Do outro lado do oceano surgem os The Anchoret, que se estreiam com um disco forjado durante o período de isolamento. A HellHeaven esteve à conversa com Eduard Levitsky e Sylvain Auclair para saber como começou este “All Began With Loneliness” e sobre o que se poderá seguir no futuro. Entrevista: João Gama

HellHeaven: Olá, e parabéns pelo vosso disco de estreia “All Began With Loneliness”! Como está a ser recebidO?
Sly: Olá e obrigado pela oportunidade de chegar aos metalheads portugueses! As reações estão a ser uma loucura! É um privilégio fazer música, e ainda mais deixar as pessoas entusiasmadas com ela! Sinto-me lisonjeado com todas as reações!
Ed: Concordo plenamente com Sly, este sentimento de humildade é uma óptima descrição de como me sinto. O apoio dos fãs e amantes da música tem sido excelente e muito além do que alguma vez imaginamos! Sinto-me humilde e honrado por fazer parte desta comunidade
HellHeaven: Vocês são, pelo que sei, uma banda bastante recente. Podem revelar-nos mais sobre o projeto?
Ed: Tive a ideia de escrever algo que unificasse a minha paixão pelo rock progressivo e pelo metal moderno há já algum tempo, mas foi realmente a pandemia que finalmente me levou a concretizá-la. “It All Began With Loneliness” é o título porque foi assim que começou esta jornada. Sentia-me isolado e precisava de uma fuga da realidade e foi desta necessidade que nasceram The Anchoret. Somos de facto uma banda bastante recente, embora talvez possam reconhecer alguns de nós. Acho que ao estarmos todos a tentar encontrar um escape do confinamento acabei por ter imensa sorte, e o privilégio, de me conectar e colaborar com os incríveis artistas e músicos que aparecem neste álbum... tenho a sensação de que eles acolheram o álbum como uma estratégia de escapismo também! [risos]
Sly: The Anchoret é o bebé musical do Ed! Quando me contactou, disse-me que tinha minha a voz em mente enquanto compunha as músicas, e quando ouvi as composições fiquei maravilhado! Fiquei imediatamente inspirado para escrever melodias vocais e letras. Foi um processo muito natural e não poderia estar mais satisfeito com o resultado!
HellHeaven: Sendo resultado do confinamento, “All Began With Loneliness” surgiu como processo de cura?
Ed: É absolutamente resultado do confinamento e o meu bebé como dizia o Sly. Mas para ser sincero, acho que o confinamento foi a gota d’água, porque já me sentia desenraizado ao viver numa nova cidade longe da família. Como mencionei, “It All Began With Loneliness” é mais sobre escapismo, a jornada para sair do isolamento e em direção à esperança! Tudo começou aí… mas para onde prossegue? Onde termina? Todas as músicas do álbum focam-se do isolamento de uma forma ou outra, mas acho que estávamos todos famintos por um pouco de positivismo e por isso foi muito importante que os temas e as letras refletissem isso no final!
Sly: Acho que por estarmos confinados tive o impulso e incentivo para usar The Anchoret como uma forma de expressar os sentimentos por que passava! Em retrospectiva, sei que me impediu de enlouquecer! [risos] A primeira letra que escrevi foi para a abertura do álbum “An Office for… A Dead Man” que me parece bastante apropriada!
HellHeaven: Musicalmente, há muita coisa a acontecer. Não só há metal, mas parece também que se mergulha nos primórdios do rock progressivo. E há secções de saxofone, atmosfera criada com mellotron e solos de flauta. Isto foi algo que planearam desde o início?
Ed: Sempre gostei de bandas que me serviram como portas de entrada para explorar outros estilos. Bandas como Cynic, Porcupine Tree, Radiohead, Alcest… todas caminham nas fronteiras de um estilo, mas incorporam outras fontes de inspiração como jazz, eletrónica e post-rock. Por isso, sempre me esforcei para unir a minha paixão pelo prog rock e pelo metal. Cada faixa do álbum tem uma pequena homenagem a um artista específico que ouvi enquanto crescia, por exemplo, “A Dead Man”, a faixa de abertura do álbum tem influências óbvias de Pink Floyd, enquanto a faixa de encerramento “Stay” é uma homenagem aos Queen e mais especificamente a “Who Wants to Live Forever?”. Contudo, tudo está ainda assim profundamente enraizado no metal, pois é essa a banda sonora principal da minha vida!
HellHeaven: Como surgiram as ideias?
Ed: Devo imenso ao meu pai, pelo seu amor pela música e pela extensa coleção de discos! Cresci como um ouvinte muito casual, mas quando comecei a explorar música por conta própria, provavelmente por nostalgia, comecei a voltar a clássicos como King Crimson, Yes e Uriah Heep que ouvira enquanto crescia. Portanto, não é nenhuma surpresa que eles tenham influenciado fortemente a música que escrevi!
HellHeaven: E como implementaram as múltiplas ideias? Há um compositor principal ou tocam em grupo e depois escolhem o que funciona?
Ed: A música foi composta por mim e as ideias lentamente tomaram forma através de muitas, muitas revisões. Nem todas as ideias entraram nas músicas e nem todas as músicas entraram no álbum. Estou extremamente animado para voltar a explorar essas ideias em breve!

HellHeaven: E as letras, quem está por trás delas? Existe uma ideia/mensagem geral que queriam transmitir?
Sly: Eu sou o culpado por trás delas! [risos] Com o tema principal de um anacoreta (anchoret em inglês – um padre que se isola do mundo, dedicando a vida ao ascetismo com o propósito de tentar comunicar com Deus) em mente para este álbum, usei a personagem e escrevi a história em torno dela se questionar em relação à sua fé e propósito neste mundo. Algumas das outras músicas são inspiradas em experiências pessoais e outras em amigos próximos e também no estado do mundo em que vivemos atualmente. No entanto, geralmente são personagens atormentadas que buscam soluções para resolver as suas situações atuais! Acho que uma coisa é ficar com raiva de nós próprios ou dos outros, mas o interessante para mim é tentar encontrar soluções para melhor ajudar a resolver o estado actual em que nos encontramos.
HellHeaven: A capa do álbum e o ambiente criado com o mellotron transmitem uma sensação espacial/ficção científica. Nesse sentido, consideram este como um álbum temático/concetual?
Ed: Apesar de todas as músicas girarem tematicamente em torno do isolamento de uma forma ou de outra, “It All Began With Loneliness” não é um álbum concetual. O espaço é usado como uma metáfora para representar esse estado de espírito (e a saída do pequeno astronauta é uma indicação para a mensagem escapista do álbum também!). Dito isto, acredito que a exploração espacial sempre, de uma forma ou de outra, inspirou historicamente a música progressiva. Tenho a certeza de que muitos álbuns clássicos dos anos 60 e início dos anos 70 têm uma dívida com as missões Apollo. Eu sempre me fascinei pelo tema também! Na verdade, “Someone Listening?” foi inspirada diretamente por um documento oficial preparado por William Safire caso a alunagem terminasse em desastre e muitas das passagens dessa carta estão presentes na letra.
HellHeaven: Quais foram as partes mais fáceis e as mais difíceis na criação de “All Began With Loneliness”?
Ed: Acho que escrever – isto é, estar concentrado e simplesmente aproveitar o processo de escrita – foi a parte mais fácil e agradável. Como este projeto viu a luz do dia durante o confinamento e cada músico vivia num fuso horário diferente às vezes era um desafio gerir o projeto como um todo!
HellHeaven: Dada a diversidade de elementos que usaram, como categorizariam a vossa música? E quais são as vossas influências?
Ed: Eu adoraria considerar este álbum como uma porta de entrada para a música progressiva ou metal, por isso acho que a classificação de metal progressivo assenta muito bem! The Anchoret tem definitivamente no seu DNA características de Pink Floyd, King Crimson e Camel, mas também de Ihsahn, Insomnium e Cynic. Tento acompanhar a música o melhor que posso e ultimamente tenho estado realmente interessado em coisas mais extremas que se esforçam para ultrapassar os limites da composição convencional, nomeadamente Thantifaxath, Victory Over the Sun e Liturgy.
HellHeaven: Descobri a Willowtip Records recentemente por causa do último álbum de Parius. Apesar de a Willowtip Records apoiar algumas bandas progressivas, elas são uma espécie de excepção no catálogo desta editora. Como é que acabaram por assinar com a Willotip? E como se está a desenvolver esta parceria?
Ed: A Willowtip é uma companhia que tem uma das melhores reputações no mercado e é sinónima de lançamentos de qualidade ano após ano! Sempre gostei dos lançamentos da Willowtip e acompanho tudo o que eles fazem desde a época de Arsis. Por mais que eu queira dizer que bandas como Gigan, Cognos, Parius e An Abstract Illusion do ano passado foram pioneiras para bandas mais progressivas como nós, (e são, e certamente nos inspiraram a enviar a nossa demo!), a verdade é que o agradável pessoal da Willowtip Records é composto por verdadeiros fãs de música com visão de futuro! Chegar à Willowtip Records como um projeto totalmente novo, sem absolutamente nenhuma presença online, foi um grande tiro no escuro, mas tivemos a sorte de acordar com uma linda mensagem no dia seguinte e desde então realmente recebemos apoio em cada passo do caminho.
HellHeaven: Quais são os próximos passos para promover o álbum? Mais vídeos? Existem planos para digressão?
Ed: Estamos a trabalhar imenso para trazer o espectáculo para a estrada! É muito mais fácil falar do que concretizar, mas esta é uma das nossas principais prioridades neste momento. Entretanto, continuaremos a partilhar vídeos de músicas e de playthrough e, quem sabe, talvez o nosso astronauta animado reapareça para outra aventura em vídeo… Quem sabe, talvez até em versão videogame?
HellHeaven: Em relação a entrevistas, há alguma pergunta a que gostassem de responder, mas que nunca vos foi feita? Se sim, qual (e qual é a resposta)?
Ed: A pergunta é “O que nos podes contar sobre o primeiro single “Forsaken”, mais especificamente, sobre o vídeo?
O vídeo animado de “Forsaken” é uma das coisas que fiz e que mais me orgulho! Sinto que a animação transmite com sucesso as ideias e temas da música, mas também apresenta uma jornada realmente interessante por si só. Já dissemos anteriormente que todas as músicas se focam no isolamento de uma forma ou de outra, mas “Forsaken”, mais especificamente para mim, é sobre a perda de consciência. É sobre alzheimer, é sobre demência, sobre perda de consciência… é sobre a mente se tornar, de certa forma, uma prisão. O vídeo mostra o nascimento de Id, o astronauta e a sua jornada por algumas das suas memórias. Entre momentos de breve tranquilidade, essas memórias tornam-se cada vez mais fracturadas, surreais e destruídas. A jornada termina quando tudo acaba e a última coisa a esgotar-se é a consciência.
HellHeaven: Por último, que mensagem deixam aos vossos fãs/nossos leitores em Portugal?
Sly: Obrigado mais uma vez por esta oportunidade e mal posso esperar para tomar um copo e falar convosco pessoalmente quando visitarmos Portugal no futuro!
Ed: Obrigado Hellheaven pela incrível entrevista e, muito obrigado por todo o carinho e apoio Portugal!