Os italianos Vision Divine já contam com mais de um quarto de século de carreira. E este ano lançam o seu nono álbum de estúdio “Blood and Angels' Tears” que é apenas a primeira parte de uma obra conceptual. Ainda para mais a banda está confirmada para tocar no próximo ano pela primeira vez no nosso país. Tudo isto foram boas razões para falar com Olaf Thörsen (guitarra). Entrevista: Nuno C. Lopes; Tradução: João Gama

HellHeaven: Olá! Como te sentes em relação a estes já 26 anos de Vision Divine?
Olaf Thörsen: Sinto-me velho! [risos] Sinto-me bem. Esta é uma pergunta que me fazem com frequência desde que completamos 25 anos, e claro, a resposta é mais difícil do que parece. Daí a piada, sinto-me velho, mas ao mesmo tempo sinto que já passou muito tempo. Por isso, é muito difícil de acreditar, porque quando tocas numa banda, tudo acontece de maneira contínua. Parar e pensar que passaram 25 anos é algo estranho. De qualquer forma, é uma honra pensar que ainda estou aqui, e a fazer algo em que as pessoas ainda têm interesse. Quando fizemos os concertos, do 25º aniversário, tocamos um set especial, incluindo o primeiro álbum inteiro. Vi salas cheias de pessoas a cantar aquelas músicas. Olhava para a multidão, e havia pessoas bastante novas. Fez-me sentir-me estranho, como se tivesse sido há 25 anos. Mas fiquei também muito orgulhoso. Claro, nós não somos os Metallica, por isso não somos grandes, mas ainda assim, fizemos algo que nem sequer consigo bem compreender completamente.
HellHeaven: O que dirias se alguém em 1998 te tivesse dito que ainda estaria aqui em 2024?
Olaf Thörsen: Não sei, 25 anos são um quarto de século, não é possível saber. Não é que eu pensasse que teria parado ou desistido da música, quando se gosta de fazer música, é provavelmente algo que se faz para sempre, sem se pensar nisso em termos de uma banda específica ou de um negócio. Quando comecei isto era uma espécie de projeto, e nem fazia ideia se lançaria um segundo álbum, quanto mais agora um nono. (risos)
HellHeaven: O que recordas desses primeiros anos?
Olaf Thörsen: Lembro-me de tudo como se tivesse sido ontem. Por isso fiquei surpreendido quando percebi que já tinham passado tantos anos. Lembro-me de toda uma atitude diferente. Lembro-me de sermos muito novos e da emoção, do grande estúdio. No passado, não se fazia um álbum como hoje em dia. Mudavas-te para o estúdio e vivias lá por um ou dois meses. Foi uma experiência maravilhosa. É uma grande diferença de que me lembro. Naturalmente, ao fim de 25 anos, a experiência faz-nos acreditar nas coisas de uma forma diferente, mas naquela altura eu não tinha experiência, portanto, foi tudo maravilhoso.

HellHeaven: Ainda te sentes como uma criança cada vez que entras num estúdio?
Olaf Thörsen: Sim, é quase uma obrigatoriedade! (risos) Quando não sinto isso, simplesmente não lanço um álbum. É por isso que às vezes espero tantos anos. Porque é um processo que tem de ser divertido. Se não for divertido, simplesmente não estou interessado em fazê-lo.
HellHeaven: E isso traz-nos de encontro ao novo disco, que é muito ambicioso. Apaixonei-me por ele. Não é apenas um disco de metal, é uma ópera, quase, se me permites. Qual foi o desafio que se colocaram a vós próprios quando o criaram?
Olaf Thörsen: Antes de mais, obrigado. Fico muito feliz que tenhas gostado! É essa a reação que estou a receber em geral. Cada vez que se lança algo, nunca se sabe como as pessoas vão reagir, por isso estou mesmo feliz com as reacções. E concordo! Ainda antes de ser lançado, quando o enviamos para a editora, sabia que este álbum era de alguma forma especial. O que me perguntaste é muito importante, porque se relaciona à tal atitude infantil. Sempre que lanço algo novo, especialmente ao fim de tantos anos, devo realmente sentir que é o momento certo. Tem de ser um trabalho de paixão, e não por obrigação. Nunca sairia tão bem se não fosse assim. E ao fim de 25 lembro-me de cada disco, porque sempre que comecei foi um novo desafio, sempre tentei fazer algo melhor. Esta é a nossa sorte de sermos os Metallica. Se fossemos, seríamos tão grandes que o negócio e a rotina de fazer um álbum, ir em digressão, fazer um disco, ir em digressão, acabaria por derrotar a tal criança e a sua paixão. Não é culpa de ninguém, mas é algo que se perde porque estás envolvido no negócio. Estamos numa posição mais confortável. Somos conhecidos. Somos uma boa banda. Temos os nossos próprios fãs, mas se eu quiser esperar alguns anos, posso fazê-lo. Por isso, cada vez que fazemos um álbum tem de ser um desafio, senão mais vale parar. Com este disco sinto mesmo que conseguimos e que demos um passo em frente. E é sempre mais difícil, porque, claro, tenho cada vez mais álbuns atrás de mim.

HellHeaven: E este disco é apenas a primeira parte. Há algo que nos possas revelar quanto à segunda parte?
Olaf Thörsen: Posso dizer que a intenção não era fazer um álbum conceptual em duas partes. Mas enquanto trabalhamos nele sentimos que tínhamos muito material e, muito bom. Um produtor as 10 melhores faixas e descartaria as restantes, o que seria uma pena, porque não tínhamos 10 canções boas e cinco ou seis horríveis. Todas as músicas eram muito boas. Então surgiu a ideia de fazer duas partes e continuamos a escrever. Fazer duas horas de música e depois escolheremos as músicas, adaptando um pouco a história. E isto é algo, mais uma vez, novo para nós. Nunca fiz algo do género. É emocionante porque ao mesmo tempo é muito perigoso: fazes um plano tão grande e depois lanças a primeira parte e se ninguém gosta acabaste por trabalhar tanto para nada. O primeiro álbum ainda está para ser lançado, mas felizmente as reacções são tão boas que agora estamos muito entusiasmados para trabalhar na segunda parte. Após algum descanso pós-lançamento (20 de Setembro) iremos gravar a segunda parte que vai sairá em Setembro de 2025.Vamos aproveitar a oportunidade para ver o que as pessoas gostam da primeira parte, e o que talvez gostem um pouco menos, e depois iremos corrigir as novas músicas corretamente para lançar a segunda parte.
HellHeaven: Fiquei surpreendido e entusiasmado ao começar a escutar o disco. A intro é quase como que ir ao cinema. Faz-te mesmo ficar colado ao álbum. Criá-la foi algo especial?
Olaf Thörsen: Obrigado! Em 25 anos ouvimos muitos discos, e muitos têm uma introdução, que costumamos ouvir talvez na primeira audição, mas depois saltamos. Mas desta vez, tínhamos a história para dois álbuns completos, e originalmente queríamos lançar cada um como uma única música. Mas a editora não gostou da ideia. Até porque estamos na era digital. Então, tivemos de dividir o material em múltiplas faixas. E eu percebo isso, essa é a parte em que não sou bom, que é o negócio. Apesar de assentir, continuamos a encarar tudo como um único filme - um álbum. E escolhemos fazer a introdução com toda a orquestração, soando como música de cinema. Novamente algo que nunca fizemos antes. Duvido que os ouvintes ouçam a intro tanto quanto ouvirão as outras músicas, mas acho que é uma excelente forma de começar um álbum. Chama a atenção do ouvinte de imediato.
HellHeaven: Quando começaram a indústria musical era muito diferente daquilo que é hoje, e também a forma como as pessoas ouvem música mudou. Como vês estas mudanças?
Olaf Thörsen: É completamente diferente. Contei-te que no passado, vivíamos no estúdio durante meses. Não havia o digital como hoje, tínhamos de gravar em cassete. Os nossos primeiros álbuns foram assim. O que quer dizer que se te enganavas não podias simplesmente voltar um pouco atrás e corrigir, tinhas de recomeçar mesmo do início. E isso fazia com que tocasses a música como se estivesses num concerto. Essa é uma grande diferença. É por isso que os álbuns no passado eram mais diretos, porque os estúdios eram muito caros e não se pensava em grande, tipo, posso acrescentar múltiplas camadas nas faixas. Hoje em dia pode-se adicionar centenas de camadas. É confuso, porque o perigo é que o que se ouve agora, quando é ao vivo, já não é a mesma coisa. O álbum soa grandioso, mas ao vivo a banda soará diferente ou para conseguir reproduzir a grandiosidade usará muita coisa em playback. Assim, quando nos aproximamos de um novo álbum, tentamos fazer as coisas à moda antiga, abordando a música como se estivéssemos na era analógica. Assim, tudo o que ouve no álbum foi tocado como no passado. Claro que, se cometer um erro, paro e, desta vez, não tenho de recomeçar do zero, apenas corrijo o que é necessário. Mas o que ouves não é tanto copy-paste.
HellHeaven: Após o lançamento irão em digressão, e desta vez inclui Portugal. O que podemos esperar?
Olaf Thörsen: Sim, será a nossa primeira vez em Portugal. Estivemos a espreitar as últimas edições deste festival Milagre Metaleiro e parece muito porreiro. Tem muita gente e vemos isso como uma grande oportunidade para nos apresentarmos ao público português. No próximo ano, já teremos lançado a parte dois, mas não interessará realmente o álbum do momento. O que gostaríamos de preparar seria um set muito especial, e provavelmente vamos tocar o nosso melhor com músicas de todos os álbuns. Uma vez que os fãs portugueses nunca nos viram tocar em palco queremos dar-lhes o melhor e portanto tocar uma espécie de Best Of. Claro que vamos tocar coisas novas, mas também vamos gostar de trazer algumas coisas boas do passado, por isso faremos uma boa selecção para esse concerto.

HellHeaven: Mas como o novo material é conceptual, como resolvem o desafio de o organizar nesse formato Best Of?
Olaf Thörsen: Não é um grande desafio. A editora pediu-nos para lançar o álbum como que feito de capítulos diferentes, para que possamos facilmente escolher apenas algumas músicas do conceito e tocá-las ao vivo. É apenas necessária a habilidade do vocalista para apresentar e explicar a conexão entre as músicas. Não haverá nada de estranho a acontecer, e os mais curiosos podem sempre espreitar o álbum todo e uma melhor compreensão da história completa. Em palco tudo ficará bem ligado, pois temos vindo a desenvolver o nosso próprio estilo!
HellHeaven: Por fim, que mensagem gostarias de deixar aos vossos fãs / nossos leitores em Portugal?
Olaf Thörsen: Quando me ofereceram para tocar no Milagre Metaleiro, fiquei muito contente porque, como disse, Portugal foi o único país onde nunca tocamos. Seria uma pena não ir, e as coisas acontecem quando devem acontecer. Isso significa que o próximo ano será o momento certo. Estou muito feliz porque gosto de Portugal. Adoro o país. Somos todos países latinos, por isso temos a mesma paixão e será uma honra para nós estarmos aí. E posso prometer que faremos o nosso melhor para proporcionar um espetáculo inesquecível.