THE MONOLITH DEATHCULT - "Com pessoas como Saddam Hussein, Joseph Stalin ou Donald Trump, para que precisas de Satanás" (Entrevista)

“The Demon Who Makes Trophies of Man” é o mais recente capítulo dos neerlandeses The Monolith Dethcult, eles que levam já mais de duas décadas a palminhar pelo caos e pelo absurdo, num géneres descrito, pelos próprios, como Avant Garde Death Metal. A HellHeaven esteve à conversa com Michiel Dekker. Entrevista: Nuno C. Lopes

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HellHeaven: Começo por dar os parabéns pelo vosso novo álbum, “The Demon Who Makes Trophies Of Men”. Qual a tua opinião sobre o resultado final do álbum?
Michiel Dekker: Estamos muito satisfeitos com o disco! Toda a música que lançamos é sempre a melhor que conseguimos fazer no momento! Não estamos focados, apenas, na velocidade ou na brutalidade, também procuramos algum groove e cenas catchy! Já tocámos alguns destes novos temas ao vivo e ficámos bastante agradados com a forma como o público reagiu aos temas do álbum!Ainda não decidimos se devemos chamar a este lançamento um álbum ou um EP, por isso é que chamamos nova música! Actualmente o negócio da música chegou a um ponto em que não faz sentido lançar discos com 50minutos, o que é uma pena, sinto falta disso! Sempre achei a cena mais fixe do que colocar um discos a rodar nos headphones e devorar aquilo tudo, por exemplo, sabia todas as letras, agradecimentos de todos os álbuns iniciais de Cradle of Filth, eu vivi aqueles álbuns! (risos). Actualmente tudo é mais volátil, os temas não podem ser demasiado longos para as plataformas de stream porque a atenção não vai além dos 3,40minutos. Decidimos não responder a isso e lançar os temas como é nossa intenção, o nosso tema que mais vende, “Fist of Stalin”, tem 5,20minutos! Temos a sorte de equilibrar entre a malta oldschool que compra os discos e os mais novos que ouvem em stream, adicionalmente pensamos que é fixe ter uma produção robusta nas mãos.

HellHeaven: O último álbum foi lançado em plena pandemia Covid, isso acabou por ter algum impacto na forma como o disco foi recebido?
Michiel Dekker: Absolutamente! O mais engraçado é que quando começámos, em 2019, com o “V3-Vernedering”, optámos por nos focar em todo o tipo de teorias da conspiração, temas inocentes, como a Terra ser plana mas, de repente, tudo se descontrolou e o “Connect the Goddman Dots” ganhou um novo significado diabólico… (risos) Os torres 5G foram colocadas a arder e as pessoas ficaram loucas com com as conspirações anti-semitase com a economia, esse disco foi a banda sonora para esse período confuso! Todos os concertos cancelados e tentámos manter a relevância através de singles e vídeos, a única coisa boa da pandemia é que se conseguiu separar o trigo do joio e a cena encolheu um pouco! O disco foi muito bem recebido mas acabámos com os discos concetuais e seguimos em frente!

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HellHeaven: O novo álbum surge numa nova era em que o Mundo está entre batalhas e guerras um pouco por todo o lado. Isso torna a inspiração surgir com maior facilidade?
Michiel Dekker: Não há uma nova situação! Sempre existiram guerras e problemas, contudo a comunicação social torna tudo mais visível, agora pensa como um teórico da conspiração! Isso sempre existiu mas essas pessoas não tinham uma plataforma onde se pudessem exprimir, as cartas submetidas não são publicadas nos jornais e os talk shows não convidam essas pessoas! Os teóricos da conspiração sentem-se mais fortes, por isso é que tens uma situação como a que aconteceu no Capitólio! Sempre obtivemos inspiração nas coisas absurdas da história mundial! Com pessoas como Saddam Hussein, Joseph Stalin ou Donald Trump, para que precisas de Satanás ou de clichés anti-Cristianismo! Adicionalmente temos a nossa preferência por filmes de acção de Sci-Fi. Onde podes juntar a obra do Stephen King! Assim já podes ter uma ideia da nossa inspiração!

HellHeaven: O álbum chama-se “The Demon Who Makes Trophies of Men”, quem é esse demónio e qual o conceito desta obra?
Michiel Dekker: É baseado numa lenda com origem na selva Sul-Americana! Nos verões mais húmidos as pessoas da vilas desapareciam na Selva e eram encontradas sem pele, também foram encontradas ossadas de crânios e colunas, os locais chamam de “El cazador trofeo de los hombres”. Um ex-militar e Major neerlandês, Alan Schaefer, que não tem qualquer laço com Jon Schaefer dos Iced Earth (risos), que teve contacto com essa personagem em 1987 e perdeu toda a sua equipa. Desde aí que vive numa comunidade qualquer nos Países Baixos rural e organiza sessões de cura e esse tipo de coisas!

HellHeaven: Com tudo isto que se passa no Mundo e com uma maior separação entre as pessoas será que não estamos a olhar para o nosso falhanço enquanto sociedade global? Haverá alguma solução ou será mais fácil estar apenas como observador?
Michiel Dekker: Passámos por décadas de uma corrida às armas e ao uso de armas núcleares em tempos de guerra! E nós continuamos aqui, ainda que nos tenhamos destruído a nós próprios uma e outra e outra vez! Isso não me parece ser um falhanço, acho que estamos condenados quando deixarmos os nossos defesas de segurança controlada pela Skynet! (risos)

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HellHeaven: Ao longos dos anos os The Monolith Deathcult mudaram e evoluíram a sua música o que torna complicado encontrar uma definição para a banda. Como defines a banda?
Michiel Dekker: Bom,começámos em 2002 como uma banda de Brutal Death Metal mas rápidamente juntámos outros elementos como os sintetizadores, orquestrações ou samples de filmes. Acho que um rótulo que nos assenta é Industrial Death Metal com adição de bandas sonoroas. Gostamos de lhe chamar Avant-Garde Death Metal! (risos) É como os White Zombie beberem uma cerveja com os Strapping Young Lad e Hans Zimmer!

HellHeaven: Com um leque tão vasto de sons e música, além de toda a mensagem nas letras, qual é o desafio a que se colocam e quais as tarefas mais árduas?
Michiel Dekker: Fazemos a música que gostamos de ouvir, apresentamos à banda aquilo que nos sentimos bem e não fazemos consessões! Esta banda é uma mistura de tudo o que ouviamos quando éramos novos e isso deixa uma grande palete: de Laibach a Nile, ou de Howrd Shore a Fear Factory! Poderíamos ter sido uma banda bem maior se mudássemos algo, mas isso não nos parece correcto! Sempre olhámos de um outro prisma em todos os aspectos da música e reciclamos alguma material que não teve a atenção que merecia! Os Metallica fazem isso, por exemplo, no “Unforgiven I”, II e III! Todas tinham uma opinião sobre o tema, é a música deles e não és obrigado a ouvir! Em termos de letras continuam a ter coisas absurdas, como a “re-eleição” do Putin, só isso já chegava para alguns álbuns! (risos) Quando não existirem desafios musicais vamos parar, depois vamos escrever livros ou fazer Stand-Up comedy!

HellHeaven: Ao fim de 20 anos e, quando olhas para o passado, se alguém te dissesse que em 2024 ainda estariam a ser relevantes e a lançar álbuns, qual seria a reação?
Michiel Dekker: Não é uma surpresa ainda estarmos no activo! Continuamos a evoluir enquanto escritores, músicos e tecnicamente! Se todos nos mantivermos bem de saúde podemos, muito bem, estar cá mais 20 anos, o que será desapontante para alguns que estejam a ler a entrevista! (risos). O que me lembro mais é que, antes, poderias estar em tour com uma banda maior e não teres que pagar uns milhares de euros para tocar, o Pay to Play é um absurdo e prejudica a cena, as bandas não deveriam tocar por ter dinheiro, mas sim por terem um bom álbum! Também me lembro do crescimento do MySpace, Facebook ou Instagram e de como foram úteis nesta guerra da promoção e de divulgar a música! Não me importava que as pessoas fizessem download da nossa música, estava feliz por as pessoas se interessarem! Também me lembro de quando tentámos evitar os estúdios, somos tão maus músicos que iríamos gastar quantias astronómicas de dinheiro! (risos) Desde 2005 que gravamos tudo sozinhos e depois as coisas são masterizadas pelo Guido Albers e Maor Applebaum. Antigamente andámos cheios de cabos ded guitarra e amplificadores, agora é tudo plug-ins e não sei que! Estamos sempre a evoluir nos nossos métodos e na tecnologia e isso, é outra parta divertida nos The Monolith Deathcult!

HellHeaven: Será que este é o momento certo para, finalmente, ter os Monolith por cá? Qual a mensagem que deixam?
Michiel Dekker: Já tocámos em toda a Europa mas nunca em Portugal e Espanha! Os promotores podem entrar em contacto connosco e ficaríamos muito feliz de ir aí tocar! Já não fazemos digressões extensas e depois somos contra o Pay to Play, no entanto estamos disponíveis para tocar se tivermos todas as condições. Portugal e Países Baixos têm uma ligação! Ambos são países que desafiaram as leis dos mares nos tempos das Descobertas, por isso é que acho que seria ainda mais divertido tocar em Portugal para vermos o que os nossos antepassados fizeram! (risos) Também gostamos de estar deitados nas prais e somos fans de Moonspell!

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