KATAKLYSM – Homens em Fúria (Entrevista)

A poucos dias do lançamento de «Goliath», a HellHeaven esteve à conversa com Maurizio Iacono para desvendar os segredos do 15º álbum da banda e, ainda, para recordar a passagem por Portugal. Entrevista: Nuno C. Lopes

 

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HellHeaven: Começo por agradecer o tempo para esta entrevista! A última vez que nos cruzámos foi em Lisboa na digressão que vos juntou a Soilwork e Wilderun, que foi um regresso aos palcos. Como correu a digressão e quais as memórias que guardas da passagem por Portugal?

Maurizio Iacono: Foi uma digressão longa! (risos) Não me lembro, exactamente, quantas datas forma, mas foram, certamente, uns 50 ou 60 concertos! Muito longa! Mas não a fizemos toda seguida, fazíamos um mês na estrada, depois íamos a casa umas semanas e depois regressávamos à estrada, foi uma forma para funcionar! Mas foi uma digressão fantástica, com muita gente a aparecer nos concertos. Portugal não foi excepção, ainda que tenha sido numa fase inicial. Lembro-me quando foi possível voltar a dar concertos em que houve alguns protestos, acho que em Portugal também houve alguns, mas o concerto de Lisboa foi fantástico e o público brutal e passámos um grande momento e tentamos sempre ir aí! É muito importante para os Kataklysm irem a estes locais, porque podemos passar um bom bocado, mas no geral, foi uma grande digressão e estamos muito satisfeitos!

 

HellHeaven: Esta era uma digressão que já estava planeada há algum tempo, mas depois apareceu o Covid. Como é que enfrentaram a pandemia e como é que, como músico, viveste esses tempo?

Maurizio Iacono: Claramente foram momentos difíceis para toda a gente porque nunca ninguém está a espera que algo assim aconteça. Um dos nossos maiores problemas foi ter terminado o «Unconquered» e estávamos a gravar o vídeo da «The Killshot» em Atlanta. Quanto nos preparávamos para lançar o álbum percebemos que o mundo estava fechado. Que os Estados Unidos iam fechar, que merda é esta? (risos) Estamos prestes a lançar um álbum, foi muito estranho! Os primeiros seis meses foram muito estranhos porque ninguém percebia o que se estava a passar e não foi um bom período para ninguém. Enquanto músico sabemos que a única forma de parar a existência de uma banda é dizer que ela não pode ir para a estrada, não podes ir aos clubes ou apanhar um avião! Claro que a situação já está ultrapassada mas foi prejudicada num momte de situações e vi miuitas coisas acontecerem a amigos. Os Kataklysm tiveram a sorte de estar numa boa posição e foram capazes de sobreviver, infelizmente muitas bandas não tiveram a mesma sorte.

 

HellHeaven: Até mesmo para os Katalysm, que já andam nestas andanças há 3 décadas deve ter sido a situação mais estranha que viveram?

Maurizio Iacono: Foi para toda a gente, acho eu! Toda a gente ficou perdida. Acho que isto nunca passou pela cabeça de ninguém. Alguma vez alguém ia pensar que o Mundo pudesse parar? Percebes! Foi tudo muito estranho! (risos)

 

HellHeaven: Com todo este tempo e com tantas mudanças no Mundo, na música e, no fundo, em todo o Mundo, como é que olhas para o vosso percurso e, em simultâneo, como olhas para a influência que a banda tem noutras?

Maurizio Iacono: Acho que o que nós fazemos é mostrar ao Mundo que não temos de ser a melhor banda do Mundo para ter uma carreira, basta seres consistente e levar a sério o que fazes e fazer boa música, tens de ser o teu maior juiz. Acho que se tiveres um caminho podes ter uma carreira. E nós sempre fomos muito fortes nessa área e, quando pensas em duas bandas consistentes e com lançamentos e com digressões somos nós e os Cannibal Corpse. Nós temos 15 e eles andam também pelo mesmo número, talvez mais uns, mas somos bastante semelhantes nos no que conseguimos. O grande segredo é continuar a seguir o caminho, acreditar e andar na estrada.

 

HellHeave: Existiu uma grande transformação no Metal até aos dias de hoje, sendo que o género é mais popular, qinda que, se mantenha no Underground. Mas há mais bandas, mais concertos. Como é que vês todo este hype em torno do género?

Maurizio Iacono: A grande diferença é a tecnologia! Quando comecei a nossa internet era o fax, não havia Enters! (risos) Por isso tínhamos de ser pacientes, esperar para a review estar na revista, ou banda. Ir a uma loja e comprar álbuns! Antes tinhas de esperar mais tempo e não havia tanta competição porque o Mundo parecia uma coisa enorme naquela altura. Por isso, o aparecimento da internet veio encurtar essa visão do Mundo e ficou mais fácil de comunicar. A tecnologia tens os dois lados, o bom e o mau! Mas tenho saudades dos outros tempos, em que não existia tanta preocupação com a imagem e estava tudo concentrado na música. Agora há muita preocupação com a imagem. Tem o lado bom porque te permite chegar a mais pessoas. E isso ajuda muito! Para im o Metal continua a ser underground, a única diferença é que se tornou aceitável, já não é um taboo falar sobre Death Metal! Agora já posso ir ver a minha avó e ela sabe o que faço. Agora é tudo diferente, olhar para o antes e agora, fico a pensar: que merda é esta? Ainda por cima tenho raízes italianas, imagina chegar a casa há 30 anos e dizer o que fazes! (risos)

 

HellHeaven: Ainda assim a Itália em uma grande história no Metal, talvez mais direcionada para o Power Metal…

Maurizio Iacono: Existem muito boas bandas, como por exemplo os Fleshgod Apocalypse ou os Hour of Penance, e mais umas quantas bandas de Death Metal que, claramente, estão a fazer as coisas bem, claro que também há os Lacuna Coil ou Wind Rose que estão num outro patamar, mas que fazem com o país tenha coisas muito boas no género! Uma coisa interessante em Itália é que devemos tocar sempre durante a semana, porque aos sábados eles querem é discotecas, até mesmo os metalheads vão! É incrível… é algo que eles não abdicam! (risos)

 

HellHeaven: Mas neste momento os teus pais devem estar satisfeitos com a tua carreira! (risos)! Falando do «Goliath», é um disco muito forte e parece ser uma mistura entre o que fizeram nos primeiros anos com aquela sonoridade que apresentaram na viragem do século. Estás de acordo com esta visão?

Maurizio Iacono: O «Goliath» é um disco muito diverso mas, também, muito agressivo até porque foi escrito durante a pandemia. Por isso há muita raiva, muitas questões e outras coisas que deixámos passar para a música. Este foi um disco muito duro de se fazer e, como tu dizes, é um casamento de ideias antigas com a modernização do nosso som, estamos a falar de uma versão melhorada e do que são os Katakçysm neste momento, com o James na bateria, e que tem sido muito positivo. Temos uma formação muito sólida e com muito boas ideias para escrever. Acho que este álbum é muito forte e, de certa forma, traz consigo toda a carreira dos Kataklysm.

 

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HellHeaven: Enquanto ouvia o disco não deixar passar em claro o poder que colocaram nos temas e percebe-se que não quiseram perder nada disso. De que forma se deixaram levar pela situação do Covid e balançar isso com tudo o resto que envolve o «Goliath»?

Maurizio Iacono: Algo muito importante para a banda é manter-se fiel aquilo que queremos fazer! Não estamos apenas a fazer música para nós, temos de pensar nos nossos fans que nos acompanham há 3 décadas, por isso também lhes devemos algo e temos de fazer algo que possa ser reconhecido mas, ao mesmo tempo, temos que modernizar o som e andar para a frente de modo a que não sejamos uma repetição. Não gosto quando uma banda lança um álbum forte e depois tenta sempre replicar e gravar o mesmo álbum vezes sem conta. Acho que nós somos bons a manter a nossa identidade! Claro que quando vives uma situação como a pandemia, em que o Mundo pára, em que vês os governos a agir de determinadas forma e começas a ver o regresso da censura, que era algo que, pensávamos, já fazia parte do passado! Tudo isso nos fez começar a pensar que não é normal! O conceito deste álbum é isso mesmo, a máquina que é Golias e depois o povo que são o David, que combatem este aglomerado de poder que tenta decido o que deves fazer com o teu corpo, como deves pensar ou como deves ser. Enquanto metalhead, e falo por todos, nós somos contra essas merdas, não somos conformistas, estamos fora do rebanho. Somos uma casta que tem nos concertos a sua igreja e que nos percebemos mutuamente! Ainda que este álbum tenha sido feito na altura do Covid, que também é uma espécie de Golias, mas faz parte da máquina, tal como os teus demónios ou os problemas de saúde mental. Se tens muito stress na tua vida e vives em medo nunca vais conseguir avançar. O medo é um inimigo, podes é ser tu ou ser a máquina!

 

HellHeaven: Temos estado a falar do Covid mas, parece que essa situação que deveria, talvez, ter unido mais as pessoas mas que teve o efeito posto e está tudo uma grande confusão. Temos guerra, temos lutas socias. Parece que estamos todos contra todos. Há alguma forma de dar a volta a esta situação e, será esta uma prova do nosso falhanço enquanto sociedade?

Maurizio Iacono:Tudo aquilo que foi conquistado está a ser perdido a cada dia que passa. A última coisa que pode acontecer é o regresso da censura. A liberdade de expressão é muito importante, ainda mais quando és um musico e escreves letras. Quero ter a capacidade de expressão o meu ponto de vista, os meus pensamentos e sentimentos na minha arte sem ter ninguém a controlar as minhas ações. Sem essa liberdade de expressão nem entrevistas como esta consegues fazer! O debate é importante e as pessoas precisam de discutir as suas opiniões. Neste momento há um problema com os governos que estão a dividir as pessoas e estão a fazer isso de propósito, porque se dividires vais conquistar, é a velha história. Se deixas as pessoas unirem-se elas ficarão mais fortes, e isso é a última coisa que eles querem. E, quando não funciona a raça, ou o credo, eles avançam para outra coisa qualquer! Acho que as pessoas precisam de se acalmar e debater em vez de gritar como estão a fazer agora! Estamos a perder a lógica e a chegar ao ponto em que tens que dizer que dois mais dois é cinco porque se não o fizeres e fores do contra já és isto e aquilo!

 

HellHeaven: Ao fim de tantos anos e tantos álbuns, ainda sentes aquele nervosinho quando sai um disco? Quais são as expectativas com o «Goliath»?

Maurizio Iacono: Claro que sim! Quando deixas de sentir isso é porque está na altura de parares! Enquanto isso existir, seja em palco, seja a gravar ou que tenha de fazer mil concertos! Continuo a preparar-me para o palco para continuar a sentir as emoções, e ainda tenho isso tudo, aquela alegria de voltar ao palco e a fazer o meu caminho com toda essa alegria. Isto é muito mais que um trabalho, não estou aqui para cantar e fazer dinheiro rapidamente, isso não dá para mim! (risos) Se fizer isso vou-me sentir miserável. É importante manter estes sentimentos e sentir que há um propósito. É por isso que continuamos a fazer álbuns como o «Goliath», porque é algo que nos une e onde podes encontrar pessoas que pensam como tu e eu! Na altura do Covid alguns músicos, que não vou revelar nomes (risos), começaram a dizer às pessoas o que fazer! Isso não é da nossa conta e achei parvo estarem a fazer isso. Como disse, liberdade de escolha. Estas duas coisas são super importantes e o respeito é tudo!

 

HellHeaven: O disco será lançado em Agosto e, claro, espera-se uma digressão. Já existe alguma coisa planeada?

Maurizio Iacono: Sim, o álbum sai dia 11 Agosto, no mesmo dia sai o vídeo de apresentação! Depois vamos para a Europa tocar nos festivais, vamos estar no Wacken, Summerbreeze, Partisan Metal Days, entre outros, estamos a falar de cerca de doze festivais. Depois voltamos a cabas para preparar a digressão do álbum e vamos começar com umas datas no Canadá. Para o próximo ano é que estamos a pensar regressar à Europa!

 

HellHeaven: O que podemos esperar desses concertos? Com tanto para apresentar, já decidiram o set?

Maurizio Iacono: Essa é a parte difícil para os Katakly, porque temos tantos álbuns e ter de escolher os temas vai sempre deixar alguém fodido! Costumamos perguntar aos nossos fans o que eles querem ouvir. Claro que temos sempre de tocar os clássicos e não tocar os «Cripled or Broken» ou a «Shadows and Dust» é parecido com os Slayer não tocarem o «Raining Blood» (risos)! Temos temas importantes que, obviamente, vão continuar no set mas o segredo é colocar temas que não sejam ouvidos há algum tempo! Com 15 álbuns é difícil chegar a todo o lado, e é por isso que as nossas digressões são curtas, assim permite-nos ir cariando o set.

 

HellHeaven: Depois de tantos anos qual é o desafio que colocam a vocês próprios e como esperas ver a banda daqui a , sei lá, dez anos?

Maurizio Iacono: Dez anos é muito tempo, até porque já estamos com 30 anos de carreira! (risos) Mas consigo ver os Kataklysm por cá mais uma década, desde que contiuemos na forma como estamos e a trabalhar arduamente, sendo espertos e com saúde. Acho que a banda vai continuar a evoluir e a não se repetir, este álbum é muito diferente do anterior mas o som é bastante semelhante, mas percebes que continua a ser Kataklysm, ainda que a irem para um sitio diferente! Vamos continuar por cá até os ossos quebrarem… até lá vamos continuar na luta! (risos)

 

HellHeaven: Qual a mensagem que deixas para Portugal…

Maurizio Iacono:Quero agradecer por todo o apoio ao longo dos anos| Infelizmente, na minha opinião, não fomos a Portugal tantas vezes como queríamos, no entanto, nos últimos anos conseguimos ir a Lisboa e Porto e, também, ao Vagos. Foi muito porreiro e temos de incluir o vosso país mais vezes! Adoramos o publico e agradecemos todo o apoio!

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