RAGE AND FIRE - «Em grande medida a cena está melhor do que era nos anos 80 e 90. Com toda a honestidade, e isto é uma questão profundamente pessoal»

«The Last Wolf» é o primeiro álbum dos RAGE AND FIRE, banda que nasceu das cinzas dos Ravensire. A HellHeaven esteve à conversa com a dupla Mário Figueira e Ricky para fazer um resumo da matéria e perceber melhor a banda. Entrevista : Nuno C. Lopes

 

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HellHeaven: Começo, obviamente, por vos dar os parabéns por «The Last Wolf». Qual o sentimento da banda e como se sentem relativamente ao resultado final?
Mário: Eh pá, muito obrigado, estamos bastante satisfeitos com o resultado final, principalmente nos modos em que foi feito; é óbvio que muitas vezes ao ouvirmos certas músicas achamos que poderíamos ter feito mais isto ou mais aquilo, mas no geral estamos bastante satisfeitos.
Rick: De certa maneira sinto que ainda estamos a encontrar um pouco o nosso “chão” neste álbum; o que idealizo é que o próximo seja mais consistente, mas na realidade não tenho queixas… creio que já temos uma identidade própria e que os temas têm a sua personalidade… são variados mas são Rage and Fire. 

HellHeaven: Desde que começaram a dar os primeiros passos que os Rage and Fire geraram curiosidade e burburinho, muito por culpa do vosso passado na cena. Isso acabou por ter algum impacto no processo do álbum? Acham que pode ser um acréscimo de responsabilidade? Rick: Nem por isso porque, cada vez mais, o que retiramos disto é o prazer de compor e gravar algo que nos agrada. Todos temos a nossa vida organizada, e o tempo de ter “sucesso” – entre enfáticas aspas – já lá vai. Claro que gostaríamos de ir a um festival ou outro de vez em quando, partilhar o espírito metálico, ver boas bandas, etc. mas, acima de tudo, queremos ter um álbum nas mãos para o qual olhemos e pensemos: “ficou um bom trabalho!” Como se passará com um autor de um livro, ou de qualquer obra de criação pessoal. Além disso, é algo que nos traz realização. Isto de lançar álbuns é como dar uma boa foda… um gajo depois, com o tempo, vai ficando com os túbaros cheios e chega uma altura que está cheio de vontade de mandar mais uma.

HellHeaven: Agarrando aqui no vosso passado, e olhando para o presente, como é que olham para a «cena» actual em Portugal e se, de alguma forma, há alguma comparação com os anos 80 e 90? Aproveito para questionar quais as memórias que guardam desses anos? Rick: Em grande medida a cena está melhor do que era nos anos 80 e 90. Com toda a honestidade, e isto é uma questão profundamente pessoal – a cada um a sua idiossincrasia –, o grande problema que tenho com a cena portuguesa é o facto de estar completamente cheia de fãs de bandas de Pop Metal, Metal gótico, Metal sinfónico, Metalcore, etc e tal, e misturarem isso com bandas de Heavy Metal oldschool puro e duro. No meio deste panorama, foi havendo a partir de certa fase um grupo de bandas que foram surgindo, adormecendo, desaparecendo, ou que se foram mantendo, que tinham de facto uma afinidade estética e filosófica. As memórias que guardo dos anos 80 e princípio dos anos 90 são de uma cena em que todos os metálicos eram adolescentes ou jovens adultos com tudo o que de bom e de mau essa condição acarreta. Mas o Metal era algo que estava efectivamente à parte do resto da música, e tinha uma identidade férrea que nas décadas posteriores muito se esbateu. Alguns ainda se lembram, e ainda se mantêm essencialmente naqueles tempos.

HellHeaven: Uma coisa interessante e este álbum é mais uma prova disso mesmo, é que o Heavy Metal mais clássico continua a ser uma fonte de inspiração em Portugal, contudo, parece existir algo que pode ser descrito como Portuguese Heavy Metal devido a uma produção e sonoridade muito própria. Consideram legitima esta afirmação? Rick:Acho que, apesar da vitalidade das diversas bandas que formaram de certa forma um núcleo vagamente definido, o Heavy Metal tradicional em Portugal é um fenómeno muito marginal, apreciado por poucos (mas dedicados). Nos últimos 15-20 anos houve vários nomes que marcaram pela diferença, como os Midnight Priest, The Unholy, Leather Synn, etc. sem esquecer os Alkateya que em boa hora ressuscitaram. Há uma quantidade razoável de boas bandas que mantêm o espírito aceso, como Wanderer, Toxikull, Dolmen Gate, Dawnrider, On The Loose, entre outras. Não sei se há alguma coisa suficientemente comum para se poder falar de um “portuguese Heavy Metal”… mas há bandas que de facto partilham um conjunto coeso de referências e inspirações.

HellHeaven: Voltando aos Rage and Fire e ao álbum, este é um daqueles discos que poderia ser lançado nos anos 80 e, como já aconteceu na vossa Demo. Consideram que o Metal deve ser assim ou, por outro lado, consideram que o género se tornou demasiado «friendly» e a antítese da sua génese? Mário:Pessoalmente acho que há espaço para todos os estilos de Metal que existem, simplesmente este é o Metal que gostamos de ouvir, tocar e compor, é algo que está no nosso ser. Rick: Do meu ponto de vista perdeu-se alguma coisa desde que o Metal passou a ser um estilo cada vez mais diluído e mais “aceitável”. Nos anos 80 era uma coisa que estava definitivamente fora do resto da música, sobretudo da música “comercial” e “radio-friendly”, e configurava algo que podemos definir como uma verdadeira cultura, com marcadores identitários muito próprios. Mas estes movimentos contestatários tendem a ser absorvidos pelo paradigma dominante, normalizados e destituídos de sentido. Foi o que aconteceu em grande medida. Mas alguns metálicos da velha guarda (e uns poucos mais jovens) mantêm a antiga chama acesa, quais sacerdotes guardiões do fogo sagrado.

HellHeaven: Há no álbum dois temas que causam curiosidade, que são o «Black Wind» e o «The Last Wolf», em que ambos encontram a inspiração na literatura, neste caso em Robert E. Howard e Jorge Luis Borges, respectivamente. Como é que estes autores chegaram até vocês e de que forma os livros acabam por vos inspirar? Acham que, cada vez mais, as pessoas perderam a experiência imersiva de ler um livro?
Rick: Robert E. Howard e Jorge Luis Borges são dois dos principais autores da minha vida. O primeiro é evidentemente um dos principais pilares do Heavy Metal mais épico, e a sua produção literária foi e é uma inspiração directa ou indirecta para incontáveis bandas. No meu caso pessoal, eu deveria ter uns 12 anos, no máximo, quando vi à venda na livraria do Apolo 70, em Lisboa, o livro ‘Conan the Conqueror’, a versão do Sprague de Camp do ‘The Hour of the Dragon’. Convenci o meu pai a comprá-lo e dei-me ao trabalho de o ler com o dicionário ao lado. Aprendi muito da língua inglesa com este trabalhoso mas muito compensador processo. Reli o livro (desta feita na versão original do Howard) na altura em que estava a escrever as letras para a demo de Rage and Fire, e tive vontade de adaptar a história a uma letra (a ‘Black Wind’). Mas não é a primeira vez que adapto um texto do Howard desta maneira (além da quase ubíqua referência que ele representa para as letras que escrevo); já nos tempos de Ravensire, o tema ‘Homecoming’ foi directamente inspirado no seu poema homónimo. Igualmente, o Jorge Luís Borges escreveu muito do melhor que já li. A força do seu poema ‘Un lobo’ levou-me a redigir a letra do tema-título do nosso álbum, que é quase uma tradução. Também neste caso já tinha recorrido à sua obra – escrevi a letra de ‘House of Asterion’ dos Hellspike como uma adaptação, neste caso muito mais livre, do seu conto ‘La Casa de Asterion’.Ouço dizer que numerosos jovens têm vindo a recuperar o gosto pela leitura de livros… livros mesmo, em papel. Não tenho filhos, pelo que, devido à falta de contacto, cada vez me sinto mais ignorante sobre o que os jovens andam a fazer. O que fui vendo ao longo das últimas décadas é que já muito pouca gente lê… os livros não valem nada, são oferecidos a bibliotecas que já nem os querem ou são simplesmente deitados fora. Mas acho que a sociedade industrial e capitalista que esta desgraçada espécie humana foi construindo fomenta activamente o desprezo pela cultura. 

HellHeaven: Já se apresentaram várias vezes ao vivo e, agora com o disco prestes a ser lançado, o que podemos esperar em relação a aparições? Tendo em conta que o álbum foi lançado por uma editora internacional, é expectavel que os Rage and Fire consigam a internacionalização? É algo em que pensam? Mário: Julgo que dificilmente Rage and Fire se torne numa banda “internacional” pelo menos no sentido em que eu considero uma banda internacional, julgo sim que poderá haver hipótese da banda começar a ganhar algum nome lá fora, quer pelo passado de alguns elementos, quer pela editora e poder vir a tocar em alguns festivais europeus do underground, seria muito fixe tocarmos num Keep It True, Up the Hammers, Courts of Chaos, Pounding Metal, Skulls of Metal, etc… a ver o que nos reserva o futuro. Rick:Agora quando sair o álbum havemos de chatear alguns promotores de festivais lá fora a ver se alguém pega na banda para um concertozito ou outro. Pensamos na hipótese e seria muito porreiro se acontecesse, mas não é uma coisa particularmente fácil, a oferta é gigantesca e há menos gente a ir a concertos (e portanto a pagar bilhetes). Não faço ideia se vamos conseguir algum tipo de “internacionalização”. Se calhar deveríamos arranjar outro vocalista, o que temos não tem grande versatilidade para estas coisas do Heavy Metal clássico… vamos ver.

HellHeaven: Agora que o «The Last Wolf» está prestes a ser lançado, quais as vossas expectativas em relação ao mesmo? Qual a mensagem que deixam… Mário: Que Rage and Fire fique o mais conhecido possível dentro do underground e possamos tocar em grandes festivais de Heavy Metal! Rick: Muito obrigado por esta entrevista. Mantenham o metal verdadeiramente pesado!

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