Depois da estreia no Comendatio, em 2019, e após grandes transformações no seio da banda, o quinteto está de regresso ao Paço da Comenda para apresentar a sua nova abordagem a, claro o álbum ao vivo “Caronte”. A HellHeaven esteve à conversa com Marcelo Aires e Ricardo Pinto. Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Boas, agradeço pelo vosso tempo e disponibilidade! Como estão as coisas nos Sullen, vocês têm andado no silêncio! Estão a preparar alguma coisa?
Marcelo Aires: Obrigado nós por esta entrevista! Até então temos estado focados no lançamento do mais recente registo da banda denominado CARONTE, e igualmente na nossa performance na edição deste ano do Comendatio Music Fest. A verdade é que somos um grupo de pessoas bastante heterogéneo e com agendas preenchidas, pelo que projectos como este acabam por ficar sempre para segundo plano em determinados períodos, daí a ausência.
HellHeaven: Qual o balanço deste tempo de actividade e, para uma banda nacional qual a maior dificuldade/desafio que encontram?
Marcelo Aires: Diria que é sem dúvida a união e consistência dos os seus intervenientes, sendo que a maior parte dos contratempos em Sullen culminaram em períodos de hiato e mudanças drásticas na composição e dinâmica de trabalho do colectivo, afectando a estabilidade dos processos. A verdade é que conseguir uma convergência de mentalidades e objectivos entre as pessoas tende a ser algo bastante complexo, e Sullen não é de todo excepção à regra.

HellHeaven: A banda tem prestes a ser lançado um álbum ao vivo, quais as expectativas em torno desse lançamento?
Ricardo Pinto: O álbum vai sair no dia 24 de Maio. Chama-se CARONTE e já está em fase de pre-order. Vai estar disponível em formato digital no Bandcamp e nas plataformas de streaming, e numa edição física muito especial: um baralho de cartas que inclui um código exclusivo de acesso ao filme completo do concerto (gravado a 28 de Julho de 2023 no Teatro Helena Sá e Costa), o registo fotográfico das actuações e de backstage captado pelo João Fitas (THSC) e pela Beatriz Mariano (CriArte) e o download do álbum digital. Temos a expectativa de surpreender as pessoas que já conhecem Sullen e que não tiveram a oportunidade de ouvir a nova formação e repertório instrumental naqueles dois concertos. Mas mais do que expectativas, temos a intenção de partilhar esta nova identidade sonora e musical de Sullen.
HellHeaven: São novamente presença confirmada no Comendatio, o que revela bem não só o crescimento da banda e do festival, existe alguma pressão acrescida? O que podemos esperar de vocês no Comendatio? E qual a vossa opinião sobre o crescimento do festival?
Ricardo Pinto: A primeira vez que tocámos no Comendatio, em 2019, estávamos a estrear uma formação em quinteto com o David Pais na voz. O concerto foi indoors e eu na altura estava a tocar baixo. Ainda não tinham saído os dois volumes do Nodus Tollens. Entretanto houve a pandemia, Sullen trocou de guitarristas, editou dois álbuns, trocou de vocalista, editou live sessions em estúdio, ficou sem vocalista e reformulou-se como formação instrumental (eu passei para as teclas e convidámos o Kevin Mota dos Needle para o baixo). Pelo caminho, compusemos novas músicas e adaptámos repertório antigo a esta nova formação. É isso que vamos apresentar no Comendatio deste ano. Um pormenor fixe é que o repertório que vamos tocar em palco é o mesmo que integra o CARONTE e que estará disponível na banca de merchandise do festival no tal formato especial de baralho de cartas!

HellHeaven: Portugal tem assistido a um aumento de festivais e eventos, de que forma isso pode ajudar uma banda como os Sullen? Como olham para o panorama actual?
Ricardo Pinto: Os festivais e eventos podem aumentar, mas continuamos a ser um país com mais artistas e projectos do que espaços, público e, acima de tudo, dinheiro. Se falamos de uma banda como Sullen, com substanciais requisitos técnicos e logísticos e um elevado grau de exigência sobre a qualidade da apresentação ao vivo, então o panorama actual é ainda mais difícil. Especialmente se a própria banda se transforma tantas vezes em tão pouco tempo. Mas temos uma vantagem: não temos pressa – acreditamos no que estamos a fazer e preferimos tocar menos vezes mas que cada vez seja o melhor espectáculo possível (tal como aconteceu no THSC e no CriArte, os dois concertos que demos em 2023).
HellHeaven: Temos assistido, em Portugal, a um crescimento de festivais e a um decréscimo de locais para as bandas tocarem. O que é que isto nos diz sobre a nossa cena Rock/Metal e onde estará a solução para as bandas nacionais? Qual será a solução para este paradigma?
Ricardo Pinto: Só sei que, a seu tempo, os artistas encontrarão soluções. Pelo caminho vamos perder muita coisa boa, mas faz parte do processo. Como disse na questão anterior, não há dinheiro para tudo, nem para todos. Longe disso. Basta ver as listas dos resultados de apoios à criação da Direção-Geral das Artes. E aí estamos a falar das pessoas que se dão ao trabalho de concorrer a esses apoios. Se incluirmos as que não o fazem, então compreende-se porque os artistas começam a mudar de filosofia e adoptam uma de duas estratégias: tocar música mais fácil de vender (bandas de covers, música pimba, bandas de eventos, etc.) ou arranjar um emprego noutra área e, se houver tempo, fazer e tocar música por desporto.

HellHeaven: Quanto aos Sullen, vem aí álbum ao vivo, mas para quando o lançamento de um EP ou, quem sabe, um LP? Existe algo a ser planeado? O que podemos esperar de vocês no futuro?
Marcelo Aires: Neste momento está tudo em aberto – a verdade é que não prevemos lançamentos para breve, embora haja muita música nova no forno. Com o CARONTE marcamos o 3º lançamento oficial da banda com novo material em 4 anos, e como tal gostaríamos de deixar alguma dessa matéria musical “respirar” um pouco. Sullen passou por uma série de transformações dramáticas nos últimos anos, e neste momento precisamos de algum tempo e espaço dentro do colectivo para que algumas ideias e dinâmicas novas se possam estabelecer.
HellHeaven: Qual a mensagem que deixam para os nossos leitores?
Ricardo Pinto/ Marcelo Aires: Agradecemos do fundo do nosso coração todo o apreço que têm demonstrado pelo projecto ao longo destes anos, e esperamos que possam desfrutar do nosso CARONTE e toda a música que o compõe – vemo-nos no Comendatio, para um espectáculo absolutamente memorável!