Os Holandeses God Dethroned estão de volta com “The Judas Paradox” para distribuir mais uma boa dose de Blackened Death Metal. Mais de 30 anos de carreira e um novo álbum na bagagem serviram de mote para conversar com Henri Sattler (guitarra, voz). Entrevista: João Gama

HellHeaven: Olá, e parabéns pelo novo disco “The Judas Paradox”. Como está a ser recebido?
Henri Sattler: De um modo geral, a resposta tem sido muito boa. Recebemos muitas críticas - algumas são extremamente positivas e outras nem por isso. O que é bom, porque significa que o álbum se destaca e não é uma repetição do que fizemos antes. Se tudo tivesse sido do género “sim, ok, este é um álbum típico de God Dethroned, decente”, isso significaria que o álbum não tem identidade própria, o que claramente tem. Eu pessoalmente estou muito satisfeito com todos os elogios ao som, pois misturei tudo sozinho. O mais importante – muito mais importante do que as críticas – é a experiência dos (velhos e novos) fãs. É muito importante para nós quando as pessoas vêm ter connosco para partilhar a sua opinião sobre o álbum, na vida real ou nas redes sociais.
HellHeaven: Regressamos ao início, em 1991. Como te sentes em relação à vossa longevidade? Esperavas que a banda ainda estivesse por cá 35 anos depois?
Henri Sattler: Sabes, já enterrei e ressuscitei a banda várias vezes. Já tentei desistir, estava farto de tudo isto, mas “isto” encontra-me sempre de novo. Por isso, não, nem sempre pensei que os God Dethroned ainda estariam em força depois de todo este tempo. Mas aqui estamos nós, com um álbum que soa novamente novo e refrescante, e com muita energia para fazer digressões e tocar ao vivo. Viva a Ordem Hermética do Rei Serpente [Serpent King].
HellHeaven: A vossa sonoridade, e temática lírica tem evoluído ao longo do tempo. Contudo, mantiveram uma identidade própria em torno da sonoridade black/death, e do tópico anti-cristão. Como vês este desenvolvimento, e como pesas a estabilidade da identidade face à inovação?
Henri Sattler: Tenho de te corrigir aqui, as nossas letras não são “anti-cristãs”. Embora fossem no início, no “The Christhunt”, obviamente. Ainda lidamos com temas bíblicos, mas não como “prós” ou “contra”, mas mais como se tivéssemos uma perspetiva diferente. Há também muitos outros temas por que me interesso e sobre os quais escrevo. Por exemplo, escrevi três álbuns completos sobre a primeira guerra mundial. Portanto, qual é realmente o fio condutor, e a identidade estável? Está em que cada letra é a minha interpretação, nunca conto uma história literalmente, mas dou sempre o meu toque pessoal, por exemplo, apresentando-a sobre os tempos modernos. E nunca se trata de unicórnios cor-de-rosa ou outras coisas fofas, há sempre uma sensação de escuridão e desconforto. Não estamos aqui para fazer o ouvinte sentir-se feliz.

HellHeaven: Outra marca nas bandas com longas carreiras são as alterações na formação. E vocês sofreram várias. Como pensas que estas mudanças ajudaram a manter as coisas interessantes e a injectar nova criatividade no vosso som?
Henri Sattler: É raro uma banda da nossa dimensão manter a mesma formação durante 35 anos. Sim, operamos à escala global com fãs de todo o mundo, mas nem sempre é um trabalho a tempo inteiro para os membros da banda. Por vezes é um incómodo quando sai um grande baixista ou guitarrista, mas como disseste, sangue novo traz novas ideias e criatividade. Nunca considerei a banda como The Serpent King & Cia., deixo espaço para que todos tenham ideias, riffs, músicas.
HellHeaven: Nesse sentido, agora em “The Judas Paradox” têm novo baterista: Frank Schilperoort que se juntou em 2021. O que nos podes contar acerca da sua inclusão?
Henri Sattler: Já conhecia o Frank há muitos anos e partilhei o palco com ele quando toquei baixo nos Dictated. Quando o Michiel saiu, foi para mim uma escolha óbvia e natural. Bastou ligar-lhe.
HellHeaven: E este ano lançaram este novo álbum juntos, mas o primeiro single “Asmodevs” saiu ainda em 2022. Porque o decidiram revelar tanto tempo antes?
Henri Sattler: Podias ter perguntado porque é que demorou tanto tempo depois do primeiro single para terminar o álbum, obrigado por não o fazeres [risos]. A sério, já passaram 2 anos depois “Illuminati” e depois da era das trevas de 2020/21 estava na altura de libertarmos um novo demónio. Ou, o demónio mais antigo, na verdade. O resto do álbum foi escrito mais tarde.
HellHeaven: O “The Judas Paradox” para mim é um disco de “paradoxos” (ou contrastes) como o próprio título sugere. As músicas apresentam uma grande variação de tempos, e também se distinguem bem porque algumas são mais ricas em melodias enquanto outras mais directas na sua brutalidade. Concordarias com esta perspectiva?
Henri Sattler: Adoro quando a resposta já vem incluída na pergunta. Sim, tens toda a razão. Sabes, se um álbum é rápido e bruto do início ao fim, tudo perde força. Enquanto que, se lançar um inferno explosivo após uma passagem melódica, então irei agarrar o ouvinte. E há muito mais na música do que apenas ferocidade, mesmo num género extremo como o blackened death metal.
HellHeaven: Quem foram então os compositores principais neste disco?
Henri Sattler: Os principais compositores de “The Judas Paradox” sou eu e o guitarrista Dave. O baixista Jeroen também criou riffs e ideias que incorporámos ou, com que até construímos uma música completa (“The Kashmir Princess”).
HellHeaven: Tematicamente, dirias que este é um álbum conceptual?
Henri Sattler: Este não é um álbum conceptual como, por exemplo, o “Illuminati” e a trilogia da Primeira Guerra Mundial. No entanto, existe uma linha condutora de paradoxos, perspectivas alternativas e realidade distorcida. O título “The Judas Paradox” encaixa muito bem, tanto literalmente na faixa-título como nas restantes canções, embora tratem de assuntos totalmente diferentes.
HellHeaven: Agora que o disco já saiu, assumo que queiram sair para o tocar ao vivo. É esse o plano? E, se sim, há possibilidades de visitarem Portugal?
Henri Sattler: Na verdade, apanhaste-nos em plena digressão com esta entrevista. Estamos em digressão pela Europa com Batushka/Patriarkh e Vltimas e Ater agora. Portugal não está na lista infelizmente. No verão passado tocámos no Vagos metal fest, onde os fãs portugueses puderam provar o nosso novo álbum juntamente com uma seleção do nosso catálogo desde o Cristhunt até ao Illuminati. Quem sabe o que o próximo ano trará!
HellHeaven: Por fim, que mensagem gostarias de deixar aos vossos fãs / nossos leitores em Portugal?
Henri Sattler: Obrigado pelo vosso eterno apoio ao longo dos anos. Espero ver-vos a todos em breve novamente!