Os nacionais The Voynich Code são mais uma das bandas que marcarão presença no Comendatio Music Fest. A HellHeaven esteve à conversa com a banda não só sobre o evento, mas também para falar em retrospectiva sobre o último álbum, tal como os planos que tem para o futuro. Entrevista: João Gama

HellHeaven: Olá, e parabéns pelo (ainda recente) “Insomnia”. Passado meio ano, como é vista a recepção deste vosso segundo álbum?
The Voynich Code: Olá e muito obrigado! Foi sem dúvida o álbum em que mais depositamos tempo e atenção ao detalhe. É um reflexo da nossa evolução como banda. A entrada do Daniel Torgal e o facto de termos o apoio da Unique Leader Records permitiu-nos evoluir como músicos não só no campo da sonoridade e composição, mas também em todos os elementos visuais como videoclipes, artwork e album concept. O feedback tem sido positivo e a maioria das opiniões contam a nosso favor, embora continuemos a fazer música que gostamos sem ser influenciados por opiniões externas.
HellHeaven: Passados seis anos após o lançamento do vosso primeiro longa duração “Aqua Vitae”, como interpretam a vossa evolução?
The Voynich Code: Nós fazemos muitas vezes esse balanço e essa comparação. Achamos que o “Aqua Vitae” é um álbum que fez sentido na altura em que saiu e considerando o que conseguíamos tocar e compor. Em 6 anos evoluímos muito e superamos os limites da nossa sonoridade. Acreditamos que o “Insomnia” acaba por ser um álbum muito superior não só na componente técnica, mas também em termos de produção/mistura e na parte lírica também.
HellHeaven: Como será trazer “Insomnia” aos palcos de um festival como o Comendatio Music Fest? O que podemos esperar?
The Voynich Code: Tocar músicas do “Insomnia” é o maior desafio que temos atualmente. São músicas muito rápidas e técnicas e exige uma rotina de prática enorme para todos nós como músicos. Fizemos 2 shows de lançamento em Portugal quando o álbum saiu e já tocamos alguns temas também no Japão ano passado e o feedback foi incrível. Podem esperar um set bastante coeso e rápido a nível técnico com blast beats e breakdowns a furar por um ouvido e a sair pelo outro! (risos)

HellHeaven: Há já mais datas para ver os The Voynich Code ao vivo, quer em território nacional como além-fronteiras?
The Voynich Code: Vamos tocar no Rock Camp Fest em França, no dia 25 de Maio e no Cine Incrível de Almada, no dia 26 de Maio com os nossos amigos Push e Unexist. Para além do Comendatio temos já algumas datas em Agosto pela Europa, sendo uma delas a abrir um gig de The Black Dahlia Murder que é uma das nossas maiores influências e uma banda que ouvimos desde miúdos. Continuamos a marcar concertos e estamos a lutar por conseguir espaço em tours maiores de suporte. É o nosso principal objectivo.
HellHeaven: Nos dias que correm, com a crise económica, há as queixas de que muitas bandas limitam as suas digressões, excluindo Portugal. Mas como é, para vocês, a história do outro lado: quão difícil se tornou tocar fora de Portugal?
The Voynich Code: Há uma combinação de variantes que influenciam essa questão. Nunca tivemos tanta dificuldade em tocar fora de Portugal como agora. A pandemia e o covid-19 mudaram o cenário da música por completo em que muitos espaços se viram obrigados a fechar. Os combustíveis fósseis aumentaram consideravelmente e existem muito mais bandas com talento a competir pelo mesmo espaço/mercado. Não gostamos de usar o termo competição em música, falamos mais no sentido do número de espaços X bandas existentes. As contas estão cada vez mais apertadas e os promotores acabam apenas por marcar bandas que conseguem trazer uma garantia sólida e fidedigna no que toca a venda de bilhetes, o que é normal.

HellHeaven: Em termos de público, como comparam a recepção pela audiência nacional face à internacional?
The Voynich Code: Achamos que não há muita diferença, o público na Europa é bastante homogéneo, diríamos que há uma maior discrepância quando comparamos países de clima frio (como Alemanha, Holanda, Bélgica) com países do Sul (Portugal, Itália, França, Espanha). Por norma em países com clima mais quente/ameno o público acaba por soltar-se mais e fazer a festa, mas já tivemos bons concertos em todos os países da Europa em que tocamos.
HellHeaven: Que planos têm para o futuro? Continuar a promover “Insomnia” ao vivo e com mais vídeos? Ou já se encontram a trabalhar no seu sucessor?
The Voynich Code: Vamos continuar a criar alguns vídeos para o “Insomnia” mas mais focado em playthroughs, a demonstrar como os sons são tocados. Ao mesmo tempo estamos a trabalhar em singles isolados e a preparar o próximo álbum. O nosso processo criativo e de composição leva sempre bastante tempo pois somos muito meticulosos e cada detalhe tem de estar perfeito.
HellHeaven: Em relação a entrevistas, há alguma pergunta a que gostariam de responder mas que nunca vos foi feita? Se sim, qual (e qual a resposta)?
The Voynich Code: Onde seria o nosso concerto de sonho?
Podemos dizer que já riscamos alguns da lista, por exemplo ao tocar no Altice Arena com Slipknot no Evil Live. Mas sem contar com esse garantidamente o Download Main Stage seria um dos nossos sonhos, ou Hellfest ou até mesmo o Resurrection mas desta vez no Main Stage.
HellHeaven: Por fim, que mensagem gostariam de deixar aos vosso fãs/nossos leitores?
The Voynich Code: Queríamos mais uma vez agradecer todos os fãs que nos apoiaram até hoje, seja a ouvir a nossa música ou a ir aos concertos ou a comprar merch/CDs/vinil. É cada vez mais difícil e dispendioso ter uma banda em que 90% dos casos não existe retorno, mas continuamos a fazer isto porque adoramos e faz-nos sentir “vivos”. É gratificante saber que já chegamos tão longe e há tantas pessoas a ouvirem a nossa música. Obrigado!
Com a distância que o tempo nos permite, voltámos a “Insomnia” para dissecar o álbum com a ajuda da banda. Aqui fica o álbum da banda nacional em Discurso Direto.

“Slaves To A Machine” – Discute como a nossa cultura valoriza mais o trabalho do que a família. Alerta sobre como nos tornámos escravos de máquinas que só se preocupam com seu próprio progresso, ignorando o bem-estar emocional, o tempo livre e o descanso do trabalhador. Destaca que nos tornamos cativos de grandes corporações, muitas vezes percebendo tarde demais que sacrificamos nossa vida, saúde e família por algo que não é nosso.
“A Flicker Of Life” – Numa realidade alternativa, estar acordado é considerado um período de descanso, enquanto dormir é visto como o momento de actividade. Essa é a visão de alguém que sofre de um distúrbio do sono, no qual, apesar de o sono ser profundo, é mais exaustivo do que estar acordado.
“Homecoming” – Com uma abordagem mais sombria, "Homecoming" retrata os contínuos abusos psicológicos de uma mãe contra uma criança desde tenra idade, deixando marcas emocionais profundas e duradouras que ressoam na vida adulta.
“Hell's Black Heart” – E se todos os nossos pesadelos estivessem aprisionados num cofre, esperando serem libertados? Nelson expressa a sua convicção na aniquilação da humanidade caso esse cofre, contendo todo o seu catálogo de pesadelos, fosse algum dia aberto.
“The Art Of War” – Na guerra, o sofrimento não é uma opção, é uma escolha de quem tem esse poder. A arte da guerra não se resume a estratégias ou a "que vença o melhor". É, simplesmente, o uso do sofrimento dos inocentes até que um dos lados se renda. Nelson descreve isso nesta faixa lamentando o sofrimento de todos os inocentes, especialmente dos mais vulneráveis.
“A Dying Age” – Nelson aponta o que considera estar errado na sociedade actual: desde a criação de gerações dependentes de redes sociais onde, por exemplo, fingimos ser “NPC’s” até à transformação da liberdade de expressão num canal para a ignorância ganhar poder na sociedade. Nelson acredita que estamos destinados a sucumbir pela nossa própria ignorância.
“A Letter To My Future Self” – Nelson aborda um tema profundo, compartilhando a sua incapacidade de ajudar alguém que lhe é querido que ainda está sujeito aos abusos descritos no tema "Homecoming". Mesmo tendo o desejo de ajudar, ele reconhece que ter de recorrer à inteligência emocional para compreender que, por mais que queira, não consegue resolver os problemas dos outros em detrimento da sua própria saúde, mesmo que esse sentimento de impotência lhe cause sofrimento. Nelson reconhece que um dia se arrependerá, citando: "Sei que um dia vou lamentar não ter feito mais..."