“A Scarlet Lunar Grow” é o, há muito aguardado, álbum de estria dos portuenses Iconsandria, lançado há poucos dias pela Black Lava Records. A espera valeu a pena e este é um dos discos do ano de uma banda que de revelação passou a surpresa. A HellHeaven esteve à conversa com a banda que se mostrou preparada para outros palcos de outras paisagens distantes. Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Começo, obviamente, por vos dar os parabéns pelo disco de estreia “A Scarlet Lunar Glow”, o que vos vai na alma com este objectivo realizado e qual a opinião sobre o resultado final? Icosandria: Ficamos contentes com o resultado final, tanto no que toca à produção quanto às composições do álbum. Foram temas que demoraram bastante tempo a ser construídos, e alguns provêm da época do EP, e até mesmo de anos antes deste (algumas secções e riffs). No final, acho que tudo culminou num conceito bastante coeso, apesar das diversas variações estilísticas presentes no álbum. É como se fosse a derradeira mistura de todas as nossas influências num só álbum, de certa forma.
HellHeaven: Icosandria é uma classe botânica de plantas hermafroditas. Como é que isso se vem fundir na vossa sonoridade mais filosofal e esotérica? Ou, será que reflete o ideal da banda, enquanto identidade única? Como surgiu o nome da banda?
Icosandria: O carácter floral e a inspiração na natureza constituem a base filosófica da nossa banda desde a sua concepção. Até mesmo no conteúdo lírico, encontram-se referências a este elemento, abrangendo desde problemas de saúde até aspectos mais cíclicos, como a mudança das estações, e os paralelos estabelecidos com diversas situações da vida.

HellHeaven: Com o EP de 2022 vocês conseguiram despertar atenções, isso veio trazer algum tipo de responsabilidade ou pressão à banda? Quais as expectativas?
Icosandria: Admitidamente, sentimos alguma pressão, até porque era o primeiro trabalho a ser composto em grupo, e com o acréscimo de que o EP de 2022 foi bastante bem recebido e conseguimos algum ‘hype’ no underground. Então, estamos um pouco sem saber o que esperar em relação ao álbum, até porque ele estica bastante mais as barreiras dos limites estilísticos e é experimental em certas partes.
HellHeaven: Muito mais que música, o álbum remete para um sentimento de contemplação, como um olhar para dentro visto de fora e exploração. Qual foi o grande objectivo em termos concetuais?
Icosandria: Existe um conceito e história muito forte por detrás do álbum, que com alguma análise das letras, penso que as pessoas vão chegar, mais ou menos, ao ‘main plot’. Para além desse conceito literal, existem muitas metáforas reais para o que está a acontecer no decorrer da ação. O grande objetivo foi transmitir esse conceito, que surgiu de forma genuína, e apresentá-lo da forma mais honesta possível em formato de música.
HellHeaven: Muito mais do que isso, este conjunto de temas permite um escape de uma qualquer realidade em que possamos viver. Como é que, enquanto indivíduos, se desligam de todo o ruído cosmopolita e social que vivemos, qual o desafio quando se pretende que a música possam ser trechos catárticos?
Icosandria: Em certa medida, esse ruído social foi também uma influência para o conceito, e quão sobreestimulado o personagem principal se sente, e a forma como ele navega no mundo no meio de total caos. Mas penso que o tempo que passamos individualmente sozinhos a elaborar nas nossas mentes conceitos, a captar esses bocadinhos de inspiração e a construir as músicas é algo que, de certa forma, requer uma disposição introspectiva e a capacidade de desligar do mundo e do que se passa ao nosso redor, seja em ensaio ou no quarto a compor. É como se as ideias navegassem à volta da nossa consciência, mas só as conseguimos 'pescar' quando a oportunidade e a disposição colidem no momento certo.

HellHeaven: Vocês são uma banda da cidade do Porto que, a nível cultural tem vivido em sobresalto. Como estão as coisas neste momento e como é, enquanto banda, gerir mais este desafio?
Icosandria: Apesar de sermos uma banda do Porto, a nossa projeção ao vivo, especialmente no futuro, é fora da cidade, portanto não tem influenciado de forma significativa a banda. No entanto, ensaiámos por um breve período de tempo no centro comercial Stop em 2022 e eventualmente tivemos de sair para arranjar outro local que nos permitisse ensaiar com condições até às horas da madrugada, foi a única situação mais a salientar.
HellHeaven: A nível nacional enfrentamos, também, uma cada vez menor oferta de salas para concertos, isso acaba por levar a que as bandas procurem a internacionalização. Isso é algo que está nos planos? Como olham para a escassez de locais para concertos e quais os planos para levar o álbum para a estrada?
Icosandria: Completamente, futuramente os concertos em Portugal serão cada vez mais exclusivos da nossa parte, por isso aproveitem esta digressão portuguesa em que estamos para nos ver ao vivo! Portugal merecia uma aposta mais incisiva na cultura em geral, infelizmente isso não parece estar nos planos de quem decide tais medidas. No entanto, pelo menos no presente ano, ainda queremos percorrer bastante o nosso país. Apesar disso, sabemos que a maioria do nosso público estará no estrangeiro, e é lá que vamos tocar maioritariamente nos próximos anos, especialmente no nosso subgénero um pouco nicho.
HellHeaven: Qual a mensagem que deixam para os nossos leitores e para quem não conhece (ainda) os Icosandria?
Icosandria: Ouçam o nosso novo álbum 'A Scarlet Lunar Glow', sigam-nos nas redes sociais e venham aos nossos concertos, que certamente serão sempre uma experiência única!