WASTE DISPOSAL MACHINE - "os últimos, pelo menos, dez anos da experiência humana têm sido crescentemente negros e assustadores" (Entrevista)

«Chimaæra» marca o regresso dos Waste Disposal Machine depois de uma longa ausência das lides discográficas, contudo a espera valeu a pena e a banda volta a mostrar a sua identidade. A HellHeaven esteve à conversa com a banda para fazer um resumo da matéria dada. Entrevista: Nuno C. Lopes

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HellHeaven: Começo por vos dar os parabéns, em dose dupla, pelo regresso e pelo novo “Chimæra”. Como se sentem em relação a estes dois momentos e quais as expetativas em torno do álbum?
Waste Disposal Machine: Obrigado. O regresso é só um regresso em termos de exposição pública, uma vez que nunca deixámos de existir e de trabalhar em conjunto, excepto durante “aquele” período da pandemia. As expectativas quanto ao novo álbum são um bocado o habitual: esperamos que tenha uma boa aceitação e que nos eleve um patamar em relação ao que conseguimos anteriormente, sabendo que uma ausência discográfica de dez anos não será o melhor trunfo na vida de uma banda, mas aconteceu e agora é tentar minimizar eventuais impactos negativos dessa ausência discográfica.

HellHeaven: Foram, praticamente, dez anos de ausência discográfica, a que se deveu esse silêncio e o que estiveram a fazer neste período de tempo?
Waste Disposal Machine: Houve vários factores a contribuir para essa ausência. Em primeiro lugar, até meados de 2016, andámos ocupados com concertos de promoção ao segundo álbum, “Debris”. Nessa altura, creio que após o Verão de 2016 começámos a trabalhar nos temas para o terceiro álbum e esse foi um processo longo (nenhum de nós é músico a tempo inteiro e as nossas profissões limitam o tempo que podemos estar a trabalhar juntos). Quando os temas estavam compostos e preparados para começar a gravar, foi preciso acertar datas em estúdio e com o produtor, Fernando José Matias, e a seguir… aconteceu a pandemia e isto veio atrasar tudo para aí em um ano, ou mais. Após a pandemia, fomos gravando os temas ao longo de mais de um ano e só quando estava finalmente tudo pronto (gravações e misturas) é que procurámos editora e, após o acordo com a Raging Planet e a Chaosphere Recording, foi necessário encontrar um calendário de edição conveniente para todos os envolvidos (banda e editoras).

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HellHeaven: Existe o mito em torno do terceiro álbum, neste caso o tema acresce o facto do tempo entre discos, sentiram algum tipo de responsabilidade na realização do álbum? Qual foi o maior desafio?
Waste Disposal Machine: Nunca pensámos neste álbum como “o terceiro álbum” nesse sentido e, portanto, não sentimos essa responsabilidade. Sentimos, sim, a responsabilidade de fazer um álbum que, pelo menos, igualasse, e idealmente ultrapassasse, a qualidade dos primeiros dois álbuns, fosse em termos de composição, fosse em termos de produção e temos a sensação de que o conseguimos fazer. O maior desafio, além de ultrapassar os constrangimentos de tempo com que nos fomos deparando, foi apresentar um álbum variado musicalmente e, apesar dessa variedade, coerente e que soasse a uma entidade musical e não a um conjunto de temas desconexos. Parece-nos, mas somos suspeitos, obviamente, que também conseguimos superar esse desafio e (sim, todos dizem o mesmo) sentimos mesmo que este é o melhor trabalho de Waste Disposal Machine até à data.

HellHeaven: Neste tempo muita coisa mudou na indústria e na forma como o público consome música. Como olham para estes novos hábitos e de que forma podem ajudar (ou não) uma banda como os WDM?
Waste Disposal Machine: Olhamos com a naturalidade possível, sabendo que as coisas são o que são e que não nos adianta de nada tentar combater estes novos hábitos de consumo musical. Não vai ser uma banda, que não é profissional e que se movimenta num meio underground razoavelmente limitado, a conseguir alterar seja o que for nesse aspecto. Não pensamos muito na forma como isto pode ajudar ou prejudicar a banda – e, se calhar, devíamos… - mas de certeza que, mesmo para uma banda como nós, isto terá aspectos positivos e aspectos negativos. Por um lado, permite-nos, esperamos, que mais pessoas fiquem a conhecer o nosso trabalho. Por outro lado, e se pensarmos mais, não tanto nos hábitos de consumo, mas na forma de comunicar com o público através das redes sociais, se calhar já não nos será tão benéfico porque temos alguma resistência às mesmas (por exemplo, dois terços da banda nem sequer têm qualquer conta em redes sociais…). Ainda assim, tudo somado, vamos tentando usar as ferramentas que existem, mas não é nada que nos tire o sono.

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HellHeaven: Não existe apenas um rótulo para descrever a vossa sonoridade e, ao longo destes 9 temas somos abraçados por diferentes paisagens sonoras. Como descreveriam o som da banda e qual o desafio de juntar todos os elementos na música?
Waste Disposal Machine: Desde o início da banda, uma das ideias que esteve sempre presente em Waste Disposal Machine foi a da mistura de elementos musicais, muitas vezes díspares, (metal, electrónica, rock, pop…) e de incorporar na nossa sonoridade toda e qualquer influência dos elementos da banda e nesse sentido não nos impomos limites musicais ou outros. Durante muito tempo eramos descritos como industrial metal e movimentámo-nos bastante no circuito electro/goth/industrial. Actualmente, diríamos que somos essencialmente uma banda de rock electrónico, embora, lá está, continuemos a incorporar muitos elementos de heavy-metal e derivados e alguns de industrial e até de hip-hop (há um tema neste álbum que, para nós, é um tema de hip-hop…). A sonoridade da banda é no fundo isso: misturar, mesclar, interligar mundos aparentemente incompatíveis e tentar com isso construir algo que nos é característico. O desafio maior é conseguir que destas misturas resulte algo de coerente e não uma manta de retalhos sem nexo. Isto já é tão “identitário” na banda que o fazemos de forma natural.

HellHeaven: Este álbum é negro no que toca a conceito e temas como isolamento, manipulação ou falta de esperança são presença ao longo do álbum. Onde se basearam para estes temas? Consideram que os tempos actuais permitem uma maior facilidade em abordar este tipo de temas?
Waste Disposal Machine: O universo da banda nunca foi exactamente luminoso e não deve haver nenhum tema de Waste Disposal Machine que seja “optimista” … Este álbum é provavelmente ainda mais negro e violento ao nível das letras do que os anteriores, possivelmente porque os últimos, pelo menos, dez anos da experiência humana têm sido crescentemente negros e assustadores. Por outro lado, eu (João Gonçalves), que escrevo todas as letras, cheguei a um ponto em que já não acredito em qualquer redenção da humanidade e a minha esperança quanto a um futuro de “paz e harmonia” é nula. Não será por acaso que um dos temas do álbum se chama “Future Grim” e não há nesse título qualquer tipo de ironia. Infelizmente, sim, estes tempos de crescimento de extremismos, de crescente manipulação das populações através de novos meios (redes sociais, algoritmos e afins) ou da cada vez mais provável catástrofe climática e ambiental, tornam razoavelmente fácil abordar estes temas. Acresce também que os universos musicais, literários e cinematográficos que “frequento” tendem a ser eles também negros e é natural que isso também se reflicta no que escrevo.

HellHeaven: “Chimæra” tem ilustres, e distintos, convidados como Birds Are Indie, Rute Fevereiro. Como é que eles surgem no disco e qual a influência deles nos tempos em que contribuíram?
Waste Disposal Machine: Os Birds Are Indie surgiram porque a letra daquele tema – “The Walk” – são duas pessoas, uma mulher e um homem, a falar e nos Birds há um casal que canta muitos temas em conjunto ou em complementaridade. Pareceu-nos uma escolha óbvia e melhor opção do que ter uma cantora a fazer um dueto comigo, porque entre eles essa química já existe. O Bill Rivers surge porque o tema que ele canta, “Future Grim”, precisava de alguém que soubesse mesmo cantar e que tivesse aquele timbre vocal e aquele estilo de cantar. A Rute Fevereiro aparece mesmo já no final do processo, por sugestão do nosso produtor (Fernando José Matias), porque nós “ouvíamos” no refrão um coro “operático” e fomos brincando com essa ideia até que o Fernando disse, a sério, “eu consigo-vos isso” e conseguiu. Conseguiu ele e conseguiu a Rute que, literalmente, fez sozinha o coro de vozes femininas que se ouve no “Sordideities”.

HellHeaven: Já apresentaram o álbum nos palcos, como é que foi regressar e que planos existem mais no que diz respeito a apresentações ao vivo?
Waste Disposal Machine: Ainda não apresentámos o álbum ao vivo, embora dois ou três dos temas já tenham sido tocados ao vivo em concertos esporádicos que fizemos integrados num programa de apoio aos músicos e trabalhadores e empresas ligados à música no concelho de Tomar afectados pela pandemia. O primeiro concerto de apresentação do álbum vai acontecer em julho e depois haverá mais concertos, a partir de finais de setembro ou princípios de outubro. Portanto, ainda não sabemos como vai ser regressar aos palcos (já não actuamos ao vivo desde 2021), mas estamos cheios de vontade de o fazer e a ansiedade já começa a crescer.

HellHeaven: Temos assistido a um, cada vez, maior número de festivais em Portugal mas, em contraponto, temos visto cada vez menos salas. Na vossa opinião o que é que isto mostra e como olham para o estado actual da música (e do Rock/ Metal) nacional?
Waste Disposal Machine: O crescimento do número de festivais, à partida, é algo positivo. O desaparecimento de salas é péssimo, obviamente. Haverá uma relação entre uma coisa e outra?... Nunca pensámos nisso. Claramente, o público português gosta de música e gosta de ir a concertos. Já não parece é gostar tanto de assistir a concertos em salas ou clubes e é pena, até porque parece haver um número significativo de bandas e artistas que, aparentemente, são invisíveis para o circuito dos festivais. Depois, não temos a certeza de que a construção de públicos se faça a partir de festivais e aí as salas tinham, têm, um papel fundamental. Por exemplo, cidades onde há uma ou mais salas de concertos e programação regular de concertos tendem a ter mais gente a fazer música e mais bandas. Curiosamente, o actual estado da música nacional – em termos do número de propostas e de qualidade – nunca foi tão rico e variado como actualmente.

HellHeaven: Qual a mensagem que deixam para o público e para os nossos leitores…
Waste Disposal Machine: Em primeiro lugar, agradecemos à HellHeaven o apoio e divulgação do nosso trabalho e o trabalho que desenvolve pela música. Ao público e aos leitores: vão a concertos o mais que possam, continuem a apoiar as bandas e artistas, comprem-lhes os discos e não deixem morrer o circuito nacional, até porque a música é uma das artes fundamentais do ser humano e tem um poder que, se calhar, às vezes desprezamos.

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