NE OBLIVISCARIS – “Ver as pessoas nos concertos a conectar-se profundamente com o que criamos é algo muito precioso” (Entrevista)

Um ano depois, os australianos Ne Obliviscaris regressam a território nacional muito em breve para o Comendatio Music Fest. A HellHeaven falou com Tim Charles (voz, violino) sobre o evento, mas também recordou o sucesso do último disco “Exul” e investigou o sucesso da música pesada australiana. Entrevista: João Gama

Ne Obliviscaris.jpg

HellHeaven: Olá, e obrigado pela disponibilidade. Vocês tocaram em Portugal há apenas um ano, como foi essa experiência? Ansiosos para voltar?
Tim: A primeira vez que tocamos em Portugal foi no Vagos em 2015 e divertimo-nos imenso. Continuamos a tentar voltar, mas infelizmente não aconteceu até à nossa digressão de 2023. Tocar em Portugal novamente após 8 anos e ter finalmente a oportunidade de ser cabeça de cartaz pela primeira vez foi algo que ficou muito acima das nossas expectativas. O público em Portugal é fantástico! Portanto, quando o fomos convidados para o Comendatio, aproveitamos a oportunidade, naturalmente. Espero que possamos passar a visitar-vos com mais regularidade daqui em diante.

HellHeaven: E quais são as expectativas em relação a tocar no Comendatio Music Fest?
Tim: Esperamos sempre um público fantástico em Portugal agora, por isso irá sem dúvida ser muito fixe. Também estamos animados por ter alguns velhos amigos como os Persefone a tocar no mesmo dia, tal como outras grandes bandas no festival, como Leprous, Textures, etc.

HellHeaven: O vosso último lançamento “Exul” foi um sucesso global. Em retrospectiva, como interpretam a sua recepção agora? E no festival, vão-se concentrar principalmente em “Exul” ou, irão em alternativa revisitar a vossa discografia de modo mais equilibrado?
Tim: “Exul” foi definitivamente o nosso álbum que até agora alcançou maior sucesso, e estamos muito entusiasmados com isso porque é um álbum no qual colocamos muito de nós mesmos. Sentimos que é realmente um álbum especial e perceber que tantas pessoas concordam é muito gratificante. O nosso set irá definitivamente apresentar músicas de “Exul”, mas também terá uma selecção de músicas dos álbuns anteriores.

91913_logo.jpg

HellHeaven: A abordagem de Ne Obliviscaris combina várias facetas do metal (extremo, progressivo, melódico e emocional), e diria que isso vos permite atrair ouvintes de vários nichos muito diferentes dentro da cena metal. Nesse sentido, como é para vocês tocar ao vivo: adaptam consideravelmente os sets consoante o público/evento, ou preferem concentrar-se em fazer um espectáculo que seja mais coerente?
Tim: Definitivamente temos uma combinação interessante de músicas e estilos no nosso catálogo, isso é certo. Quando tocamos para públicos diferentes, às vezes temos isso em consideração ao escolher a setlist, mas apenas de uma forma bastante secundária, escolhendo uma música mais progressiva ou extrema num ponto particular da setlist. Mas no final, garantimos que cada set que tocamos seja muito diverso e seja uma representação de toda a amplitude do que fazemos. Isso é importante em festivais, pois estamos a tocar não apenas para os nossos fãs, mas também para pessoas que nos estão a ver pela primeira vez e que esperamos que se tornem fãs para o resto da vida a partir desse momento. No fim, o importante é sempre criar um espectáculo que amamos e partilhá-lo com o público, esperando que se conecte com a nossa música e energia.

HellHeaven: Qual é a vossa perspectiva sobre o impacto do rock/metal australiano a nível internacional? Posso estar enviesado, mas parece-me que hoje em dia recebe bastante mais atenção internacional. Estou a pensar não só em vocês, mas também em muitas outras bandas como Parkway Drive, Caligula’s Horse, Karnivool, The Omnific...
Tim: Honestamente, acho que a Austrália tem uma das melhores cenas de música pesada e prog do mundo. Há uma imensidão de bandas a fazer coisas fantásticas internacionalmente, seja no metalcore como Parkway, Northlane, Polaris, Thy Art Is Murder e mais ou no prog como Karnivool, Plini, Caligula’s Horse, Voyager, The Omnific, entre outras. E ainda tens outras bandas como nós, Be’lakor, Psycroptic, para citar apenas algumas. Realmente tem sido uma explosão nos últimos 10-15 anos. Tem sido óptimo ver a cena australiana a ser reconhecida cada vez mais. É um tópico que continua a chamar-me a atenção e é realmente excitante!

cartaz final.jpg

HellHeaven: Já andam em digressão internacional há algum tempo, começam a ter planos para o futuro? Já estão a trabalhar no próximo álbum, por exemplo? E claro, considerariam voltar a tocar em Portugal?
Tim: Temos definitivamente muitos planos, claro! Estamos sempre a pensar em quando poderemos voltar à Europa e Portugal, e também estamos a pensar em quando faremos outra digressão na América do Norte e Austrália. Mas também queremos fazer uma digressão na América do Sul pela primeira vez. Também estamos a trabalhar para voltar para a Ásia, ainda não voltamos lá desde 2019. Além disso tudo, começamos a escrever músicas novas, o que é muito excitante. É um período atribulado, mas muito emocionante para os NeO!

HellHeaven: Em relação a entrevistas, há alguma pergunta a que gostarias de responder, mas nunca ninguém te fez? Se sim, qual (e qual é a resposta)?
Tim: Hmm, essa é difícil! (risos) Bem, se a pergunta fosse: que história sobre “Exul” é que os fãs (provavelmente) nunca ouviram antes? Eu partilharia a história de “Misericorde II”. Depois de criar um esqueleto inicial numa jam session de banda completa em Maio de 2019, escrevi o resto da música num período emocionalmente atribulado quando a minha mãe foi diagnosticada com cancro terminal em Julho de 2019. Embora tenha acabado por viver mais dois anos (antes de infelizmente falecer em 2021), na época em que escrevi a música não era claro se sobreviveria sequer por mais um mês. Dediquei-me intensamente à escrita e quando terminei a primeira demo de “Misericorde II” (completa com solos de violino, camadas de cordas e vocais já incluídos), ouvi-a com atenção e chorei. Imediatamente pensei que era uma das melhores coisas que escrevi. Foi gratificante ter tido a oportunidade de poder mostrar a demo à minha mãe alguns meses depois. A música pode ter uma grande energia emocional e esta música, tal como o álbum em geral, têm definitivamente muito de cada um de nós mesmo embutidos neles. Ver as pessoas nos concertos a conectar-se profundamente com o que criamos é algo muito precioso, e é maravilhoso partilhar o que fazemos com as pessoas.

HellHeaven: É de facto uma música bastante emocionante! Por fim, que mensagem gostarias de deixar aos fãs em Portugal?
Tim: Obrigado por todo o apoio! Vemo-nos em breve no Comendatio! Esperamos um evento maravilhoso e será óptimo ver-vos a todos novamente.

0