«Cansado» é o sugestivo titulo dos Vai-te Foder, banda que celebra os seus 20 anos de chafurdanço na actualidade. Sem papas na língua e com vontade de despertar consciências, Paulo Trasher, vocalista da banda, esteve à conversa com a HellHeaven. A entrevista é do Nuno C. Lopes

HellHeaven: Começo por vos dar os parabéns por «Cansado», o novo álbum. Qual o sentimento em reslação ao álbum e qual tem sido o feedback que estão a receber?
Paulo: Até agora o feedback tem sido bastante positivo. As reações aos temas ao vivo, até antes de sair o álbum, também têm sido bem intensas o que nos acaba por transmitir um feedback ainda mais caloroso. Portanto, só temos de agradecer todo o apoio e boas palavras que temos recebido nos últimos meses.
HellHeaven: Começando pela capa, ela descreve bem o estado social em que o Mundo se encontra, com os mais ricos e poderosos protegidos e com o resto do Mundo a desmoronar. É deste caos que nasce o «Cansado»? Como olham para o Estado das coisas nos dias de hoje?
Paulo: Mais uma vez o artwork do álbum ficou ao cargo do Moca que já tinha trabalhado connosco no artwork do álbum anterior, "Poço".
A capa acaba por abraçar o cliché das capas old school das bandas dentro deste género musical. Isso significa que pouca coisa mudou desde os anos 80 até agora porque continuamos a deparar-nos com os mesmos problemas. A corrupção contínua, a discrepância de classes, o terror espalhado pelas religiões, a proteção para uns e a opressão para outros, etc... o álbum "Cansado" vem retratar a nossa maneira de vermos esses problemas que nos rodeiam e afetam no dia-a-dia. Infelizmente não vemos no fundo do túnel grandes melhorias e é urgente que elas comecem a aparecer!
HellHeaven: Ao longo do álbum existem temas políticos, de critica social e, talvez, até de responsabilização individual. Acham que após a pandemia e agora com a guerra na Ucrânia o povo ficou mais adormecido e, ao mesmo tempo, deixou-se fragilizar pelo amontar de informação?
Paulo: Não achamos que a pandemia ou a guerra na Ucrânia tenha trazido isso. As pessoas já tropeçavam em fake news e espalhavam sentenças como se dominassem todos os assuntos do momento. A internet inflamou isso e agora não há volta a dar. É uma das principais armas das políticas extremistas porque é fácil indrominar ou ser indrominado. A falsa bondade impera e tem tons de pele. Temos guerras a acontecer um pouco por todo o mundo há décadas e povos a serem aniquilados (exemplo da Palestina) e no entanto a empatia com ambos é bem diferente. A comunicação social tem um papel importantíssimo na empatia que damos às coisas e é pena que a parcialidade no trato não seja igual com todos os povos à volta do mundo. A manipulação e a desinformação sempre existiram agora, simplesmente, é mais fácil cria-las. Ao povo ucraniano deixamos a nossa força assim como a todos povos que vivem em terror de guerra e não são reconhecidos nem apoiados pelo resto do mundo, essa descriminação e hipocrisia tem que acabar!

HellHeaven: O que pode ser feito para alterar este rumo, quase, de auto destruição?
Paulo: As pessoas perceberem de uma vez por todas que vivemos todos no mesmo planeta. É só um planeta, estamos todos aqui metidos por isso não faz sentido o capitalismo desenfreado, o ódio, as guerras, o consumismo desmedido...no final vamos todos para o mesmo buraco por isso não faz sentido termos políticas que nos separam e nos viram uns contra os outros de forma a lucrarem com isso. As pessoas têm de se unir e pôr as diferenças de lado senão continuaremos a ser engolidos pela máquina que a todos apanha.
HellHeaven: «Cansado» acaba por ser o álbum que celebra os vossos 20 anos de carreira, no entanto, existe algo a ser preparado para celebrar a ocasião ou, por outro lado, não há muito para celebrar no meio de toda a imundice?
Paulo: Sim, estamos a pensar mais para o final do ano fazer um concerto dos 20 anos. Acho que temos bastante para celebrar, foram 20 anos de muito rock´n´roll onde fizemos muitas amizades e evoluímos como homens, portanto, celebrar isso com bandas e amigos é a melhor forma de coroarmos esta longa jornada.
HellHeaven: Se em termos de conteúdo continuam a ser cáusticos e corrosivos, em termos de produção parece ter existido aqui um maior cuidado e, sem alterarem muito a «sujidade» do género, conseguiram fazer uma produção moderna. Era esse o objectivo?
Paulo: Neste álbum tentamos algumas abordagens diferentes do que tínhamos feito até agora. É notória uma aproximação à nossa veia mais metaleira, essencialmente ao Death Metal / DeathGrind, e para isso teríamos de ter uma produção que acompanhasse essa abordagem. O álbum foi gravado com o Diogo Agapito no seu I Scream Studios e batalhamos para conseguirmos uma produção que agradasse a todos os envolvidos. Devido ao conflito geracional, ele tem uma visão mais modernizada sobre as coisas, mas conseguiu perceber o que nós queríamos nunca perdendo o toque pessoal dele. No geral todos ficamos satisfeitos com o produto final.
HellHeaven: Quando olham para estas duas décadas qual o balanço que fazem? E, ao mesmo tempo, como olham para a Cena Metal nacional e quais as grandes diferenças?
Paulo: O balanço que fazemos é que podíamos ter feito mais, tanto em lançamentos como em concertos, mas sempre com o sentimento de realização com o que fizemos até hoje dentro das limitações que tivemos ao longo dos anos. A cena nacional teve as suas oscilações e atravessa de momento uma fase complicada devido aos escassos locais para concertos. Apesar de termos tido a evolução da internet e a vinda das redes sociais a gentrificação das cidades e o custo elevado de vida refletiu-se no panorama underground. Vemos bandas com mais qualidade do que há 20 anos atrás mas vemos também a batalha que têm para mostrar o seu potencial sem ser nas plataformas digitais. Por exemplo, aqui no Poço, nestes últimos meses foram lançados álbuns de Haunted Scriptum, Pé Roto, Elitium, Vai-te Foder, The Mighty Mister Shame, Capela Mortuária, Morto...são inúmeras bandas a terem lançamentos oficiais e sem sitio em condições para o apresentarem na cidade que habitam.

HellHeaven: É certo que há 20 anos o Metal era, talvez, menos popular mas, ao mesmo tempo, mais unido. Acham que essa é uma das grandes diferenças que o tempo mostrou? Como olham para o aparecimento de novas bandas e, também, pela forma como o público reage às bandas nacionais?
Paulo: A união do metal está como a união das pessoas na sociedade, cada vez é menos intima e mais digital. A noção de compromisso é diferente, é o reflexo dos tempos em que vivemos. Se perguntares a quem viveu os 80´s ou os 90´s vão-te dizer o mesmo em relação às décadas seguintes, vão-te dizer que na altura deles ainda era melhor. Mudam-se os tempos e as pessoas acompanham essas mudanças. Há aí bandas excelentes a surgir, tanto no metal como no punk, de norte a sul. Existem mais bandas a fazerem tours internacionais, existem mais álbuns a saírem com selo de qualidade, existem mais editoras independentes, existem vários festivais...por isso acho que o público português está a passar uma época dourada no que toca a lançamentos nacionais. Falta apenas aquilo que referi acima, mais espaços para concertos de forma a se restabelecer laços entre bandas e público.
HellHeaven: Com vinte anos já passados, o que poderemos esperar no futuro dos Vai-te Foder e qual a mensagem que deixam para os nossos leitores e vossos fans?
Paulo: Esperamos continuar por aqui mais uns anos e continuar a pôr barulho cá fora. Agora vamos continuar a promover o "Cansado", teremos a edição física do split com Dokuga, "Trapos", dentro de pouco tempo para sossegar quem andou a perguntar por ela e queremos começar já a compor material novo para quebrarmos o hiato que costumamos ter entre lançamentos. Agradecemos a todos que sempre nos apoiaram e pagaram cervejas ao longo destes 20 anos, tem sido uma viagem do caralho!