LA CHANSON NOIRE - "O título de artista de culto é belo, mas não paga contas" (Entrevista)

“Missa Negra” é o álbum que celebra 20 anos de carreira (e mais uns trocos) de Charles Sangnoir, aka La Chanson Noire. Neste disco o compositor despiu os seus temas à simplicidade de um piano e rendeu-se à força das palavras. A HellHeaven esteve à conversa com o músico. Entrevista: Nuno C. Lopes

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HellHeaven: Começo por agradecer o teu tempo para esta entrevista e é um enorme gosto ter esta oportunidade. São, praticamente, duas décadas de carreira. Qual o balanço que fazes?
Charles Sangnoir: Viva! muito obrigado por me acolheres, o prazer é todo meu. São quase duas décadas de La Chanson Noire e, na verdade, quase três décadas na musica. O balanço é bastante positivo, na verdade: centenas de espectáculos, viajei pelo mundo inteiro, colaborei com tantos artistas que admiro e respeito... nunca estarei satisfeito, como é óbvio, mas até agora o balanço é bastante positivo!

HellHeaven: Ao longo deste tempo transformaste-te num artista de culto, contudo fica a sensação de que poderias chegar a algo mais. Existe algum “amargo de boca” ou, por outro lado sentes que estás onde queres estar?
Charles Sangnoir: Sinto sobretudo que estou onde calhou a estar: O título de artista de culto é belo, mas não paga contas, e embora sinta um orgulho enorme nos fãs que tenho, sinto que ainda há estrada para andar: ainda quero levar a canção negra a meio mundo!

HellHeaven: Há já algum tempo que estás em França como é que olhas para o Estado da Nação musical em Portugal? Sentes que fizeste a melhor opção em seguir o teu percurso fora do país? O que te levou a emigrar?
Charles Sangnoir: Sinto que a melhor coisa que poderia ter feito foi partir para o estrangeiro; cresci imenso como pessoa e como artista, e tive oportunidades com que poderia apenas sonhar em Portugal. Houve alturas em que estar longe foi doloroso, mas hoje em dia sinto-me bastante confortável enquanto cidadão do mundo. Tenho estado bastante afastado da cena musical portuguesa nos últimos anos, mas tenho andado a investigar e a descobrir muitos novos artistas portugueses que não conhecia; é muito refrescante ver que Portugal está a dar cartas em todos os domínios da arte!

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HellHeaven: O “Missa Negra” surge como uma espécie de best of em que revisitas o teu reportório munido de um piano. Qual foi o desafio e qual foi o critério na escolha dos temas?
Charles Sangnoir: O critério foi dual: por um lado, colocar em vinil os meus temas favoritos, mas também aqueles que sei que os meus fãs querem escutar - este disco é sobretudo para eles. Para desempatar esta dualidade (que por vezes é, na verdade, um consenso) fiz uma coisa simples e exasperante: sentei-me ao piano e tocar canções durante 7 ou 8 horas, depois foi só escolher os temas que falaram mais alto!

HellHeaven: Confesso que quando vi o alinhamento do álbum estranhei a ausência de dois temas: “Pura Merda” e “Canção Decente”. Em algum momento estes temas estiveram em cima da mesa ou ficarão para outra homilia e não fazia sentido estarem aqui?
Charles Sangnoir: "Pura merda" ou "Canção Decente" fazem tanto sentido neste disco como fariam "Food for the Worms", "Cabaret Portugal" ou tantas outras, não há temas particularmente importantes excepto talvez o "Bordel" ou a "Valsa de Escombros" - mesmo o "Natal dos Hospitais" ficou para trás! Todas elas foram gravadas, mas não brilharam o suficiente para figurar nesta edição; é difícil meter 18 anos de música em 45 minutos de edição!

HellHeaven: De certa forma, em alguns temas do teu percurso remetem para um imaginário concetual com algumas semelhanças com o que o Variações já tinha almejado, ainda que o faças com uma toada mais negra. Concordas com esta afirmação?
Charles Sangnoir: Também o Variações tinha coisas bem negras, seja a nível ficcional como na canção sobre o Nostradamus, seja a nível emocional - há canções do variações que são bastante negras a nível emocional; mas percebo o paralelismo com o António variações e tomo-o como um elogio enorme.

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HellHeaven: A tua música, ainda que assente no Gótico tem, também, muito romance e uma certa critica social ao mesmo tempo que revela a tua condição enquanto pessoa. Onde tens de estar, mentalmente, quando estás no processo criativo?
Charles Sangnoir: Não penso muito no assunto, limito-me a apontar as ideias quando elas aparecem, e a compor quando assim decido - na verdade é-me extremamente fácil compor e nunca sofri de bloqueios de inspiração. No que diz respeito ao lado político, é diferente: eu venho duma família comunista e duma adolescência entre o punk e o heavy metal, mas detesto política, e quando assumo um lado político na musica é só porque sinto que não há alternativa senão fincar o pé e dizer as pessoas para abrir os olhos, mas detesto sermões e acho que cada um deve pensar por si.

HellHeaven: “Missa Negra” é um daqueles títulos que nos fica na memória e, ao ouvir esta revisitação, imaginamos estes temas tocados ao vivo sob uma luz vermelha e o fumo do incenso. Tendo já apresentado estes temas ao vivo, estarei longe do que foi apresentado? É algo que tentas fazer no futuro?
Charles Sangnoir: As próximas apresentações de 'Missa Negra' serão precisamente assim: em registo acústico, simples, intimista - como um cabaret em decadência ao qual não resta senão esta call girl em fim de carreira;

HellHeaven: Os últimos anos têm sido férteis no que pode ser descrito como uma desagregação social a todos os níveis e onde tudo está muito extremado. Será este um sinal da nossa decadência e como poderemos dar a volta a isto? Qual a tua opinião sobre tudo o que se vai assistindo no Mundo?
Charles Sangnoir: O mundo está uma merda e não me parece avançar no bom sentido; é a opinião reservada deste Bota de elástico retro-avantgarde!

HellHeaven: São 2 décadas de uma carreira recheada de sucesso, existe algo que queiras fazer no futuro? Qual será o próximo passo para La Chanson Noire?
Charles Sangnoir: Agora que fiz um disco bastante suave, acustico e íntimo, sinto uma enorme vontade de fazer música eletrónica e extremamente violenta.

HellHeaven: Qual a mensagem que deixas para os teus fans e para os nossos leitores…
Charles Sangnoir: Masturbem-se: como diz um caro amigo meu "foder de graça sai caro"; masturbem-se ao som do meu disco se vos aprouver, seria um bom elogio. Sejam agradáveis uns para os outros e tentem deixar um pedacinho deste planeta para quem vier a seguir! E viva a canção negra!

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