“Lisboa Depois de Morta” é o título do ultimo álbum dos regressados Thragedium ao fim de duas décadas e que foi, também, um dos álbuns nacionais do ano (no género). A HellHeaven esteve à conversa com o guitarrista e fundador José bonito. Entrevista: João Gama

HellHeaven: Olá, e parabéns pelo novo álbum “Lisboa depois de Morta (Lisbon AD)” que acaba de sair! Como estão a ser as reacções?
José Bonito: Antes de mais, o nosso agradecimento pelas palavras e interesse no nosso trabalho. Pelo que temos vindo a registar, as reações ao disco têm sido de um modo geral positivas, superando até, qualquer expectativa que pudéssemos ter em relação ao assunto! Particularmente no estrangeiro, onde quem tem realmente escutado as músicas, o seu conteúdo e tentado perceber todo o conceito que o envolve, revela uma curiosidade fora do comum e níveis de aceitação bastante gratificantes. Em termos nacionais, é mais do mesmo, existe quem aprecia, quem odeia e também para quem a coisa é totalmente indiferente, aliás, tal como quando surgimos há 20 e tal anos atrás. Se no passado a unanimidade em redor da nossa música não existiu, não acredito que agora tal aconteça!
HellHeaven: Este é o vosso primeiro longa-duração em cerca de 20 anos. O que nos podem contar acerca deste retorno, e do hiato que o precedeu?
José Bonito: Sobre o hiato pouco há a dizer. O projecto encerrou actividades algures em 2004, se a memória não me falha, e desde aí todos seguiram as suas vidas. Uns continuaram ligados ao meio musical, outros nem por isso! Conseguimos ir mantendo algum contacto entre nós, porque a amizade, essa, nunca esteve em causa.
O retorno acontece de forma natural, creio! Eu e o João Paulo tivemos uma conversa num café sobre o facto de a nossa primeira gravação como Thragedium estar, na altura, perto de completar os seus 20 anos de existência e, de como seria interessante celebrar isso com música nova, sem compromisso, totalmente espontânea e que conseguisse expressar todo o estado emocional em que nos encontrávamos no momento. Sem pressões ou grandes objectivos em mente. Apenas a música! Conversei com o Nuno, um dia ou dois depois sobre a nossa intenção e ele com todo o seu entusiasmo respondeu afirmativamente. Tivemos um encontro os três e aqui estamos com um disco novo em mãos passadas duas décadas.
HellHeaven: O disco saiu a 31 de Outubro e foi apresentado ao vivo ainda na noite de Halloween. Como foi este evento e o que se pode esperar dos Thragedium ao vivo no futuro?
José Bonito: Foi um momento muito especial! Apresentar o nosso álbum num palco mítico como é o da Incrível Almadense, num evento daquela envergadura e estarmos ali os quatro, como antigamente, na nossa fase primordial, foi de facto, um cenário surreal! Estávamos serenos e tranquilos, a vibe era óptima, a música fluiu, o público reagiu bem e quando terminámos, dissemos:
Ok, está feito! Bela experiência esta!
Dos nossos concertos futuros há a esperar somente o carácter cerimonial e celebrativo que a nossa música justifica na plenitude e que os presentes no dia 31 tiveram oportunidade de testemunhar.

HellHeaven: Em 2020 lançaram o vídeo para o single “Lucefécit”, que na altura era anunciado para o álbum “Thragedium”. Contudo, agora é lançado como “Lisboa depois de Morta (Lisbon AD)”. O que levou a esta mudança de nome?
José Bonito: "Lisboa Depois de Morta" era um título que já tínhamos e que se destinava a um trabalho futuro.
Decidimos utilizá-lo para este trabalho pois, tendo em conta o histórico da banda, não queríamos arriscar que esse título só fosse conhecido 20 anos depois (risos)
O título "Thragedium" para o álbum nunca deixou de ser provisório, e serviu o propósito de enquadrar o lançamento do single "Lucefécit" em 2020. Sentimos a necessidade de dar uma prova de vida logo aí, para que todos soubessem o que a banda estava a fazer nessa altura.
O título "Lisboa Depois de Morta" é perfeito para aquilo que o disco representa, pois pode remeter para um tempo antigo e, simultaneamente, ser aplicado à atualidade. A música dos Thragedium, na minha opinião, também contém essa intemporalidade.
HellHeaven: Como pretendem continuar a promover o novo disco? Haverá mais algum vídeo num futuro próximo?
José Bonito: Num futuro próximo temos já confirmados dois concertos: um em Leiria em Janeiro e outro em Lisboa em Fevereiro, sobre os quais faremos em breve um anúncio oficial.
Para além disso, existe todo um trabalho de promoção junto de várias publicações que trará à luz mais entrevistas e reviews nos próximos tempos.
Relativamente a vídeos, temos duas/três novidades na calha também para breve mas, serão surpresas para já bem guardadas.
HellHeaven: Nos discos anteriores tiveram o Fernando Ribeiro como colaborador. Agora neste novo álbum a bateria ficou a cargo do Hugo Ribeiro. O seu aparecimento em cena está relacionado com os vossos longos laços com os Moonspell? E a conexão com a Alma Matter Records como surgiu?
José Bonito: Desde os tempos da edição em formato demo do "Theatrum XIII" em 2000, que o Fernando Ribeiro demonstrou o seu interesse e admiração pela sonoridade da banda e, daí surgiu o nosso convite para a sua participação no tema "O Espírito do Tejo", que foi lançado em 2001, aquando da edição profissional desse trabalho, sendo esse, aliás, o primeiro lançamento oficial fora de Moonspell em que o mesmo participou. A nossa relação com ele e com os Moonspell sempre se pautou por princípios simples de amizade e respeito. Foi com grande prazer que retomámos essa ligação, mais de vinte anos depois, com a edição do "Lisboa Depois de Morta" pela Alma Mater Records.
A editora e o seu staff proporcionou-nos todas as condições e superou qualquer ideia que pudéssemos ter relativamente ao seu trabalho com o "Lisboa", desde apostar em Jaime Gomez Arellano para a masterização do disco, até à arte do conceituado Travis Smith! A presença do Hugo Ribeiro na gravação da bateria para o disco é apenas mais um bom exemplo disso. Por questões de indisponibilidade pessoal, o nosso baterista de sempre, o César Feiteira, não nos pode acompanhar neste regresso logo desde o início, por isso recorremos ao João Paulo Monteiro numa fase inicial e, que por motivo de doença, já não teve a possibilidade de gravar as baterias que ajudou a compor para o disco. A sua luta por recuperar e, no final, a sua triste partida, acabaram por marcar a banda e, de certo modo, consegue sentir-se isso no próprio disco. O Hugo fez um excelente trabalho, é um músico tremendo e muito acessível pessoalmente. Felizmente, assim que o César conseguiu resolver os seus impedimentos, juntou-se a nós como membro fundador da banda que é.
HellHeaven: E o que nos podem contar acerca das restantes colaborações: Pedro Oliveira (Sétima Legião) e Marie Beatriz Lúcio?
José Bonito: Aqui está mais um dos exemplos do trabalho feito pela nossa editora para o enriquecimento geral do trabalho final. O tema em questão é o " Um Mal Necessário" que assim que foi escrito, música e letra, soubemos logo que tínhamos ali algo de muito especial. Uma atmosfera que nos remetia para um universo musical próximo de uns Sétima Legião, dos quais somos muito apreciadores. Numa das múltiplas conversas que se iam mantendo com o Fernando, falou-se nisso e ele, como conhecia o Pedro, tratou de nos pôr em contacto com ele.
É uma pessoa extremamente afável, um senhor da música portuguesa. Foi uma honra ter a sua participação neste álbum assim como o de estar connosco em palco no concerto do Halloween. Simplesmente inacreditável! A Marie era vocalista de um projeto de música tradicional chamado Xaile. Convidá-la foi importante porque, com a sua capacidade e beleza vocal, os temas "Nations Fall" e "The Old Oak and the Mandrake Root" ficaram ainda mais ecléticos musicalmente, elevando assim, com o seu talento, o nível das músicas em que colaborou.

HellHeaven: A vossa sonoridade está entre o (neo-)folk e o metal. Consideram que estilo mais abrangente vos abre mais portas? Ou acaba por ser restringente?
José Bonito: Acaba por ser uma fatalidade colocar esses rótulos na música. Quando o disco foi composto, o processo de criação foi tão espontâneo e livre que nada disso nos passou pela cabeça.
Nada é planeado para que a sonoridade seja mais ou menos folk/metal. Foi o próprio ímpeto criativo que, no final, nos ditou que o disco soasse assim.
Basicamente, fomos profundamente egoístas em não nos preocupar com uma escolha de estilo mais abrangente ou mais restrita. Deixámos a alma ditar o caminho e acabámos com um excelente disco nas mãos...que não é de metal, nem de folk... é de Música!
HellHeaven: A língua portuguesa encaixa perfeitamente na vossa música! Tal como old norse encaixa em neo-folk nórdico. Isto porque reforçam uma noção de identidade (tradição e cultura). Diriam que essa noção ruma à extinção, devido à globalização e ao intenso uso actual do inglês na música?
José Bonito: Queríamos muito dar liberdade ao Nuno para escrever sem grandes barreiras. Quando ele apresentou grande parte do trabalho em português, foi mais um factor especial e de grande motivação para todos. Escrever e interpretar em português é uma responsabilidade enorme!
Para além do português e do inglês, utilizamos também o latim e castelhano arcaico no disco. É óbvia a influência histórica e da cultura lusitana na nossa música.
Para nós faz todo o sentido expressarmo-nos dessa forma, era aliás um dos pontos em que pretendíamos dar um salto evolutivo em relação ao que havíamos feito no passado e, penso sinceramente que o conseguimos fazer. Estamos bastante orgulhosos da escrita que apresentamos neste disco.
A nossa personalidade vincada, a originalidade e o facto de encaramos sem medo o desafio de nos transcendermos, são alguns dos pontos fortes do "Lisboa Depois de Morta". Nunca é demais realçar a importância desses factores em detrimento de outros mais genéricos, que a nosso ver, acabam por não ajudar as bandas. Na nossa música nunca se irão extinguir esses valores.
HellHeaven: Por último, em relação a entrevistas, há alguma questão a que gostassem de responder, mas que nunca vos te tenha sido feita? Se sim, qual (e qual a resposta)?
José Bonito: Respondendo muito sinceramente, acho que não! Supostamente as entrevistas são o reflexo do interesse de quem as faz pelo trabalho musical de alguém e por aquilo que os leitores possam querer saber. É lógico que ficam sempre coisas por perguntar e outras por responder, mas, faz parte do cenário! Nada a dizer sobre isso! Mas... já agora...deixo aqui a pergunta que falta para a HellHeaven: O que acharam do disco?? (Risos)
HellHeaven: Nós na HellHeaven gostámos bastante do álbum e até foi considerado um dos álbuns nacionais de 2023! (risos) Por último, que mensagem gostariam de deixar aos fãs/leitores?
José Bonito: Os fãs de Thragedium são, já de si, pessoas diferentes e especiais, e temos por eles um carinho fora do comum!
Se os trabalhos anteriores já o faziam, o "Lisboa" é a derradeira provação para eles, pois oferece-lhes um mundo de rara beleza mas, em troca, clama pela suas almas.
É preciso sintonizar uma frequência especial para chegar ao âmago do "Lisboa Depois de Morta", mas assim que o consigam fazer, é impossível não amar este disco. A eles, e pelo enorme carinho que nos fizeram chegar, apenas podemos dizer muito obrigado por tudo!
À HellHeaven e aos seus leitores, o nosso agradecimento pela oportunidade da entrevista e pela disponibilidade para ler estas linhas! Um abraço!