Tendo completado mais de um quarto de década e lançado recentemente o seu oitavo álbum, os alemães Minas Morgul são já reconhecidos como veteranos neste nicho musical. A HellHeaven esteve à conversa com o guitarrista Alboîn para saber mais sobre o novo “Nebelung” e sobre os altos e baixos da carreira da banda. Entrevista: João Gama

HellHeaven: Olá, e parabéns por “Nebelung” que será lançado em breve! Já há algum feedback?
Alboîn: Olá João, e obrigado pelo tempo que dedicaste ao nosso novo álbum e a esta entrevista! Sim, não faltam sequer duas semanas para o lançamento do álbum, e as primeiras críticas e respostas dos fãs vão aparecendo. Até agora, o feedback dos ouvintes tem sido tremendamente positivo e bastante alinhado com os comentários que lemos. Até agora ambos afirmando que Minas Morgul estão de volta e no caminho certos, que o álbum é muito atmosférico e denso e o melhor disco dos últimos 15 anos ou mais. São grandes elogios, especialmente para Saule e Berserk, que tiveram de lidar com muitas mudanças de formação e problemas durante os últimos dois anos. Estamos muito contentes!
HellHeaven: Os Minas Morgul já existem há mais de duas décadas e meia, isso é um grande feito! Como distingues a carreira da banda?
Alboîn: Bem, eu só entrei na banda no fim de 2022, por isso não fiz parte dos últimos 25 anos. Pelo que posso dizer de Minas Morgul, na minha perspectiva de quem faz parte da cena do metal extremo alemão precisamente desde o ano de fundação da banda, a sua história está repleta de destaques. A banda reuniu uma enorme base de fãs ao longo deste quarto de século, tocou em muitos grandes festivais com alguns dos maiores nomes da cena e é geralmente vista como uma das fundadoras da música pagã/black metal na Alemanha. Não se pode esperar muito mais de um projecto que manténs vivo apenas por prazer – não é um emprego.
Claro que existem também alguns pontos baixos em tantos anos de atividade. É apenas suposição, mas acredito que o constante ir e vir de membros nunca é feliz (como posso dizer da minha própria experiência em Eïs), e é difícil organizar e manter uma banda depois de tais separações. Mas de qualquer forma, Saule e Berserk são muito dedicados, honestos e diretos, preferindo olhar em frente. Tendo em mente que foram forçados a lidar com muitas acusações (injustificadas), esta é uma conquista pela qual tenho muito respeito. Talvez tenham existido outros momentos baixos durante estes anos, mas a banda prefere deixar isso de lado e seguir em força nos próximos 25 anos.
HellHeaven: Dada a tua própria experiência, que conselho darias a novas bandas?
Alboîn: É difícil dizer, principalmente dependendo do que a banda pretende alcançar. A minha geração, e de Saule e Berserk, na casa dos 40, não tem como objetivo ser estrelas do Tik Tok e juntar milhões de seguidores no Instagram, ou fazer grandes digressões. O nosso objetivo (em todas as nossas bandas) está relacionado com a nossa maneira de nos expressar, nos divertir com quem gostamos, escapar de uma dura realidade, fazer alguns espectáculos agradáveis e, acima de tudo, gravar bons álbuns.
Portanto, se forem como nós, provavelmente não farão parte de uma banda nova e já sabem o que fazer. Se são mais jovens ou inexperientes e não pretendem ser a próxima grande novidade, diria: sejam vocês mesmos, escrevam, toquem e gravem a música que sentem dentro de vocês, escrevam sobre assuntos que vos preocupam e não sigam as tendências. Trabalhem, promovam-se e socializem com o maior número possível de pessoas dentro da cena. Sejam amigáveis, honestos, e fiéis à vossa identidade, pois devem expressar aquilo que sentem. Estejam abertos a cedências, mas não comecem com elas.
HellHeaven: Como dizias, actualmente, existem apenas dois dos membros fundadores da banda. Há então um núcleo definido, periodicamente infundido com novos membros. Como achas que isto afeta a identidade da banda e a direção do seu som?
Alboîn: Pelo que entendi, a ideia inicial não era trabalhar assim. Tal como acontece com outras bandas, e principalmente com músicos do lado extremo do metal, nem sempre as pessoas são fáceis (eu incluído). A vida prossegue, e as coisas desenvolvem-se como se desenvolvem. Isso acaba por fazer com que as formações das bandas mudem constantemente, mesmo que a ideia seja sempre ter uma banda completa com direitos iguais.
No caso dos Minas Morgul, tenho a certeza de que o núcleo artístico sempre foi o mesmo, com Saule e Berserk (sendo membros fundadores) a trabalhar na maior parte da música. Com a mudança de sons, acho que isso pode ser explicado pelas diferentes abordagens de produção e pela maneira como finalizas o material durante a gravação de um álbum. Por exemplo, “Nebelung” foi fortemente influenciado pela minha abordagem pessoal de gravação e mistura, e os vocais distintos de Stef que se distanciam claramente das vozes dos ex-vocalistas.
HellHeaven: Após a produção do novo álbum, tanto tu Alboîn (Eïs, Plutonyan) como Stef (ex-Jörmungand), que eram então colaboradores em “Nebelung”, juntaram-se à banda. O que pode dizer sobre a evolução de colaborar a membro oficial?
Alboîn: Bem, aqui estou eu! [risos]
Conheci Saule e Berserk quando me ofereci para ajudar durante o processo de produção do álbum anterior “Heimkehr”, que foi uma desafiante com a banda a desintegrar-se durante os retoques finais. Stef assumiu os vocais de sessão para o álbum na altura, e já ajudava ao vivo de vez em quando. Sendo um velho amigo meu, foi uma boa experiência trabalharmos juntos.
Após o processo de composição do disco seguinte, conversamos sobre a possibilidade de produzirmos o álbum inteiro juntos, que foi o que acabamos por fazer. Como a banda não tinha baixista ou teclista, ofereci-me para tocar esses instrumentos no álbum, e também contribuí com algumas ideias espontâneas sobre as guitarras. Stef voltou a fazer os vocais, agora como o único vocalista a ser ouvido na gravação. Terminada a produção, conversamos sobre como a banda queria levar a música para o palco apenas com dois integrantes fixos. Uma ideia era passar as funções do baixo para mim (como eu faço em Eïs), ter Stef nos vocais, e faltaria apenas um guitarrista. Por fim fui mais ou menos convencido a tocar guitarra solo (que não toco ao vivo há mais de uma dúzia de anos, mas bem, precisas de alguns desafios/objetivos na vida...), e Stef decidiu aprender a tocar baixo e para tocar e assumir funções vocais ao mesmo tempo. Diria que foi uma colaboração frutífera. [sorrisos]

HellHeaven: "Nebelung" lembra mais o black metal norueguês dos anos 90 do que o estilo black/pagão alemão. Por que seguiram esta direção? E qual foi o teu impacto?
Alboîn: Nos últimos anos, o objetivo era soar o mais maciço e ousado possível, com guitarras afinadas, riffs pesados e tudo mais – mas as influências para todas as músicas vieram e vêm do tempo em que todos crescemos com o black metal atmosférico norueguês. O outro grande aspecto é o lado lírico do álbum, que é muito pessoal e melancólico, muito afastado da civilização, sombrio, nebuloso, cinzento e próximo da natureza. O som que queríamos alcançar é adequado para esses tópicos, então tentei esculpir o núcleo das músicas e dar-lhes o espaço que merecem, e dar uns toques na produção e adicionar alguns detalhes com teclado.
HellHeaven: Antes da faixa-título mais metal “Nebelung”, o álbum abre com a introdução igualmente intitulada “Beginn que é uma faixa curta e instrumental que ajuda a criar a paisagem sonora do disco. Encontra-se aqui outro colaborador que contribuiu com o violoncelo. Que mais nos podes contar sobre a colaboração e a decisão de começar o álbum com uma faixa tão ambiente?
Alboîn: Na verdade não é uma faixa ambiente, mas uma composição mais ou menos clássica que Lestaya (violoncelista de Ferndal – que é uma banda em que eu tocava bateria – e amigo meu) fez especialmente para o álbum. Saule e Berserk sempre tiveram o sonho de ter cordas reais num disco, e foi o momento certo para isso se tornar realidade. “Beginn” fecha o círculo entre o tema principal de “Nebelung”, a abertura, e o de “Lethargie”, a faixa de encerramento. Se ouvires com atenção, percebes como ambos são magistralmente combinados um com o outro – portanto, é muito mais do que uma mera introdução ou uma faixa instrumental de ambiente. E que instrumento poderia personificar melhor o outono do que um violoncelo?!
HellHeaven: O álbum começa com este Beginning e termina com as faixas 8 “Aufbruch” (Partida) e 9 “Lethargie”. A intenção era conceber o álbum como uma viagem?
Alboîn: Acho que não. Não é um álbum conceptual, mas durante a produção alguns tópicos e atmosferas ficaram mais claros, pelo menos para mim e acho que também para os outros. “Lethargie” é uma faixa que foi escrita espontaneamente em estúdio, com um clima mais cru, quase depressivo (e fiz os vocais porque achamos que combinaria melhor com a minha voz), e foi adicionada ao final do álbum por irradiar uma sensação de algo sombrio e fechado. Por isso, sim, de certa forma o álbum pode parecer uma viagem.
HellHeaven: As letras são uma reflexão sobre pertença e a nossa conexão com o mundo. Optaram por este tópico simplesmente como um assunto pessoal ou decidiram partir de uma abordagem mais geral, já que todos podem estar um pouco mais introspectivos devido aos tempos difíceis atuais (pandemia, guerra)?
Alboîn: A pandemia, a situação social geral forçou muitas pessoas já introvertidas a pensar demais em suas personalidades, situações de vida, decisões, e tenho visto muito especialmente pessoas mais jovens, mas também adultas lutando com essa situação nova e desconhecida.Isso fez com que muitos músicos voltassem a lidar com questões muito pessoais, íntimas e existenciais. Além disso, nesta situação muito específica da escrita das letras para “Nebelung”, suponho que os eventos da banda nos anos anteriores também tenham tido um impacto.
HellHeaven: A música “Inter Stellas” foi escolhida para lyric video. Porquê esta? Podemos esperar mais vídeos?
Alboîn: Selecionar uma música para primeiro single nunca é fácil. Nesse caso, discutimos qual poderia ser a mais típica ou representativa de todo o álbum e percebemos que era... nenhuma. “Inter Stellas” tem apenas a maioria dos elementos que compõem o álbum, como guitarras limpas, muitos acordes menores, velocidade e dinâmica, sintetizadores assustadores, estilos vocais diversos… e é o mais longe possível da humanidade. Dito isso, é como descrever “In the nightside eclipse” para ser honesto. Enquanto falamos, a faixa-título também foi publicada como single.
HellHeaven: E neste tópico de promoção, quais são os planos para digressões? Pensam tocar em Portugal num futuro próximo?
Alboîn: Não somos uma banda comum no sentido de ir em digressão, principalmente por obrigações de trabalho e familiares e outras questões pessoais. Tocaremos em alguns festivais para apoiar o lançamento do álbum (Dat Unland Fier, um festival recém-fundado no nordeste da Alemanha primeiro, depois Godless Mountain Open Air e o já estabelecido Wolfszeit Festival). Talvez mais alguns se sigam, veremos. Se acham que devemos tocar num evento, enviem-nos uma mensagem! Se for em Portugal, vamos com todo o gosto, só falta alguém que nos convide.
HellHeaven: Em relação às entrevistas, há alguma pergunta a que gostarias de responder, mas nunca ninguém te fez? Se sim, qual (e qual a resposta)?
Alboîn: Sr. Alboîn, como é que o seu chili sin carne vegano é TÃO delicioso?? – Obrigado por perguntar, meu caro. São dois pedaços de chocolate bem amargo para arredondar. Mas por favor não espalhe, é segredo.
HellHeaven: Por último, gostarias de deixar uma mensagem aos leitores/fãs em Portugal?
Alboîn: Oh meu Deus, que álbum! Ouçam “Nebelung”, e divulguem. Obrigado pelo apoio!