KILL THE THRILL - “O Mundo de hoje é o reflexo de décadas de loucura, erros políticos, perversão e controlo!" (Entrevista)

“Autophagie” é o novo álbum dos gauleses KILL THE THRILL e coloca um ponto final numa ausência de 19 anos no que a lançamentos diz respeito! A HellHeaven esteve à conversa com Nicolas Dick acerca deste novo registo, mas não só! Entrevista: Nuno C. Lopes

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HellHeaven: Deixa-me começar por dar os parabéns por “Autophagie”, qual o sentimento por estarem de volta e qual a vossa opinião sobre o resultado final?
Nicolas Dick: Muito obrigado Nuno pelo eu interesse nos Kill The Thrill! Estamos deliciados por, finalmente, lançar o “Autophagie” e poder voltar a pisar os palcos! Passou muito tempo desde o nosso último álbum, “Tellurique” (2005), durante esse período estivemos focados nas nossas próprias vidas e deixámos que o desejo de compor em conjunto maturar, visto que era impensável terminar a banda!

HellHeaven: A banda começou em 1989, um tempo em que a industria musical era uma coisa totalmente diferente. Que memórias guardas desses tempos e como olha para a industria nestes tempos digitais?
Nicolas Dick: Nos anos 90 parecia mais fácil de tocar ao vivo, até porque as redes paralelas do underground eram mais numerosas. Começámos a andar pela Europa com concertos em centros sociais italianos na Polónia e Suíça e existia um grande movimento, muito ativo e a dar um grande apoio. Para os artistas independentes não existiam muitos mais locais para tocar e as salas “culturais” não estavam preparadas para receber Heavy Metal ou Hardcore. Nos dias de hoje as salas já arriscam mais, ainda que programem artistas de Rock mais mainstream, mas essas salas já não têm programadores mas sim managers, prlo menos em França.
Naquela altura as condições eram precárias, mas temos boas memórias das experiências, a urgência das situações significa que as organizações tinham de encontrar soluções rápidas e inovadoras, mas as pessoas lutavam para ter música e por a manter viva. Isso continua a acontecer, mas tens a Internet, os fóruns, as redes sociais, etc. o único senão é que isso deixa as pessoas sem capacidade de partilhar música e, até mesmo, ideias, visto que o marketing se apoderou de tudo.
Actualmente é fácil e difícil, ao mesmo tempo, para as bandas terem visibilidade, devido ao aumento de propostas, de certa forma o digital veio afundar a música. Para bandas que façam parte de um nicho só os que tiverem um management muito forte podem ter lugar.
Feitas as contas, não é assim tão importante, certo? Novas ferramentas, novos conceitos e temos que nos adaptar e dizer que antigamente é que eram bom! Por outro lado, não te consegues vender a ti próprio, o que é uma loucura, a maioria dos clubes só agenda uma banda se estiver numa agência, que são os fazedores de chuva na industria, sem eles não consegues tocar ao vivo! Assinas ou morres!

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HellHeaven: Ao longo dos anos os Kill the Thrill sofreram alterações na formação, no entanto isso nunca impactou na vossa ideia para a banda. De que forma essas alterações afetaram o crescimento da banda e como olhas para a banda actualmente?
Nicolas Dick: As mudanças na formação nunca afectaram a nossa direção musical! Tivemos uma sucessão de guitarristas que trouxeram a sua riqueza à banda. Por exemplo, no “Low” (1997) demos por nós a ser um duo com a Marilyn, e aí optámos por trabalhar mais o som, o que nos levou numa direção mais orquestral. Depois o Frédéric de Benedetti entrou para a banda em 1999 e as guitarras voltar a ganhar o seu espaço, entretanto ele saiu da banda, por volta de 2012, para perseguir outras paixões além da música, actualmente é marinheiro, e isso acabou por nos afetar num nível pessoal e musical que, estão intrinsecamente ligadas. Contudo, o que que quer aconteça, o projecto musical mantém-se, como se fosse uma identidade, algo que alimenta as pessoas que fazem parte dele. Não é afetado pelo tempo, ainda que esteja envolvido. Contudo os Kill the Thrill são uma espécie de monolítico. Actualmente a banda é composta por François Rossi na bateria, Stéphane Guíllouzouic no baixo, Julien Robaut na guitarra e eu na voz, a Marylin vai-se juntar a nós depois de recuperar de uma cirurgia ao ombro.

HellHeaven: Vocês são uma banda que não se expõe muito, contudo atingiram o estatuto de culto no Gótico e Industrial. Estão cientes da vossa importância?
Nicolas Dick: Na verdade somos várias vezes citados como uma das fundadores da cena noise em França. Pensamos que essa influência é relativa! Garantidamente que temos um problema com editoras! (risos) Gótico, New Wave, Industrial, Noise, Post-Punk, Post-Rock… não estamos inseridos, exclusivamente, nestes campos musicais, mas somos um bocadinho de todos, sem que isso seja detrator do nosso som. É um grande prazer ser legitimado, reconhecido e saber que existem pessoas suficientes que gostem da nossa música e que isso te garanta a sobrevivência mesmo que pares de tocar.

HellHeaven: Voltando a “Autophagie”, o álbum traz a banda no topo de forma e, ao mesmo tempo, mais violenta, não necessariamente na palavras, mas no sentimento, existindo uma violência secreta. Qual a mensagem deste álbum?
Nicolas Dick: Em parte este álbum é sobre a perda de identidade e se significado. As letras são pintadas com um óbvio sentimento de resignação e caos no caos da Humanidade. Este álbum, mais do que todos os outros, fala sobre "nós” , esta enorme massa que vagueia, irremediavelmente, em torno do abismo. Vejo-nos como espetadores de um Mundo a colapsar, testemunhas que observam a sua auto-destruição. No fundo, este é um disco sobre sobrevivência! Gosto dessa imagem de violência secreta que usaste , é uma imagem bonita e que descreve bem a nossa música, obrigado! A violência é sempre contida, e está pronta a rebentar, ao mesmo tempo que consegue encontrar formas de expressar e o “Autophagie” é um álbum que nos permite dar um push ao nosso som e à mensagem que queremos passar, como se fosse um andar para a frente na sua inércia.

HellHeaven: Uma marca dos Kill the Thrill são os “sons menos confortáveis” aliados a vozes que nos entram ouvidos dentro. Como descreves a banda nesta fase e quais são os desafios ao fim de três décadas?
Nicolas Dick: Este álbum aproveita muito do que são as texturas sonoras do meu projeto a solo feiro com uma lap-steel.! Entre este material sónico existe, por vezes, a sensação de ouvir fantasmas de cordas, instrumentos de sopro e vozes e instrumentos que não existem porque são a combinação de sons que interagem e combinam dando origem a outra coisa qualquer! Achámos que seria uma boa ideia convidar outros musicos para tocar estes instrumentos fantasmas. Ao longo dos anos tenho improvisado bastante e tenho muitas horas de ensaios e concertos, desenhámos este material para compor e orquestrar este álbum.
Um dos grandes desafios foi mudar do inglês para o francês e abraçar essa decisão, até porque a maioria dos artistas Rock utilizam o inglês. Isso obrigou-me a usar a voz de forma diferente, ou, melhor ainda, de forma inteligente, porque o inglês não é a minha língua materna, portanto a voz acabou por ser mais um instrumento e as palavras não tinham o poder evocativo que conseguem em francês, quando fazes isso estás, na verdade, a revelar-te e não podes fugir ou enganar!

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HellHeaven: Ao longo dos anos, especialmente durante e após a pandemia, assistimos a uma nova versão da sociedade, mais agressiva e menos tolerante, isso acabou por ter alguma influência no álbum e, como olhas para as sociedades actuais?
Nicolas Dick: O “Autophagie” foi concluído no pós pandemia, o que acelerou processo de finalização, mas o tema título já tinha sido escrito por mim há muitos anos. A perda do controlo Humano sobre as coisas que nos sustentam não é uma coisa nova! Integrámos a destruição no nosso funcionamento e, lentamente, organizámos o nosso próprio caos! O Mundo de hoje é o reflexo de décadas de loucura, erros políticos, perversão e controlo! Contudo, tenho esperança! Para mim a esperança é o tempo que cada um de nós tem para viver.


HellHeaven: Depois de tanto tempo afastados dos álbuns, quais são as expectativas em relação a este disco e como estão à espera que os vossos fans reajam?
Nicolas Dick: Claro que o objectivo passa pot tocar esta nova versão da banda o máximo possível, e não apenas para quem nos segue há 35 anos, mas queremos tingir novas audiências! Quanto às pessoas que têm estado à espera deste lançamento, irão ficar felizes por nos ver novamente e temos estado a acompanhar o que tem sido falado sobre os Kill the Thrill na imprensa e nas redes sociais.

HellHeaven: Com esses 35 anos de carreira em cima o que está a faltar aos Kill the Thrill fazer? Existe algo que gostariam de tentar no futuro? Por qualquer motivo, a banda parece fazer música que poderia, facilmente, entrar em algo relacionado com cinema, será uma possibilidade?
Nicolas Dick: O que esperamos é, talvez, mais relevância, encontrar uma aliança maior entre música e palavras, de forma a mergulhar mais fundo no assunto, refinando e polindo isso mesmo. Sempre fiz ilustrações musicais para filmes ou instalações, é algo muito interessante e adorávamos fazer música para cinema! No que a mim diz respeito, durante a fase de composição, imagens e música andam de mãos dadas, sem perceber quem vem primeiro. Já para a Marylin é algo mais orgânico e instintivo, talvez seja aí que está a alquimia da banda! (risos)

HellHeaven: Qual a mensagem que deixas para Portugal…
Nicolas Dick: Seria uma honra para os Kill the Thrill tocar em Portugal! Em França fala-se muito da forma como os portugueses recebem as pessoas e que são muito ligados aos valores humanos e que, geralmente, são muito amigáveis e entusiastas.

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