PROFANE BURIAL - "Na segunda-feira seguinte comprei o “Irreligious” e continua ser um dos meus álbuns favoritos!" (Entrevista)

“My Plateau” é o regresso dos Profane Burial após o excelente “The Rosewater Park Legend” de 2018. Assente num Black Metal Orquestral, para muitos descrito como Cinematic Black Metal, os Prafana Burial são, acima de tudo, detentores de uma fórmula única. A HellHeaven esteve à conversa com a dupla Kjetil Ytterhus e André Aaslie. Entrevista: Nuno C. Lopes

ProfaneBurial-1.JPG

HellHeaven: Começo por vos dar os parabéns por “My Plateau” e que marca o vosso regresso aos discos. Qual o motivo para esta distância de tempo e qual o pensamento acerca do resultado final?
André Aaslie: Eu e o Kjetil começámos a trabalhar neste disco logo após o lançamento do “The Rosewater Park” e o primeiro tema a entrar em pré produção foi o “Horror Code”, acho até que este tema foi escrito por ele algures em 2013, acho que foi por aí que ele me mostrou isto! Não sei bem porque não estou no disco de estreia, talvez encaixasse melhor nos Profane Burial 2,0 e no estilo do novo álbum. Tanto eu como o Kjetil nunca parámos de escrever material e, para ser totalmente honesto, até somos duas pessoas bastante produtivas, contudo quando trabalhas com outras pessoas, as coisas podem não ser tão rápidas quanto desejas! Com todo o respeito pelo que o Jostein e o Ronny fizeram pela banda e pelo seu esforço durante quatro anos, mas não podemos forçar a paixão e acho que tanto um como outro, sentiram que deveriam dedicar o seu tempo a outras bandas. Claro que isso atrasou um pouco as coisas e, durante um tempo, dediquei-me à guitarra e, naquela altura nunca tinha ouvido a voz do Kjetil. Sabia que ele é um extraordinário compositor e teclistas mas… voz?! (risos) Quando ele me enviou as primeiras coisas com a voz dele estava um pouco nervoso, no mínimo. Ele é um bom amigo há muitos anos e não seria fixe dizer a um amigo que a voz dele é uma merda (risos) mas, felizmente, ele acertou em cheio!

HellHeaven: Seis anos é muito tempo, ainda mais numa industria como esta e nestes tempos que correm. Quais são as expetativas em relação a “My Plateau”?
Kjetil Ytterhus: Tenho expetativas muitas altas com este álbum!Este é o primeiro lançamento em que ouço com regularidade depois de tudo concluído, e isso aconteceu há, quase, dois anos! Gosto dos temas, da produção, do som e do artwork! Este álbum é mais intenso e Black Metal que o disco de estreia e estive mais presente no processo de mistura. No anterior ainda era um novato e não fazia ideia de como fazer as coisas e não sabia bem como transformar em palavras o que queira passar ao gajo do mix! Confiei no resto da banda e na sua experiência e ficou muito bom! Agora já conheço melhor as coisas, após alguns lançamentos já consigo perceber todo o processo de outra forma e o som ficou, mais ou menos, como visão que tinha para o álbum: mais limpo, guitarras afiadas, mais extremo e metal em todo o lado! As reações estão a ser muito boas, não só das pessoas que nos são próximas mas como de público, por isso, as expetativas estão em alta.

HellHeaven: Desde a sua criação que o Black Metal tem enfrentado muitas alterações e muitas vidas. Como olham para o género na actualidade e o que se lembram dos primeiros anos?
Kjetil Ytterhus: Comecei a ouvir Black Metal em 1987/88, por isso tive a felicidade de viver os gloriosos anos 90 na Noruega, naquele tempo em que o Black Metal significava algo! Naquele tempo o género era um estilo de vida, agora está diluído e, aos meus olhos, quase não tem significado! Naquele tempo quando um álbum saía a certeza de que era bom era, quase, absoluta. Comprei muitos álbuns que ninguém conhece e descobri muitas pérolas e clássicos baseados em recomendações, criticas ou pela curiosidade da capa, do logo ou das pessoas envolvidas. As palavras chave na época eram atmosfera, uma jornada pelo álbum e mística! Naquela altura, todos os dias, quando abrias um jornal havia algo sobre uma igreja que ardeu, assassinatos, profanações, lançamentos brutais e outras coisas normais que aconteciam na Noruega! (risos) Isso é muito raro agora, infelizmente! Também conheci muitos dos músicos e bandas mais importantes da altura, sendo que a mais importante terá sido o Øystein Aarseth (Euronymous), vivíamos ambos em Ski e ele tocou no Follorocken com os LEGO, isso deve estar no Youtube! Actualmente qualquer pessoa pode tocar Black Metal e lançar uma quantidade de trampa pela internet e ficou muito limpo! Há poucas bandas que provoquem e que sigam as regras do livro! Como te disse era um estilo de vida, agora é só uma actuação em palco ou quando estás numa sessão fotográfica!

ProfaneBurial-Logo.jpg

HellHeaven: Os Profane Burial são, muitas vezes, rotulados de Cinematic Black Metal. Qual a origem do género e quais as diferenças para o Black Metal comum?
André Aaslie: Não me lembro de quando surgiu esse rótulo mas, Orchestral Black Metal talvez seja a forma mais correta de descrever o que fazemos. Acho que assim se consegue fazer melhor a distinção entre o Black Metal “comum” e, bem… o orquestral! (risos)

HellHeaven: Ainda assim, e com o novo álbum em vista, parece que quiseram criar um disco mais próximos do Black Metal dos anos 90, concordam? Qual o conceito do “My Plateau”?
Kjetil Ytterhus: Estás, absolutamente, correto, meu caro! (risos) Falando por mim queria voltar às minhas origens e expressar-me de forma mais Black Metal. Essencialmente ouço muito necro Black Metal, mas não me vejo a ir por esse caminho ao criar música, pelo menos por agora! Gosto muito do disco de estreia mas, infelizmente, já não me revejo no som desse disco, talvez pelo som extremo e limpo, também as vozes, que eram mais próximas de Death sejam agora mais Black, assim como as letras. Desta vez não quisemos criar uma história, cada tema foi escrito de forma individual e em períodos diferentes.

HellHeaven: Se compararmos os dois álbuns ficamos com a sensação que quiseram fazer um disco mais direto, foi algo planeado ou foi, apenas, para onde a música vos levou?
André Aaslie: Não tenho bem a certeza sobre isso, até porque os tempos nas canções são bastante parecidos, o mesmo acontecendo com a bateria, mas julgo que as partes orquestrais, gravadas antes das guitarras, funcionaram para ser mais Black Metal e mais direto. Como disse há pouco, o “Horror Code” foi a primeira canção composta e tem muito riffs mais Death Metal, por isso acho que o disco evoluiu para o Black Metal sem uma visão muito clara! Depois a voz do Kjetil, mais aguda, transformou este disco, o Ronny era mais Death Metal, o Kjetil é mais Black Metal!
Kjetil Ytterhus: Queria fazer algo mais Black Metal, até por ser mais próximo das minhas raízes! Fui preparando o André ao dizer: “precisamos de mais distorção”!, todos os dias! (risos) Ao ouvir as orquestrações dos sois álbuns não são assim tão diferentes mas as principais diferenças estão relacionadas com o que o André já explicou!

HellHeaven: Quando observamos todo a importância de dão ao detalhe e as diferentes camadas que colocam na vossa música conseguimos imaginar os desafios que isso vos coloca, qual a tarefa mais árdua em combinar tudo isso?
André Aaslie: Nunca passei tantas horas num álbum como neste! (risos) Ainda que eu e o Kjetil tenhamos 50/50 nas composições das partes orquestrais, desta vez também fiquei encarregue das guitarras e muito desse trabalho foi aprendido a fazer! Antes de tudo sou um baixista no que diz respeito às guitarras, por isso tive mesmo de puxar por mim para este trabalho, aliás, o “My Plateau” obrigou-me a ir, regularmente, a um professor de guitarra, por isso, o próximo álbum da banda já vai ser mais fácil para mim. O mais porreiro é que ao fazer todas as guitarras é mais fácil de que gravar todas as camadas, é muito complicado para um guitarrista adicionar algo a uma peça orquestrada, há muita coisa a acontecer e não podes abordar a música com a técnica clássica de riffs, isso acabou por ser uma vantagem para mim porque olho para a guitarra como mais uma peça da orquestra!
Kjetil Ytterhus: Só vejo vantagens nos Profane Burial neste momento, até porque eu e o André tratamos de tudo, exceto da bateria! Conhecemos o material a 100% e é fácil perceber o que deve e tem de ser feito. Tenho noção de que as pessoas se vão debater para compreender a nossa música. Há muitas camadas e pode parecer caótico e exige muito do ouvinte até perceber o que realmente se passa! Nuca escrevemos temas de forma fácil com as típicas pontes e chorus, como a estrutura de um tema Pop (risos), mas há uma estrutura no nosso caos e há sempre espaço para dar à música a sua oportunidade! Exige muito do ouvinte mas, sejam pacientes e serão recompensados. Como não há necessidade de me explicarem os temas, visto que sou eu que os escrevo, isso dá-me total controlo e uma visão clara antes de os gravar!

ProfaneBurial-Cover.jpg

HellHeaven: Com o “My Plateau” nas lojas desde Março quais são os planos em relação a touring e, como definiriam um concerto dos Profane Burial?
Kjetil Ytterhus: Neste momento não consigo prever nada para o futuro, visto que tenho alguns problemas de saúde para resolver e onde tenho de ter todo o meu foco!
André Aaslie: Já falámos acerca de levar a nova versão dos Profane Burial para o palco, já o fizemos na altura do disco de estria mas, o novo álbum precisa de dois membros de sessão! Precisamos, pelo menos, de um guitarrista, não sei se quero tocar guitarra ou baixo ao vivo, porque o álbum foi escrito para duas guitarras! No entanto, se a oportunidade surgir e se a saúde do Kjetil melhorar, vamos de certeza voltar aos palcos.

HellHeaven: Qual a mensagem que deixam para Portugal…
André Aaslie: Em 1996 lembro-me de um concerto em Oslo com Type 0 Negative e alguns amigos! Lembro-me bem de estar em frente ao bar quando a banda de apoio começou a tocar, um amigo diz: “estou com pele de galinha, tenho de ir ver estes gajos!”, e fomos. Assistimos a um concerto que “arruinou”, para mim, o concerto dos Type 0 Negative. PRO
Kjetil Ytterhus: Nunca fui a Portugal mas adorava poder ir aí um dia! Já tive em Espanha! Os fans aí parecem ser dedicados e emocionais e levam uma vida mais dura que nós na Noruega! Somos um povo mimado e temos tudo como garantido! Vocês são fantásticos e parecem valorizar todos os aspetos da música e a um nível superior ao nosso! Obrigado pelo vosso interesse em nós e no nosso álbum, muito obrigado.

0