Os setubalenses Murro estão de volta aos discos e com uma nova formação! “Dissertações de um cidadão comum, prestes a cometer um atendado” é um retrato de um mundo cada vez menos cospmopolita. A HellHeaven esteve à conversa com a banda. Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Começo por dar os parabéns pelo novo álbum, “Dissertações de um Cidadão Comum…”. Como se sentem em relação ao álbum e quais as expectativas?
Murro: Olá, obrigado e queremos também agradecer a oportunidade de poder responder às vossas perguntas. O álbum levou cerca de dois anos e qualquer coisa até estar concluído. Depois do Misantropo deitamos logo mãos à obra mas com a saída do Tiago,a entrada do Gonçalo e mais tarde, a saída do Valter, houve várias paragens. O Pedro gravou a guitarra baixo e ainda tivemos de reformular a maneira de tocar, visto que não tínhamos baixo, contudo, achamos que o disco ficou a soar mais rápido que o anterior Misantropo e que vai agradar quem gosta de música rápida
HellHeaven: Este disco marca a estreia da banda enquanto trio (e sem baixista) após a saída do Valter Costa, sendo que o Gonçalo Ventoinha entrou para a bateria. Porquê a decisão de se manterem sem baixo e como olham para a nova formação de Murro?
Murro: Ficar sem baixista nunca foi a intenção da banda, mas às vezes a vida não corre como queremos. O Valter e o Tiago tiveram um papel importante na banda e no descolar da mesma, o som com a formação a três ficou mais confuso e sem grande profundidade devido à falta do baixo, muitas vezes tornou-se bastante frustrante... por mais que se tentasse que a guitarra ganhasse mais corpo e o grave de uma guitarra baixo, mais clareza se perdia. O Gonçalo trouxe uma maneira de tocar bateria diferente e temos o prazer de anunciar que o Barba Negra ( Mário Pinto ) vai ser o nosso baixista e já começámos a trabalhar para que possa integrar os próximos espetáculos.

HellHeaven: Desta vez apresentam ao Mundo o Belarmino e a Elisabete. Quem são estes cidadãos comuns e quais as suas histórias?
Murro: Belarmino é um mendigo, alguém que provavelmente foi na onda de um despedimento colectivo, alguém que acabou por perder tudo...na música ele é um personagem inventado que retrata a situação de quem por obra do capitalismo cai em desgraça. Tem consciência do desgraçado que se tornou,fala umas coisas certas mas passa alguns momentos menos lúcidos e divaga entre argumentos confusos e incongruentes. Elizabete foi inspirada na Elizabeth Báthory e é uma crítica a uma sociedade da imagem, desde os padrões de comportamento, conduta social, ícones para a vida como uma necessidade de aprovação. Durante os espetáculos perguntamos se há alguma mulher no público com o nome de Elizabete, mas isso é só porque levamos sempre uma garrafa de champanhe na esperança de abrir a mesma e festejar.
HellHeaven: Em certa medida, e na dose certa, este disco é mais direto e agressivo que o “Misantropo”, isso é uma consequência dos tempos? Como olham para todo este tumulto social que vivemos?
Murro: Tentamos sempre falar como que de uma actualização informativa se tratasse, depois do Misantropo muitas coisas mudaram e outras não, Marrocos continua a ocupação do territorio do Saara ocidental e agora a guerra da Ucrânia, seguido do genocidio de Israel a Gaza, ao povo da Palestina seguindo para o Libano, por cá foi eleito um Primeiro Ministro de direita, não se vá esperar grandes feitos nem grandes mudanças para quem vive do seu ordenado, no entanto a comunicação social dominada por grandes grupos economicos tem tido um papel relevante em nos atirar areia para os olhos. Quanto à referência instrumental decidimos ser mais rápidos.

HellHeaven: Sendo tantas, e variadas, situações fracturantes na atualidade, será que este álbum revela a fragilidade social e a distância que, cada vez mais, separa as sociedades? Estaremos cada vez mais perto (e na primeira fila) do nosso falhanço enquanto sociedade?Murro: O álbum faz referência a todo um conjunto de situações frágeis da sociedade, tenta apontar um caminho que na nossa perspectiva nos parece a mais justa, a vida está aí e com ela aprendemos que há coisas que devem mudar e todos nós sabemos o que tem de mudar. Atirar a toalha ao chão não é para nós uma hipótese, pois estaríamos a encorajar o conformismo e forçosamente a admitir que não existe outra maneira de viver, devemos estar na fila da frente pela mudança.
HellHeaven: Existirá, pelo meio, um falhanço político e de políticas ou, por outro lado, chegámos já a um ponto de ruptura sem retorno? Existe algo que possa unir (novamente) o Mundo?
Murro: A união depende do povo e é ele quem deve decidir o rumo da história e não meia dúzia de marmanjos que detêm a maior fatia da riqueza mundial. Claramente que ao longo da história houve muitos falhanços politicos e politicos que não valem a ponta dum corno, mas também houve avanços significativos ao longo da mesma e esses, achamos nós, que devem servir de inspiração, aprender com o bom, aprender com o mau, para que não se volte a cometer os mesmos erros.
HellHeaven: Já tiveram oportunidade de apresentar os novos temas ao vivo, como foram as reações e o que podemos esperar (em termos de actuações) por parte dos Murro?
Murro: Os novos temas para quem acompanha a banda não serão novos, com as alterações na formação e com todo impasse no lançamento do disco vimo-nos obrigados a tocá-los antes de sair. Pelo que falamos com a malta, a reação é positiva...o Hugo vai continuar a comer as folhas com as letras durante as actuações e teremos finalmente um baixista.