A banda dinamarquesa Withering Surface celebrou há pouco 30 anos, apesar de ter sofrido um logo hiato pelo meio. A HellHeaven esteve portanto à conversa, com Allan Tvedebrink (guitarra), a recordar a história da banda, mas também sobre o novo álbum “Exit Plan” que sairá em Junho. Entrevista: Nuno C Lopes

HellHeaven: Começo por vos saudar pelo novo álbum “Exit Plan”, qual o sentimento por estar de volta e qual o teu pensamento em relação ao resulto final do disco?
Allan Tvedebrink: Muito obrigado pelas palavras e pelo convite! Lançar o “Exit Plan” é fantástico! Já passou tanto tempo desde que começou a ser escrito! Logo depois do “Meet Your Maker” (2020) senti que poderíamos fazer melhor ou, pelo menos, fazer algumas coisas de forma diferente, acho que isso é comum em todos os artistas! Conseguimos fazer as coisas de forma rápida com os temas e em 2022 começámos logo a tratar deste lançamento! Pelo meio ainda tivemos que encontrar um guitarrista, uma gravação de bateria merdosa ao ponto de termos pedido ao anterior baterista para as gravar novamente, o que melhorou o resultado final. Houve um afastamento para escrever novos temas, perdemos o nosso teclista, o que me obrigou a gravar tudo! Portanto, quando digo que é fantástico estar de volta, não é apenas pela música, e estou muito satisfeito com o resultado! É o regresso do cliché: “é o nosso melhor álbum até hoje”! (risos)
HellHeaven: A banda começou em 1993 mas teve algumas paragens pelo caminho. Onde foram encontrar as forças para regressar e qual o motivo para essas separações e o que vos fez regressar?
Allan Tvedebrink: Apenas nos separámos uma vez, em 2004, e foi o resultado de muitas coisas! Acho que começámos a ficar cansados uns dos outros e de todo o trabalho organizacional que nada tinha a ver com música! Foi ficando mais difícil encontrar um acordo sobre a direção a levar e batalhávamos muito para ter um bom momento no estúdio! Senti necessidade de fazer algo completamente diferente de Metal melódico, e foi isso que fiz com os The Kandidate e Thorium! Mas, passado algum tempo, dei comigo a escrever material melódico e percebi que é disso que gosto! Por coincidência o Michael(vocalista) e o Jacob (bateria) andavam a falar de voltar a trazer a banda ao activo e perguntaram-me se me juntava a eles! Concordámos em fazer algumas coisas para ver se funcionava e, muito rapidamente, escrevemos um álbum! Falámos com todos os ex-integrantes e todos se juntaram, excepto o baixista que estava muito ocupado e se tinha afastado do género, mas encontrámos o Jesper que é um grande substituto e o resto é história!
HellHeaven: Com isso dito, os Withering Surface estão por cá há 3 décadas. O que te lembras dos primeiros anos e como olhas para o percurso da banda?
Allan Tvedebrink: Merda! Isso é que é uma boa questão! (risos) Lembro-me que antes tudo era tão diferente, ainda que “só” tenham passado 15 anos entre a separação e a reunião! Nessa altura era tudo analógico, amplificadores reais, jams e escrever na sala de ensaio… enviar Cds, nada a ver com esta coisa dos e-mails, haviam as cartas, o tape trading, criar ligações nos concertos! Agora é tudo online e tudo é mais facilitado, dependendo do que estás a fazer! Claro que abracei a tecnologia, é óptimo para fazer colaborações, mas no que toca a criar ligações é mais complicado, não é muito natural, para nós, estar presente de forma digital a todo o momento, mas este é o caminho e vamos ver como as coisas funcionam! Claro que o online traz a vantagem para pessoas como nós, com famílias, carreiras e com dificuldades de agenda para estarmos juntos em estúdio...antes havia muita bebida e diversão no estúdio e andar em tour era, acima de tudo, uma diversão, o que levava a que muita gente andasse sempre fodida e em festas após os concertos! Agora temos uma postura mais madura, ainda que a festa esteja lá, no entanto agora a música está primeiro e estamos velhos para andar nessa vida como antes! (risos)

HellHeaven: O “Meet Your Maker” foi o vosso disco de regresso mas, devido à pandemia, não conseguiu ter a promoção que deveria. Como é que isso vos fez sentir?
Allan Tvedebrink: Foi frustrante! Obviamente decidimos lançar o álbum no início da pandemia! Claro que pensámos em adiar, mas trabalhamos tanto para o fazer e não sabíamos o tempo que ia durar, mas tínhamos duas certezas: muitos álbuns seriam adiados e iriam sair muitos projetos de músicos que não podiam andar em tour e que esses discos iriam prejudicar um álbum como o nosso, fazendo com que não soasse tão fresco! Por isso lançámos e vimos os planos de digressão afundarem, fizemos alguns concertos, pequenos, na Dinamarca passado meio ano, mas claro que não era a mesma coisa e longe do impacto que gostaríamos de ter tido!
HellHeaven: A banda tem uma nova formação com a entrada de um novo baterista e guitarrista. O que é que os novos elementos trouxeram para os Withering Surface?
Allan Tvedebrink: Quando nos estávamos a preparar para gravar o álbum o Marcel (Lysgaard, guitarrista) decidiu dedicar-se à sua vida fora da música, foi uma boa altura porque seria triste lançar o álbum com ele e depois ele não estar na digressão… com o baterista foi quase a mesma coisa, mas deixa-me elaborar. Quando o Jacob voltou deixou claro que não queria tocar muito ao vivo e nós concordámos. Mas depois o “Meet Your Maker” saiu e eu e o Michael sentimos a necessidade de levar a nossa música para o palco. Ainda o tentámos convencer, mas não foi possível e tivemos de o deixar ir. Ele não partilhava connosco a paixão de tocar ao vivo e queria que encontrássemos um novo baterista. Foi o que fizemos e lutamos um pouco para encontrar um novo baterista. Encontramos o Daniel que estava super ocupado em outras duas bandas e que se queria mudar para o outro lado do país para estudar música. Com pressa e pressionados pelo tempo, gravamos a bateria, mas enquanto eu gravava a guitarra nessas faixas, tornou-se óbvio para mim que não estava bom o suficiente e que o havíamos estressado demais. Então decidi que deveríamos regravá-los, mas nossos planos para o presente e o futuro não pareciam promissores. Decidimos dispensar o Daniel e pedimos ao Jacob para gravar a bateria e ele ficou ansioso para o fazer. Adoramos trabalhar juntos e, desde que não incluísse espectáculos, ele adoraria fazê-lo. E o resultado é incrível! Mas ainda precisávamos de um baterista permanente, por isso contratamos o Troels da banda dinamarquesa Avarice. Ele é um gajo bacano e talentoso e adoramos tocar com ele. Mal podemos esperar para sair e tocar ao vivo com ele!
Recuando um pouco, enquanto toda essa situação do baterista se desenrolava, encontramos o Marco, que também toca guitarra nos Meridian e em várias outras bandas. Ele também tem um estúdio e é um grande músico. Para este álbum ele fez cerca de metade dos solos e eu batalhei com ele em várias coisas, por isso acabou por ter um grande impacto no “Exit Plan” e estou ansioso para escrever novo material com ele. Embora goste de escrever sozinho, também gosto de me inspirar e colaborar na escrita.
Por fim, o nosso teclista Morten saiu pouco antes de criar as suas partes. Todos nós previmos a sua saída, portanto foi realmente surpreendente que de repente eu tivesse que criar as partes do teclado. Mas eu gostei e Marco tratou das teclas numa faixa, e também foi divertido colaborar. Estamos ainda a tentar encontrar o substituto certo para o Morten, mas por enquanto somos um quinteto e espero que agora tenhamos encontrado uma formação estável, certamente assim parece quando estamos juntos.
HellHeaven: “Exit Plan” parece não ser apenas uma declaração da banda, como também um disco muito pessoal. Qual é o conceito do disco e qual é a mensagem geral de “Exit Plan”?
Allan Tvedebrink: Bem, as letras que o Michael escreve são sempre pessoais, é difícil para mim desvendar tudo. Mas o conceito lírico geral de “Exit Plan” é sobre quebrar limites e normas que te foram estabelecidas. Trata-se de sair de um período mental da tua vida e recomeçar. Saberes claramente em que ponto estás, para onde queres ir e onde eventualmente acabarás, daí ser um “plano de saída”. São reflexões sobre a vida, sexo, religião e uma visão desvanecida da humanidade.
HellHeaven: Em algumas músicas podemos sentir o descontentamento em relação à Humanidade e às sociedades, especialmente em “I Finally Lost (All Faith in Humanity)”. Sentes que nos últimos anos estivemos na primeira fila a assistir ao fim das sociedades? E como vês o mundo hoje em dia?
Allan Tvedebrink: Só posso falar por mim, mas sim, o mundo sempre foi um lugar fodido. Em todos os lugares, as pessoas no poder encontram sempre formas de conflito. Não acho que estejamos a chegar ao fim. Mas à medida que envelheço, a minha crença de que o mundo pode ser um lugar melhor (de que aprendemos com os nossos erros e de que a sociedade moderna com a digitalização, a globalização, o ensino superior e assim por diante, será capaz de se unir para um futuro melhor) está a diminuir.
HellHeaven: De alguma forma, parece que, desde a pandemia, o mundo se tornou mais fraco e frágil, mas com mais raiva e fúria quando, provavelmente, deveria ser ao contrário. Qual pode ser a solução?
Allan Tvedebrink: Sim, penso nisso, e penso que estás certo. No início da pandemia estávamos interessados em sobreviver juntos a tudo isso. As pessoas uniram-se e os mais afortunados estavam ansiosos por ajudar os mais fracos e tentar fazer a diferença. Mas à medida que a situação se desenvolvia, houve também um grande desvio de pessoas que tentar tirar proveito da situação e surgiram muitas opiniões diferentes sobre a gestão do vírus. O debate sobre a vacinação, a gestão financeira e política e por aí fora. No fim, os humanos são apenas humanos e querem cuidar de si e dos seus quando os tempos estão difíceis, em vez de trabalharem em prol de um objetivo comum. Penso que as lutas da humanidade serão sempre uma constante. E mesmo no final da nossa luta comum vimos a guerra na Ucrânia e agora a guerra entre Israel e o Hamas. É uma vergonha. É uma pena que as pessoas simplesmente não consigam coexistir em harmonia. Não entendo e obviamente não tenho uma solução. Mas no final das contas, o que podes fazer é reflectir no que funciona para ti. Não te podes forçar a salvar o mundo, a menos que isso seja a missão da tua vida. Tento viver a minha vida de uma forma positiva e a única forma de tentar tornar o mundo num lugar melhor é continuar a ser optimista e concentrar-me nos aspectos positivos em vez dos negativos e, dessa forma, inspirar as pessoas a viverem uma vida melhor.
HellHeaven: Agora que já podem promover “Exit Plan” adequadamente e ir em digressão, já começaram a fazer planos?
Allan Tvedebrink: Sim, estamos muito focados em aproveitar estas melhores oportunidades. Temos algumas datas em festivais no verão e outono. Também tínhamos planos para uma longa digressão europeia, mas que saíram furados. Estamos ansiosos por uma grande digressão pela Dinamarca no início do próximo ano, algo que não posso revelar neste momento. E também vamos tocar no Japão pela primeira vez em Outubro. Estamos ansiosos por isso! Estamos a trabalhar para conseguir outra digressão fora da Dinamarca, só falta surgir a oferta certa. Na última década, vimos uma queda tremenda nas vendas de álbuns físicos e uma grande tendências de extensas digressões para compensar as vendas ruins. Ainda bem que as pessoas estão a ir aos espectáculos como nunca antes.
HellHeaven: O que podemos esperar dos Withering Surface no futuro e qual a mensagem que deixas aos teus fãs portugueses?
Allan Tvedebrink: Em primeiro lugar, podem esperar que continuemos activos. Estamos focados, adoramos fazer o que fazemos e estamos mais unidos que nunca. Não importa como esteja a situação das vendas e digressões, mencionada acima, continuaremos a fazer o que mais gostamos: criar música e partilhá-la com o mundo. Estamos a fazê-lo por nós mesmos e estão convidados a participar na nossa jornada. Já temos ideias para o próximo álbum em que nos iremos concentrar assim que o ciclo de lançamento do “Exit Plan” terminar. A nossa intenção de fazer digressões está também mais forte do que nunca e é apenas uma questão de tempo até irmos para o estrangeiro e adoraríamos tocar em Portugal. Nunca aí estive, mas estou a planear aí as minhas férias de verão, por isso aceito sugestões! Espero que os metaleiros portugueses abracem a nossa música e apoiem os Withering Surface, precisamos disso e apreciamos toda a vossa ajuda!
E obrigado novamente por esta entrevista, significa mesmo muito para nós!