PHENOCRYST - "indústria musical hoje em dia praticamente não existe, e tudo é cada vez mais efémero e instantâneo" (Entrevista)

"Cremation Pyre" é o álbum de estreia dos lisboetas Phenocryst, lançado há poucos dias pela sueca Blood Harvest Records. Com um Death Metal oldschool e com um ideia bem definida de som e conceito a banda revela-se como (mais) uma banda a elevar o nosso underground. A HellHeaven esteve à conversa com D.S, vocalista e guitarrista da banda. Entrevista: Nuno C. Lopes

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HellHeaven: Começo por vos dar os parabéns pelo álbum de estreia, “Cremation Pyre”, como se sentem com esta estreia e qual a expectativa em torno do álbum?
D.S: Muito obrigado Nuno. Não sei bem o que sentimos com esta estreia, honestamente! (risos)  É o fruto de um trabalho árduo de alguns meses em várias frentes, e com muitos episódios ao longo destes últimos 2 anos e meio desde o lançamento do nosso EP “Explosions” em 2021. O lançamento do álbum é algo que pode ser visto como um novo capítulo na história da banda, embora musicalmente não esteja muito distante do que foi feito anteriormente. Apostámos mais forte em algumas vertentes como a composição, produção e o artwork, e para já estamos muito contentes com o que fizemos. Em relação a expectativas, também não sei bem o que te dizer porque, como todos sabemos, a indústria musical hoje em dia praticamente não existe, e tudo é cada vez mais efémero e instantâneo. Preferimos não criar grandes expectativas em relação a nada, viver o momento, e dar o melhor de nós nas atuações ao vivo que representam, talvez, dos momentos mais gratificantes que um músico pode ter hoje em dia, que é precisamente apresentar a nossa música a outras pessoas que se dignaram a aparecer numa sala para te ver e ouvir.

HellHeaven: A banda formou-se em 2020, em plena pandemia, como é que surge a banda e qual o fio condutor para essa união?
D.S: A banda, na verdade, surgiu como um pequeno projeto em 2020, mas que não tem nada a ver com a pandemia pois já haviam criações feitas antes disso. Na altura, em fins de 2019 preparava-me para gravar o álbum de Archaic Tomb, quando se soube que o João Monteiro (baterista, RIP) tinha problemas de saúde sérios, e portanto tudo ficou em compasso de espera, durante o seu tratamento. Entretanto, devido a essa paragem decidi pegar em outras ideias que tinha na gaveta e comecei a desenvolvê-las com outro âmbito, e preferencialmente, com outro contexto lírico. E foi nessa conjuntura que a banda nasceu.

HellHeaven: Todos vocês têm já historial na cena Metal nacional. Como é que olham para o Estado da Nação Metal?
D.S: Eu posso apenas falar por mim, mas creio que a ideia geral é que hoje em dia há uma variedade enorme de bandas de qualidade, talvez como nunca tivemos em Portugal, a um nível internacional mesmo. Ao mesmo tempo, existem mais editoras, e um pequeno ressurgimento de lojas físicas, que no entanto, andam em estado de sobrevivência. Vivemos numa época em que pouco se valoriza a música, e isso é tudo contraditório e estranho.  

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HellHeaven: Nos últimos anos temos assistido a um, cada vez maior, número de bandas mas, num outro sentido, cada vez menos salas para se tocar. Que sinais é que isto dá? Será uma forma de se perceber o lugar onde determinada arte se encontra?
D.S: Se me perguntasses o que gostaria mais de mudar neste momento, seria haver mais locais para tocar e que as pessoas efetivamente aparecessem nos concertos, e não apenas em megafestivais de verão. Isso é facilmente explicado pelo crescimento desmesurado do turismo que se concentra essencialmente nas grandes urbes e algumas regiões como o Algarve. Isso conjugado com a especulação imobiliária resulta na construção de hotéis em vez de locais de cultura e/ou entretenimento. No entanto, não é que as pessoas oiçam menos música (se calhar o contrário). Simplesmente, as formas de convivência com a música é que mudaram. 

HellHeaven: O disco será lançado pela sueca Blood Harvest, como é que chegaram até eles? Lançar o álbum por uma editora internacional foi opção ou foi a ínica solução?
D.S: Já trabalho com a Blood Harvest desde que Archaic Tomb estava no ativo. Antes disso, já conhecia bem a editora e o seu dinamizador, através das minhas atividades com a Caverna Abismal. E por isso, no meio de tantas outras que também podiam ser uma opção, acabámos por continuar a apostar na Blood Harvest porque é uma casa que nos faz sentir bem, tanto pela amizade, como no tratamento como na sua forma de trabalhar, além de nos sentirmos muito bem enquadrados em termos sonoros. Sentimos muito orgulho em pertencer à família Blood Harvest, uma editora que já teve/tem no seu catálogo bandas como Snet, Cadaveric Fumes, Tomb Mold, Tribulation, Lvcifyre, etc. Além disso, é uma editora que trabalha bem o nome da banda a nível internacional, o que também é algo que nos interessa bastante.

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HellHeaven: “Cremation Pyre” está envolto em chamas e enxofre, sendo que os Phenocryst sempre encontraram na vulcanologia e na morte a sua inspiração. De onde vem esse fascínio e de que forma as duas coisas se conjugam?
D.S: O vulcanismo é um tema específico da geologia que envolve um elevado número de processos e fenómenos, bem como várias interacções, por vezes violentas, com a vida e a sociedade que não são frequentemente observadas na nossa percepção humana do tempo. Observar as entranhas deste planeta a serem vomitadas com tanto glamour e poder é algo único. A temática surgiu-me naturalmente na altura que andava a ler sobre o assunto, precisamente na mesma altura que andava a escrever alguns riffs. Ao rever alguns aspetos da vulcanologia, de repente, dei por mim a imaginar todo o poder destrutivo e os impactos destes fenómenos na natureza. Por um lado, tens a vertente de criação pela excreção de lava e rochas incandescentes, gases e poeiras, e por outro lado tem a vertente da destruição massiva e da morte. Como é possível que ninguém tenha pensado nisto antes como um assunto a ser explorado em música extrema?

HellHeaven: A “Fogo nas Entranhas” é o tema em português no álbum, qual o significado desse tema? Tencionam no futuro voltar a cantar em português ou é algo que não vos faz diferença?
D.S: A “Fogo nas Entranhas” é uma malha cantada em Português porque acabou simplesmente por ser algo que eu queria experimentar. Quis dar uma textura diferente nas vocalizações, numa malha que, de certa forma, considero ser um pouco fora da linha das músicas do álbum. Tem também um lado mais explorador em termos líricos, porque observa também a relação mística entre crença e o fenómeno natural do vulcanismo.

HellHeaven: Para além dessas influências mais “mundanas”, em termos musicais quais diriam ser as vossas influências?
D.S: Eu creio que as influências passam muito pelo momento e pelo estado de espírito. Acredito que quem oiça o álbum consiga distinguir muitas influências e vários estados de espírito. Variedade, é para mim, a chave. Não me fecho ou limito num estilo desde que esteja ao meu agrado e dentro de certos parâmetros. Creio que posso dizer o mesmo em relação ao resto dos membros da banda. Agora, de facto há algumas novas bandas que eu gosto muito, e com as quais me identifico na maneira de escrever, que são bandas como Krypts, Cruciamentum, Dead Congregation, Grave Miasma, Bolzer, Blood Incantation, etc. 

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HellHeaven: Agora que o álbum está prestes a sair, qual será o próximo objectivo dos Phenocryst? Existem planos para levar o “Cremation Pyre” para os palcos?
D.S: O grande objetivo é continuar a fazer música, que gostamos e que nos satisfaça as vísceras. Faremos alguns concertos de promoção ao álbum, e estaremos com os olhos postos lá fora, que seria para alguns de nós, uma nova experiência. Veremos, tudo vai depender, creio eu, das reações ao álbum.

HellHeaven: Qual a mensagem que deixam… 
D.S: A Terra Estremece, A Morte Se Desenlaça. Na encruzilhada Da Desolação, As Vítimas Tombam, Sem Redenção.

 

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