SPEEDEMON - "o mundo gerido apenas pela AI deve ficar das cenas mais “boring” de sempre" (Entrevista)

“Fall of Man” é o novo disco dos vilafranquenses Speedemon e, além de ser a continuação conceptual de “Hellcome”, marca a estreia do quarteto pela Rastilho Records. A poucos dias do lançamento a HellHeaven esteve à conversa com o guitarrista da banda. Entrevista: Nuno C. Lopes

Spedemon_The_Band.jpg

HellHeaven: Começo, obviamente, por vos dar os parabéns por “Fall of Man” que marca, igualmente, a vossa estreia na Rastilho Records. Qual a expectativa em torno deste álbum?
Jorge Bicho: Boas Nuno! Em primeiro lugar muito obrigado pela entrevista e desejamos tudo de melhor para a HellHeaven. Muito obrigado, e esperemos que tenhas curtido o Fall of Man.  Na verdade, com os Speedemon as coisas acontecem algo devagar, mas, a “seu tempo”. A nossa relação com a Rastilho vem já de contactos aquando do lançamento do Hellcome. Já tinha ficado, por parte do Pedro, um interesse em ouvir o que faríamos a seguir e depois falarmos. E assim foi, depois da audição de alguns temas do Fall of Man, por parte do Pedro, os Speedemon “assinaram” pela Rastilho. Em relação à nossa expectativa em torno do álbum, obviamente temos na ideia que seja mais um passo importante para a banda e que acima de tudo as pessoas que nos ouvem gostem deste novo álbum e o vejam como um bom álbum de Heavy Metal. 

HellHeaven: “Fall of Man” segue as coordenadas do vosso disco de estreia em termos concetuais, no entanto, aqui o Speedemon enfrenta novos desafios que, na realidade, se aproximam de uma, cada vez mais próxima, realidade. O que se passa nesta história?
Jorge Bicho: Sim, o Fall of Man continua a ideia conceptual iniciada com o Hellcome. O Speedemon (personagem da capa do Hellcome) que nessa narrativa temática (do HELLCOME) chegava aos escombros de uma Terra com o seu exército de condenados encontra, entre o caos de um planeta pós-apocalíptico, um inimigo ainda maior que a humanidade; as máquinas. Por isso ele está, na capa deste “Fall of Man”, capturado pelas máquinas e prisioneiro numa nova realidade dominada pelas máquinas e a AI. 

HellHeaven: Com as máquinas a, cada vez mais, tomarem conta dos nossos destinos começa a tornar-se fácil esquecermos que somos Humanos. Como olham para esta (r)evolução digital e para os impactos que está a provocar nas sociedades?
Jorge Bicho: Abordamos isso na temática do álbum, Fall of Man, mas, não na ideia de que isto será “o fim da humanidade” mas sim o fim de uma  humanidade de como nós, os que passámos pelo Seculo XX, a conhecemos. O homem como espécie talvez não desapareça por causa das máquinas ou da AI, mas vai talvez transformar-se noutro “Homem”. Vemos isso já hoje a acontecer; o que víamos só em livros e em filmes hoje já é uma realidade. E isso é brutal também. É um desafio enorme para o Sapiens o que aí vem.

SPEEDEMON_Fall_of_Man_COVER_CD.jpg

HellHeaven: Também na música a IA começa a surgir e a criar novos desafios aos músicos “reais”. De que forma estamos a desvirtuar o trabalho Humano em troca de algo artificial ao invés de ser um “auxilio” a esse mesmo trabalho?
Jorge Bicho: Sim, a AI faz tudo inclusive música, óbvio. Como imita quase na perfeição até os nossos sentimentos e sabe agradar-nos de uma forma que os outros humanos não conseguem nem podem, porque são humanos. Achamos  que há pouco a fazer, talvez um dia no futuro, as artes desapareçam; que já não seja importante ou valorizado alguém fazer música, pintar um quadro, fazer poesia, escrever um bom argumento para um filme, talvez já nem existam filmes. Isso do nosso ponto de vista será horrível, mas já não deveremos cá estar e esperemos que nunca aconteça. Por outro lado, o mundo gerido apenas pela AI deve ficar das cenas mais “boring” de sempre e acreditamos que isto são fases e que o homem como ser superior e em constante insatisfação também se adaptará. . Até agora as máquinas que fizemos sempre tiveram um botão de “desligar”. A AI pela primeira vez na história da humanidade não tem, e isso é realmente diferente. 

HellHeaven: Ainda assim, no álbum vocês são alguns sinais de uma outra realidade em que existe um novo espaço para a Humanidade e para o Speedemon. Que realidade é essa? Poderemos, ainda, inverter este caminho?
Jorge Bicho: Sim, como disse anteriormente, Fall of Man é um olhar para uma “Nova Humanidade” seja ela o que for. Inverter acho não será possível (a menos que a nossa próxima “Guerra” seja com as máquinas e a AI como também é sugerido do Fall of Man). O que aí vem para nós é mesmo desconhecido, mas ao mesmo tempo brilhante. Mas sermos humanos e verdadeiros é o a única coisa que podemos e devemos preservar até para a nossa sanidade (risos). Por exemplo; poderíamos responder a esta entrevista com o Chat GPT; passava-lhe um bom briefing com a nossa descrição do conceito do álbum, acrescentava-lhe as tuas perguntas e ele faria com certeza umas respostas muito melhores e mais completas dos que as nossas. Mas valeriam Zero. Seria apenas mais um contributo para a Desumanização total. Seria o assumir que amizade, lealdade e a verdade valeriam pouco e isso é hipotecar o nosso valor como humanos orgulhosamente “errantes”.

HellHeaven: Tal como no disco anterior o “Fall of Man” é recheado de metáforas mas que são, ao mesmo tempo, “despertares” para o Mundo. Como olham, para o Estado do Mundo actual? E, com tudo o que acontece actualmente, torna-se mais fácil ter esta inspiração?
Jorge Bicho: Nos Speedemon sempre que escrevemos uma letra é a pensar que qualquer um pode interpretar como quiser ou como a sua opinião assim o levar a interpretar, por isso as metáforas os “cenários” que tentamos criar com as letras são por vezes altamente metafóricos, para nós não cabe a Speedemon ou a qualquer um “ditar” opiniões feitas sobre nada, nós apenas deixamos a ideia criada pela música e letra e cada um terá a liberdade de pensar e interpretar por ele mediante o que o faz sentir aquela mistura de música e letra. Respondendo ao que perguntas sobre o mundo atual, está a passar um mau bocado. Mas a humanidade é muito inquieta e irreverente, nunca estamos contentes com o que temos. Somos insaciáveis, pelo poder, pelo dinheiro, pela fama… por tudo… e isso é uma fraqueza que nos puxa para trás, mas ao mesmo tempo é um motor brutal que nos empurra para a frente. Por exemplo na música Speed On Fire, falamos disso; na letra, através de metáforas que são do mundo do Rock N Roll e da vida de uma banda de Heavy Metal , abordamos esta velocidade vertiginosa a que a humanidade está a viver. Na capa do single usamos a imagem de uma nave saindo de uma explosão como se coubesse nessa toda a humanidade (tal Arca de Noé) e vagueasse pelo Universo em busca de algo que não sabemos o que é.

Speedemon-FallOfMan-Banners-1920x1080-01.jpg

HellHeaven: Thrash Metal, Heavy Metal, Speed Metal ou NWOBHM… qual a melhor definição para os Speedemon? 
Jorge Bicho: São todas esses estilos … Na verdade os estilos que falas e que nós sempre assumimos, são os pilares das nossas composições, são no fundo os estilos de música que todos gostamos na banda. Mas nenhum prevalece sobre o outro. Temos muito claro na nossa cabeça e ouvidos o que deve ser um tema “à Speedemon” (seja isso o que for mas na nossa cabeça existe) e sempre foi o que tentámos trabalhar; um som de Speedemon com essas influências mas à nossa maneira e dentro das nossas capacidades como músicos e letristas. 

HellHeaven: Levam mais de uma década de carreira, sempre em ascensão, qual o balanço que fazem deste percurso até ao momento e como olham para o Estado da Nação Metal nacional?
Jorge Bicho: Sim já temos quase 15 anos como banda, é verdade! Para nós tem sido incrível, nós vivemos cada momento de Speedemon, adoramos a banda que criámos e para nós é quase a nossa vida fora da outra vida “real”. É a nossa cena, adoramos os Speedemon e tudo o que fazemos enquanto “Speed Demons”! O balanço é muito bom, embora sabemos que demoramos a fazer as coisas, mas isso tem sempre a ver com cada história, cada percalço, cada volta para trás para depois seguir em frente. Não temos pressa, nunca tivemos, nunca ficámos sequer angustiados com o percurso da banda. Principalmente eu e o Bruno que criámos os Speedemon, olhamos sempre para as coisas com positividade e sempre a pensar em frente e  em prol de quem nos vai ouvir ou ver e nunca a pensar noutra coisa, ou “objetivos” muito concretos. Quanto ao panorama Nacional está brutal! Eu acompanho a cena desde os anos 80 e só comparo o que temos isto com aquela época dourada dos Alkateya, V12, Ibéria, Tarântula e as tardes do Rock Rendez Vous. Hoje a cena está enorme em termos de Festivais, concertos  e bandas (saíram mais de 80 álbuns de musica extrema o ano passado em Portugal, isso é tremendo. Brutal mesmo. 

HellHeaven: Quais os planos no que diz respeito a concertos? Vão tentar novamente ir além fronteiras?
Jorge Bicho: Queremos acima de tudo apresentar este novo álbum e temas no maior número de palcos possíveis cá em Portugal e se possível lá fora. Agarraremos todas as oportunidades que nos derem como sempre fizemos.

HellHeaven: O terceiro disco é sempre algo que, para muitos, é sempre o mais difícil. Já começaram a pensar nisso? Qual a mensagem que deixam para a HellHeaven e para os vossos fans?
Jorge Bicho: Sim, Já temos ideias para o terceiro álbum, mas como sempre vamos com calma, mas uma coisa é certa, não pode estar 5 anos para sair, foi muito tempo sem um novo trabalho na nossa opinião e vamos contrariar isso, se conseguirmos. Para os amigos que nos seguem e que gostam do que fazemos, agradecemos do fundo do coração estamos eternamente gratos por os fazermos sentir bem com a nossa música isso é lindo e brutal! SPEED ON! OBRIGADO!!

 

0