PAULA TELES - "senti necessidade de fazer música de forma livre, de sentir prazer em criar" (Entrevista)

«Desencanto» é o álbum de estreia a solo de Paula Teles, conhecida pelo seu trabalho com Lilith's Revenge. A cantora apresenta, de forma independente, um disco feito de emoção e onde as raízes lusitanas se encontram presentes através do Fado, mas não só. A HellHeaven esteve à conversa com a vocalista. Entrevista: Nuno C. Lopes

IMG_7755 - Paula Teles.jpeg

HellHeaven: Começo por te dar os parabéns por “Desencanto”, como te sentes em relação ao resultado final e como tens olhado para a receção do disco?
Paula Teles: Muito obrigada e agradeço a tua ajuda na divulgação do meu trabalho. Quando comecei a construir o “Desencanto” com o Jorge Lopes não tínhamos quaisquer expectativas. Apenas nos deixámos ir sem pensar no resultado final. Foi um processo mais emotivo que racional, o que nos levou a correr alguns riscos. Felizmente, este trabalho tem sido muito bem aceite e estamos muito felizes com isso.

HellHeaven: Este álbum mostra uma Paula Teles diferente do que estamos habituados. Sentiste necessidade de mostrar este lado teu? Como surgiu a ideia de um disco a solo?
Paula Teles: Acima de tudo, senti necessidade de fazer música de forma livre, de sentir prazer em criar. Estar numa banda implica unir várias perspectivas numa só meta, o que é ótimo e nos leva a desenvolver competências muito úteis; mas há partes de nós que temos de sacrificar em prol do grupo. E essas partes, muitas vezes, têm necessidade de se mostrar, de se fazer ouvir. Tenho essas duas realidades em mim, mas uma estava a ser sacrificada, daí ter sentido vontade de criar algo diferente, sem pressões e sem rótulos.

HellHeaven: Enquanto ouvia o álbum não pude deixar de encontrar alguns pontos de encontro com o Fado ou, pelo menos, com alguns dos seus “ingredientes” principais. Estarei certo? Quais as influências que levaram a esta sonoridade?
Paula Teles: Certíssimo! Sempre tive uma relação difícil com o fado porque o associava a tempos políticos agitados (apesar de ter este estilo musical bastante presente na minha árvore genealógica). Teimosamente, amarrava o meu lado melancólico e ignorava a minha forte tendência para ter presente a música tradicional do meus país nas melodias que ia criando. Porém, a idade tem das suas maravilhas e moldou a minha forma de ver o mundo fazendo com que o medo de ser mais “portuguesa” ficasse diluído. As tardes em que via o meu pai sentado numa cadeira a ouvir Amália Rodrigues, Hermínia Silva ficaram gravadas no meu inconsciente, assim como as fortes raízes que me prendem à minha terra. Tudo isto influencia a forma como canto e faço música, neste momento.

HellHeaven: Sendo este um álbum em lançado de forma independente. Quais são os maiores desafios e, em simultâneo, vantagens?
Paula Teles: Temos a vantagem de conseguirmos fazer música sem prazos, sem pressões, sem orientações externas. Por outro lado, lançar um trabalho de forma independente exige muito investimento, muito trabalho de divulgação em nome próprio e muita dificuldade em ter acesso a determinada imprensa e a determinados locais para concertos (em especial festivais).

IMG_7709 - Paula Teles.jpeg

HellHeaven: Tentaste, ou está nos planos, levar “Desencanto” até às editoras? Poderia isso tirar algum “encanto” ao “Desencanto” ou preferes deixar isso para, quem sabe, um novo álbum?
Paula Teles: Tentei mas a grande maioria das editoras respondia: “ não está dentro do género que costumamos promover”; as restantes pretendiam fazer modificações no projecto que o iriam descaracterizar (a meu ver). Optei então por seguir em frente de forma independente. Espero conseguir encontrar alguma editora com coragem para apostar neste trabalho.

HellHeaven: Uma das maiores surpresas do álbum é a presença do Björn Strid de Soilwork, mais ainda quando o ouvimos a cantar em português. Como é que surgiu esta colaboração e qual foi o segredo para o meter a cantar em português? Explicaste o que ele estava a dizer e qual foi a influência dele em “Jogo do Silêncio”?
Paula Teles: É engraçado falar sobre isto agora porque, eu e o Björn, não temos bem noção em como chegámos até aqui! (risos) Houve uma colaboração que ele fez numa música dos Lilith's Revenge e, depois disso, acabámos por criar uma relação de amizade que me levou a convidá-lo a cantar em português. O Björn aceitou de imediato quando lhe apresentei o projeto e lhe expliquei qual o tema da letra, é uma pessoa que adora um bom desafio, gosta de testar os seus limites vocais e é extremamente talentoso, consegue cantar qualquer música que lhe seja proposta. É a melhor voz masculina do metal actual, na minha opinião.

HellHeaven: “Desencanto” é um disco feito de contrastes e onde a noite, o amor e desamor e a saudade têm o papel principal. Onde é que a Paula Teles tem de estar para criar estes temas?
Paula Teles: Apenas tenho de ter caneta e um caderno nas mãos (sou uma alma idosa, não consigo escrever letras para músicas no computador (risos)! Este trabalho que temos feito é tão natural, representa-me de tal forma, que tudo acaba por sair de maneira orgânica.

HellHeaven: Voltando aqui ao Fado. O género tem assistido a uma evolução que, em certos casos, foge às origens do mesmo. Como olhas para esta nova forma de olhar para o género? Consideras que se está a perder um pouco da identidade lusa com estas “misturadas”?
Paula Teles: Seria demasiado arrogante da minha parte responder a essa pergunta visto que nem sequer fadista sou. Porém, acredito que criação musical é abrangente o suficiente (há opções mais tradicionais e outras mais arrojadas) para que as pessoas escolham o que mais lhe agrada

HellHeaven: Falando dos Lilith's Revenge, existe alguma coisa planeada ou algo que possas revelar?
Paula Teles: Neste momento cada elemento da banda tem outros objectivos e outros projetos para o futuro que não envolvem Lilith's Revenge. Não fechamos a porta mas temos de a encostar, para já.

HellHeaven: E a Paula Teles, tem algo mais “na manga” que possa revelar sobre o seu futuro a solo ou algo que possa desvendar? Existe algo que gostarias de fazer no futuro?
Paula Teles: Gostava imenso de levar este projeto para a estrada. Tirando esse desejo, apenas posso prometer que iremos continuar a trabalhar e a fazer música da forma mais honesta e livre possível.

HellHeaven: Qual a mensagem que deixas para os nossos leitores…
Paula Teles: Quando lançamos “Desencanto” nunca imaginamos que a reacção das pessoas pudesse ser tão positiva; por isso, por todo o apoio, pelo carinho que têm dado a este projeto: agradeço-vos imenso e espero que a minha música vos toque de alguma forma.

0