Lançado no final do ano “Catharsis” marca o regresso dos Music in Low Frequencies (MILF) após 10 anos de um silêncio que serviu para acumular experiências e vida e cujo resultado pode (e deve!) ser escutado. A HellHeaven esteve à conversa com Mariana Faísca. Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Começo por saudar este regresso aos discos com este “Catharsis”, como se sentem por estar de volta e qual a vossa opinião sobre o resultado final do álbum?
Mariana Faísca: Estávamos realmente ansiosos pelo lançamento deste disco. É muito importante para nós, pois é o resultado de alguns anos de trabalho. Uma reflexão profunda sobre o que podíamos fazer melhor, onde nos poderíamos distinguir e o que pretendíamos transmitir com a nossa música e mensagem. O resultado é este “Catharsis” e não poderíamos estar mais orgulhosos com o resultado.
HellHeaven: Os M.I.L.F formaram-se em 2012, o que quer dizer que já levam uns anos disto, qual o balanço que fazem deste tempo e como olham para o percurso da banda?
Mariana Faísca: Sim, a banda trabalha de forma efetiva desde 2012. Um fervilhar de ideias que rapidamente nos fez chegar a “Sowing the Seed”. Apesar de o termos lançado em nome próprio e logo por aí não ter havido grande ou nenhuma promoção, de termos a noção que cometemos erros no processo de criação do disco, também temos orgulho nesse disco. A banda apresentou “Sowing the Seed” numa pequena tour na europa totalmente gerida por nós, tocamos em alguns festivais importantes como o SWR ou SMSF e também fizemos alguns concertos um pouco por todo o país. Tudo isso nos deu a bagagem necessária para continuar a trabalhar e a produzir melhor. Foi essa a nossa “semente” que também nos fez chegar ao que temos para vos apresentar hoje.
HellHeaven: O vosso primeiro álbum foi lançado em 2014, com este tempo de ausência quais as expectativas em torno do álbum? Existe algum nervosismo por estar de volta ou com a forma como o disco possa ser recebido?
Mariana Faísca: Não temos necessariamente expectativas sobre o álbum, apenas queremos que as pessoas se identifiquem com ele e desfrutem dele tal como nós. Estamos tranquilos pois temos a consciência que demos muito de nós por este disco. Deixamos parte de nós naquelas músicas. Ao ouvir o disco vão até poder conhecer-nos um pouco melhor, são como um espelho. Até ao momento a recepção está até a superar qualquer expectativa que pudéssemos ter.

HellHeaven: Após esse disco a banda entrou num período de silêncio criativo, de que forma essa pausa ajudou na criação deste novo álbum? Qual acabou por ser o maior desafio na criação do álbum?
Mariana Faísca: Como referimos anteriormente, todo este tempo foi importante para a criação de “Catharsis”. Absorvemos tudo que de bom e mau tínhamos feito até então. Começamos a trabalhar com outras pessoas que nos ajudaram a tirar o melhor de nós. Fizemos experiências, continuamos a tocar, a experimentar, continuamos a errar, voltamos a fazer experiências, quase como um loop que termina com os 7 temas que compõem “Catharsis”. Todos os processos quando se estendem ao longo de muito tempo têm logo como dificuldade a manutenção do foco e da concentração. Claro que houve desavenças, desacordos e continuará a haver, faz parte do processo de evolução não só como um conjunto mas individualmente também. Felizmente, juntos conseguimos ultrapassar isso, mantermo-nos unidos e com vontade de chegar ao resultado final. Somos antes de uma banda, muito amigos. Isso irá sempre prevalecer e é também a base mais importante do que é Music In Low Frequencies.
HellHeaven: “Catharsis” parece ser fruto de todos esses anos, aliado a este período complicado da pandemia, será justo dizer que este é um conjunto de temas de libertação e de catarse como o próprio nome indica?
Mariana Faísca: Sim, esse foi exatamente um dos fatores. A pandemia, juntamente com um problema de saúde mais grave de um de nós, fez com que o processo criativo também se atrasasse mais uns bons anos. Mas também serviu para amadurecer ideias e tornar os temas intensamente mais ricos. Tivemos mais tempo para pensar em cada um dos temas. Todas as experiências pessoais que vivemos, os “medos” que teimam em nos agarrar, “Catharsis” é a libertação de todos eles.
HellHeaven: Ao mesmo tempo existe um sentimento de urgência aliado a uma angustia, quase, palpável. Qual é a mensagem que tentam passar?
Mariana Faísca: O álbum está pejado de uma carga emocional enorme, reflexo das nossas experiências passadas e toda a história que temos até então. “Catharsis” remete precisamente para uma necessidade de expurgação de toda essa carga e um renascimento do ser. Tentamos com este álbum, que quem o ouça se reveja de alguma forma, consiga identificar-se com as temáticas que vão sendo abordadas e que são muito transversais a todos, pensamos nós. E dessa forma, encontrar o seu ponto de expiação. Não queremos com isto ser tomados como presunçosos, mas sim tentar passar uma mensagem de esperança, de que existe sempre uma possibilidade de transformar o mal em algo bom.

HellHeaven: Há também alguns convidados no álbum, tais como o Paulo Rui (Besta, Redemptus) ou o Pedro Mendes (RAMP), que é também o produtor do álbum. De que forma estas presenças em “Catharsis” influenciaram o álbum e o que trouxeram eles ao disco?
Mariana Faísca: O Paulo Rui já tinha trabalhado connosco no tema “Steel” mesmo antes de sabermos que existiria “Caharsis”. Foi uma daquelas experiências que resultou e que não podíamos deixar de lado, o que ele acrescenta com a voz dele e em Português é arrepiante. É um dos grandes monstros do underground em Portugal. O Pedro Mendes foi quase que como obrigado, pois até então quem tinha gravado todas as back vocals tinha sido o Sérgio. Em “This Corpse” pedia-se algo mais e o Pedro aceitou participar e o resultado é o que se consegue ouvir. Vem mesmo das entranhas… simplesmente brutal. São ambos muito bons e duas das peças mais brilhantes do nosso “menosprezado” underground. Temos também que dar relevância, e muita, aos outros convidados. Amaya López (Maud the Moth, Healthyliving) com um piano de arrepiar em “Starving the Weak” e o Friggi “Mad” Beats (Chaos Synopsis) com uma bateria simplesmente brutal a acompanhar o tema escondido do disco. Estamos contentes por tantos ilustres convidados terem acrescentado riqueza ao nosso disco e terem aceitado fazer parte dele. Obrigado a todos eles.
HellHeaven: Existem planos para levar estes temas para a estrada e o que podemos esperar dos M.I.L.F nesse aspecto? Sendo que não são profissionais na música, qual é o maior desafio de intercalar a actividade profissional com a música?
Mariana Faísca: É certo que temos em mente espalhar este álbum pela estrada e quem sabe numa tour como a anterior ou melhor, por outros países. Queremos que o público que ouviu o álbum também o sinta connosco durante o concerto. Como referido na questão, e bem salientado, temos os nossos percursos profissionais e tentamos sempre intercalar mediante a disponibilidade. O maior desafio é mesmo a disponibilidade de cada um e conseguirmos tê-la todos ao mesmo tempo. É uma questão de equilíbrio porque gostamos do projeto que temos e fazemos por ter tempo para ele (enquanto nos divertimos no processo, claro).
HellHeaven: Depois de um longo período sem lançamentos e agora com este regresso teremos de esperar mais 10 anos para ter novo álbum da banda? Qual a mensagem que deixam…
Mariana Faísca: Não podemos prometer nada nem um período temporal, mas também não achamos que vá demorar 10 anos até a um próximo. O nosso processo é muito natural e deixamos fluir a construção musical. Podemo-nos até surpreender e surgir mais que um registo de estúdio nestes próximos 10 anos. Inspiração e ideias para um próximo não nos tem faltado! Contudo, devemos degustar este álbum entretanto e divertirmo-nos com ele tocando onde e quando possível. Mas garantimos que não ficamos por aqui certamente.