O tempo é o que temos de mais valioso e o que mais desperdiçamos! Esta frase poderia descrever «Chronophobia», o disco de estreia dos portugueses Terramorta! Contudo o disco é mais do que apenas tempo e transporta em si todas as mágoas da invidualidade metamórfica de cada um. A HellHeaven esteve à conversa com Seer, vocalidta da banda para conhecer esta promissora banda. Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Começo por vos dar os parabéns pelo álbum de estreia “Chronophobia”. Qual o sentimento em torno do disco e quais as expectativas em torno da sua receção?
Seer: Obrigado, na verdade estamos todos bastante satisfeitos com todo o processo e resultado de estudio e, claro, excitados para apresentar o álbum ao vivo e a cores. Cremos que o álbum ficou muito próximo do tipo de som e conceito que idealizámos e é o fruto de uma planificação prévia muito rigorosa. Nada no álbum foi feito ao acaso, desde a composição musical às letras e ao conceito. Até este processo de criação foi diferente, uma vez que, geralmente, as bandas (os nossos projetos antigos pelo menos) vão ensaiando, tocando, experimentando e depois adaptando-se. Desta vez, idealizámos tudo ao pormenor primeiro, pensámos no conceito, como é que o iríamos desdobrar, que faixas fariam sentido, que temas iríamos querer abordar, enfim, fizemos uma espécie de research design o que simplificou e objetivou muito todo este processo, encurtando também a sua duração, sempre de forma sequencial, ligada e coerente e o resultado satisfaz-nos bastante por vermos que conseguimos atingir o objetivo. Agora falta apresentá-lo ao mundo e estamos muito expectantes por ver a reação do público, mas até agora, não nos podemos queixar, o feedback tem sido bastante positivo e espero ver o pessoal nos nossos próximos concertos.
HellHeaven: Vocês anunciaram a banda em Dezembro de 2023 e poucos meses depois lançam o álbum. Era este o plano original ou foram deixando que as coisas acontecessem de forma natural?
Seer: Sim, foi tudo planeado ao pormenor. Somos uma banda que está a começar e que ninguém nos conhecia. Tivemos que pensar de antemão em como chegar às pessoas. Portanto, o lançamento, a promoção, o marketing, as redes sociais, lançamento de videoclip, tiveram tudo a ver com essa planificação.
HellHeaven: Todos vocês já passaram por outras bandas, como é se deu a origem dos Terramorta e qual o conceito que criaram em torno da banda?
Seer: É precisamente por já termos passado por outras bandas que decidimos fazer diferente desta vez, juntar-lhe a objetividade e engenho de uma forma mais incisiva porque sabíamos exatamente aquilo que queríamos. Eu já tocava com o HellVigário há muitos anos, mas ultimamente estávamos parados, mas irrequietos. Por intermédio dele conhecemos o Nero Sangrus que se encontrava na mesma situação que nós, mas mortinho por ‘pegar fogo ao tédio’. A partir do momento em que nos juntámos, começámos imediatamente a trocar ideias, riffs, ritmos e conceitos de forma frenética. Após longas trocas de ideias, decidimos criar os TERRAMORTA, cujo nome representa o vazio e um espaço estéril, onde não há vida, não há esperança, e para onde em uníssono vemos e sentimos o mundo a caminhar, uma visão nihilista que muito nos carateriza, não só no que concerne ao nome da banda, mas também do álbum.

HellHeaven: O “Chronophobia” é um álbum concetual, ou cronológico se preferirem, e que gira em torno do medo irracional da passagem do tempo e dos seus efeitos. Dito assim poderíamos pensar que este é um registo cerebral, contudo o que se revela é que este conjunto de temas se rege, também, pela nossa passagem carnal pelo Mundo. De onde surgiu este conceito e em que se basearam?
Seer: O conceito em si surgiu de um distúrbio que me atormenta desde sempre, a cronofobia precisamente, ou seja, o medo do tempo e do seu passar pelas nossas miseravelmente efémeras e vazias vidas. Sofro de F.O.M.O., envelhecer mata-me por dentro, tenho muitas dificuldades em encarar, compreender e aceitar o passar do tempo, não só em mim, mas também nos meus entes queridos, família e amigos, e acho sinceramente que a cada dia que passa vamos sendo menos felizes, mais vulneráveis aos isolamentos, às depressões, à falta de motivação para continuar, à negritude que vai acelerando este caminho até ao inevitável e certo fim. Na altura estávamos à procura de temas coerentes para o álbum, algo que pudéssemos desdobrar e dar continuidade, tentando fugir de clichés, e eis que a adaptação deste distúrbio fez todo o sentido.
HellHeaven: Parece também existir alguma experiência pessoal, não relativamente à cronofobia, mas em relação à nossa experiência enquanto personagens efémeras numa certa efemeridade que faz parte da vida. Estarei correto?
Seer: Sim, sem dúvidas, todos já passámos por maus bocados, já vivemos bastante, o suficiente para colocarmos muito de nós no álbum, daí acharmos que está muito coerente e sincero, porque literalmente transparece os nossos receios e maleitas. Não decidimos de forma plástica criar um tema para o álbum com o qual não nos identificamos, pelo contrário, acho que tanto a banda como o álbum representam muito bem quem nós somos na nossa essência: uns ateístas, cinzentos, inconformados e rezingões nihilistas.
HellHeaven: O tempo é uma das coisas que temos mais valiosa no entanto é, ao mesmo tempo, aquela que desperdiçamos mais. Como olham para o tempo e para a forma como, neste mundo em que 24horas não chegam, gastamos esse mesmo tempo?
Seer: Achamos que a humanidade atingiu um nível de estupidez complexa e anti-natura medonha. O ser humano vive tão embrenhado atualmente na prossecução de carreiras de sucesso, bem como todas as futilidades e trends inerentes, que se esquece completamente de viver! Existir em vez de viver não é a mesma coisa. Estamos cada vez menos humanistas, cada vez mais individualistas, cada vez trabalhamos mais, cada vez nos espezinhamos mais, a nós próprios e aos outros, sempre de telemóvel na mão, esquecendo-nos do mais básico, usufruir de uma vida tão simples e efémera. No final vamos todos para o mesmo sítio e só restará, primeiro, o arrependimento, e a seguir, o eterno vazio.
HellHeaven: Definir os Terramorta enquanto género é uma dificuldade acrescida. Sabendo, de antemão que as bandas não gostam de ser associadas a rótulos, de que forma definiriam os Terramorta e, tendo em conta a diversidade sonora que apresentam, qual foi o maior desafio no que diz respeito a juntar todas essas sonoridades?
Seer: Ainda hoje não sei bem como nos definir. Nós juntámos várias influências. Há faixas que conjugam elementos do black metal, do death metal, do rock e da música clássica. Creio que o fascínio pelas trevas e um tipo de sonoridade que conseguisse transpor uma vasta negatividade foi o que nos ligou a todos. A introdução de elementos orquestrais de grande profundidade foi outro aspeto que que nos fez remar para o mesmo caminho, e tudo se foi afunilando e desenhando de forma natural. Mas resultado? Deixamos a catalogação para vocês!
HellHeaven: O álbum foi lançado e agora, acredito, que querem levar estes temas para a estrada. Qual o maior desafio para uma banda nova nesse sentido e quais os planos que já existem?
Seer: Temos a sorte de já ter bastante estrada com vários projetos, por isso já temos umas luzes de como nos fazer ao piso. No entanto, o grande desafio que encaramos prende-se mesmo com o facto de termos feito tudo sozinhos e de termos de insistir, de chatear e de continuar. Como somos uma banda nova de raposas velhas, é natural que possamos encontrar algumas dificuldades num futuro próximo para tocar aqui ou ali, no entanto o nosso objetivo é darmos poucos, mas bons concertos.
HellHeaven: Possivelmente ainda será cedo para falar disso, mas já existem ideias para um novo álbum ou algo que possam desvendar?
Seer: Por acaso já e posso afirmar que já estamos em pulgas para voltar ao processo criativo! Já temos conceito, já temos ideias, não podemos obviamente descrevê-las já, mas será um conceito totalmente diferente, crítico e bastante cáustico.
HellHeaven: Qual a mensagem que deixam para os nossos leitores…
Seer: Esperamos que gostem do álbum, que se possam de alguma forma identificar com a nossa música, e, claro, que apareçam nos nossos concertos que serão brevemente anunciados!