolt Thrower nos anos 90! (risos) A colaboração começou como uma banda sonora para um comic que mistura elementos do cyberpunk, ficção científica e horror! Através da nossa música e do Talpah a banda desenhada ganhou vida como uma sinfonia de sons distorcidos e visões horrendas! O jogo “Cyberflesh” e os livros foram criados por Simone Alberto Grifone (designer do jogo), pelos desenhos do David Genchi e textos de Marco Taddei e são publicados pela Hollow Press! Nós ficámos com a banda sonora que foi lançada pela Time to Kill Records.
HellHeaven: Já existe uma digressão confirmada com Morbid Angel e Suffocation nos EUA. Quais são as expetativas em relação a essa tour e quais os planos para a Europa?
Fiore: Sim, é verdade! Em meados de Novembro vamos fazer parte da “Devastation on the _Nation Tour” e esperamos, antes de mais, ter uma experiência inesquecível e aprender bastante! Além disso, esperamos muita diversão, atitude e concertos memoráveis com salas levadas à loucura! (risos) Quanto à Europa estamos a fazer planos para um tour em 2025!
HellHeaven: Como descreverias um concerto vosso? O palco é o melhor local para viver e captar a essência e violência da banda?
Fiore: O nosso concerto pretende ser uma experiência onírica: visões doentias e riffs pesados! (risos) A intenção é levar os presentes a reviver os pesadelos do realizador ao mesmo tempo que fazem headbang extremo! (risos) à tocámos em diferentes locais, incluindo cinemas, mas na minha opinião, o melhor local, onde conseguimos maximizar a nossa expressão é em salas médias ou grandes, com luzes baixas e leves, com uma névoa mórbida e um ecrã gigante para projetar as imagens!
HellHeaven: Qual a mensagem que deixas para Portugal…
Fiore: Nunca estive em Portugal mas espero ir aí em breve deixar uma marca de horro no vosso país! (risos) Vejam os filmes de Fulci, principalmente o “City of the Living Dead”, “The Beyond”, “House by the Cemetery”, “Zombie Flesheaters” e, claro, “The New York Ripper”! Fulci lives!