LATHEBRA - Recordar é Viver (Entrevista)

Estivemos à conversa com Francesco Palumbo acerca da celebração dos Lathebra com a reedição de «Angels Twilight Odes», onde se falou também sobre a My Kingdom Music, a editora de que é proprietário. Entrevista: Nuno C. Lopes

 

 

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HellHeaven: Olá Francesco, obrigado por este tempo para falar sobre os Lathebra que, na verdade, tiveram uma carreira curta. O que te lembras desses tempo e qual o motivo para a separação e se, porventura, já se falou numa possível reunião?

Francesco Palumbo: Olá Nuno, obrigado pelo convite! As memórias dos Lathebra estiveram sempre presentes na minha alma. São memórias relacionadas com a juventude e num período, anos 90, em que o movimento de Metal extremo começa a sair da «bolha». Ver as bandas underground a chegar a mais pessoas e viver esses momentos através da publicação que tinha na altura, a Vampiria Magazine, mas também através da minha banda. Posso-te dizer que foi um sentimento fantástico e, ainda que a banda tenha durado 4/5 anos, foram momentos são inesquecíveis, também pelo facto de que a falta de actividade dos Lathebra estar ligada a eventos da vida, do cresceimento, à distância, faculdade, do que por problemas pessoais. Reviver estes momentos com o relançamento do álbum ao fim de 25 anos é como que um presente para nós, para a nossa amizade e para o tempo que vivemos.

 

HellHeaven: O «Angels Twilight Odes» foi relançado, como tu disseste, numa edição limitada a 300 cópias. Sentites que este lançamento merecia isto ou há algo mais?

Francesco Palumbo: Como te disse, este acaba por ser uma espécie de tributo a nós mesmos e uma prenda que quisemos dar a nós mesmos. Quando o Nelson, da Columbian Sykphorium Records, me fez a proposta confesso que fiquei um pouco céptico mas, com o tempo, apercebi-me e percebi que 25 anos ainda havia alguém interessado neste trabalho e que valia a pena, em conjunto com a minha editora, a My Kingdom Music, fizemos a remaster da Demo e depois refizemos o artwork tendo em consideração o que já havíamos feito. O resultado é incrível e, ainda que no inicio pensasse que não fazia sentido que outras pessoas, além do círculo daquela altura, tivesse acesso a este material, mudei de opinião quando vi o afecto e as memórias que, surpreendentemente, as pessoas ainda têm desse tempo e, também, aqueles que só agora ouviram os Lathebra.

 

HellHeaven: Parece-me que na vossa música existia influências que podem ser definidas como um encontro entre o Black Metal e a NWOSHM. Estou longe da realidade? Como definirias os Lathebra?

Francesco Palumbo: Sabes muito bem que definir a própria música é o mais difícil para um artista! (risos) Claro que toda a gente encontra o que quiser na música, mas existia um fio condutor que definimos como Dark Metal ou Doomish Black Metal, como que uma ponte entre o Black Metal Escandinavo e o Gothic Doom britânico, como My Dying Bride, Paradise Lost ou Anathema mais antigo. Claro que o Death Metal dos At the Gates ou Dark Tranquility, sem esquecer os Dissection, contribuíram para moldar o nosso som. Resumindo a uma noz, o nosso som é o filho do que ouvíamos naquele época e que, directa ou indirectamente, nos influenciaram!

 

HellHeaven: Estes temas conseguem ser frios mas, ao mesmo tempo melódicos e até românticos que, na verdade, é algo bastante comum nas bandas italianas. Isto é algo que vos corre no sangue? Lenbraste do que levou à criação destes temas?

Francesco Palumbo: Estás totalmente certo mas acho que não é um elemento característico dos italianos, até acho que é comum a todas as áreas do Mediterrâneo, começando aí em Portugal com os enormes Moonspell, mas também Espanha e Grécia, com os Rotting Christ e toda a cena helénica, e até mesmo a França vai buscar alguns desses elementos. Talvez seja a influência do Sol ou, muito provavelmente, sermos descendentes, em termos culturais, da grande literatura ou da tradição filosófica que surgiu na Grécia antiga e que atravessou todo o Império Romano até ao Renascimento Italiano. Por isso sim, definitivamente algo corre nas nossas veias! (risos)

 

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HellHeaven: Além de teres sido membro da banda és, actualmente o responsável pela My Kingdom Music. Como estão a correr as coisas e o que te levou à criação da editora?

Francesco Palumbo: A ideia ganhou forma em 2000, depois de um intervalo com os Lathebra. Já tinha o desejo de, com o meu conhecimento e habilidade, de fazer algo que desse voz aos que, na minha opinião, mereciam e poderiam dar aos outros sensações únicas e mágicas, conforme me deram a mim. Tudo acabou por ser concretizado em 2002 com os primeiros três lançamentos (Crowhead, Deinonychus e Room With a View). Olhando para os dias de hoje, acho que tivemos uma evolução natural e, depois de 21 anos, posso dizer-te que, colocando de lado todas as dificuldades no dia a dia, acho que foi a melhor escolha que poderia ter feito, uma escolhada ligada à minha liberdade e à minha paixão.

 

HellHeaven: Com a pandemia a ser, quase, como um murro no estômago para todos, quais foram os desafios que encontraste e, agora, que tudo já passou, como olhas para a industria tendo em conta esta nova crise financeira em que estamos?

Francesco Palumbo: A situação é sempre complicada, ainda antes da pandemia ou da guerra na Ucrânia. Parece que estamos sempre à beira do abismo. Acredito que o mais importante para as editoras pequenas é manter os pés firmes no chão e ser capaz de evoluir musicalmente ao mesmo tempo que se deve perceber o mercado, claro que também ajuda ouvir as pessoas de um ponto de vista tecnológico. Desta forma, passo a passo, e oferecendo produtos com qualidade e originalidade, tentamos sobreviver criando o nosso pequeno mercado que nos permite viver e investir noutros produtos ou bandas de qualidade.

 

HellHeaven: Itália tem uma grande tradição no Metal, especialmente se falarmos em Power Metal, no entanto, parece existir uma nova geração que querem dar algo mais. Com isso em mente como olhas para a cena italiana na actualidade?

Francesco Palumbo: É verdade! Durante anos a Itália foi reconhecida pelo Power Metal, com os Rhapsody à cabeça, mas acho que antes deles e mesmo depois há um grande número de bandas que têm sabido marcar o seu espaço no Olimpo da música pesada. Aqui ficam alguns nomes antigos: Death SS, Mortuary Drape, Necrodeath Bulldozer, Monumentum. E agora uns novos: Messa, Shores of Null, Klimt 1918, Fleshgod Apocalypse e, claro, Lacuna Coil.

 

HellHeaven: Existem algumas surpresas ou novidades que estejas a preparar na editora ou com os Lathebra? Qual a mensagem que deixas para Portugal…

Francesco Palumbo: Com a My Kingdom Music vou continuar com o meu, espero, bom trabalho e a tentar lançar novas bandas e novos álbuns para deixarem algo na alma dos ouvintes. Podem ir dando uma vista de olhos na página https://linktr.ee/mykingdommusic.

Quato aos Lathebra acho que não haverá nenhum regresso mas no futuro talvez possamos relançar o EP «Etra», que foi gravado em 2000 e que apenas foi feito para as editoras. Não é um trabalho fácil porque terá de ser tudo registado novamente, vamos ver. É difícil, extremamente difícil, mas não impossível e estes desafios sempre foram algo que nos fascinou.

Para Portugal apenas espero que continuem a ser as grandes pessoas que são e que continuem a criar Arte e música. Espero que vos possa visitar em breve. Tinha planeado ir aí em 2020 mas depois veio a pandemia que me forçou a cancelar, mas posso garantir que foi apenas adiada. AD MAIORA SEMPER!

 

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